| Login | Crie o seu Jornal Online FREE!

Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

Capa |  CAPOEIRA VIRTUAL  |  CRÔNICAS  |  EVENTOS  |  LIT.CLÁSSICA  |  NOTÍCIAS


 CRÔNICAS
  24/08/2005
  0 comentário(s)


Ainda sobre a Punga dos Homens - Maranhão
Visita à Câmara Cascudo: crônica por Leopoldo Vaz - São Luis do Maranhão
Ainda sobre a Punga dos Homens - Maranhão Nova pagina 1

Jornal do Capoeira - Edição 44: 22 a 28 de Agosto de 2005

EDIÇÃO ESPECIAL estendida - CAPOEIRA & NEGRITUDE

 

Por LEOPOLDO GIL DULCIO VAZ

Professor de Educação Física do CEFET-MA

Mestre em Ciência da Informação

 

O Confrade Carlos Carvalho Cavalheiro mandou-me alguns sítios sobre a capoeira, a punga, e o tambor-de-crioula. Interessante, e instigante. Especialmente quando se refere às varias manifestações, em seus comentários, que são identificadas com/como Capoeira. Passemos a Luís da Câmara Cascudo e seu "Dicionário do Folclore Brasileiro", obra obrigatória - primeira edição de 1954, a segunda de 1959 - e, a terceira que estou usando, de 1972, Tecnoprint.

Registra a página 148, o termo "Bate-coxa", manifestação das Alagoas, uma dança ginástica: "a dança do bate-coxa não se confunde com a capoeira. Os praticantes são da mesma origem, descendentes de escravos".

Acredita Câmara Cascudo que o bate-coxa seja mais violento, onde os dois contendores, sem camisa, só de calção, aproximam-se, colocando peito a peito, apoiando-se só nos ombros, direito com direito. Uma vez apoiados os ombros, ao som do canto de um grupo que está próximo, ao ouvir-se o ê boi, ambos os contendores afastam a coxa o mais que podem e chocam-se num golpe rápido. Depois da batida, a coxa direita com a coxa direita, repete a esquerda, chocando-se bruscamente ao  ouvir o ê boi do estribilho. A dança prossegue até que um dos contendores desista e se dê por vencido.

Por "capoeira" registra: jogo atlético de origem negra, ou introduzida no Brasil por escravos bantos[1] de Angola, defensivo e ofensivo, espalhado pelo território e tradicional no Recife, cidade de Salvador e Rio de Janeiro, onde são reconhecidos os mestres, famosos pela agilidade e sucessos.

Informa o grande folclorista  que, na Bahia, a capoeira luta com adversários, mas possui um aspecto particular e curioso, executando-se amigavelmente, ao som de cantigas e instrumentos de percussão, berimbaus, ganzá, pandeiro, marcando o aceleramento do jogo o ritmo dessa colaboração musical. No Rio de Janeiro e Recife não há, como não há notícia noutros Estados, a capoeira sincronizada, capoeira de Angola e também o batuque-boi.

Refere-se, ainda, à rivalidade dos guaiamus e nagôs, seu uso por partidos políticos e o combate a eles pelo chefe de Polícia, Sampaio Ferraz, no Rio de Janeiro, pelos idos de 1890. O vocábulo já era conhecido, e popular, em 1824, no Rio de Janeiro, e aplicado aos desordeiros que empregavam esse jogo de agilidade.

No ano de 1926, foi publicada uma série de artigos sobre "Capoeira e Capoeiragem" no Jornal Rio Sportivo, edições de 16/06, 19/07, 6 e 16/09, 18/10, escritos por Adolfo Morales de Los Rios. Sugerimos que o Editor do Jornal do Capoeira, Miltinho Astronauta, entre em contato com Mestre André Lace, para que possamos recuperar esses artigos e incluí-los na seção "Literatura Clássica" do jornal, com os devidos comentários.

Por "Batuque" - dança com sapateados e palmas, ao som de cantigas acompanhadas só de tambor quando é de negros ou também de viola e pandeiro "quando entra gente mais asseada".

Batuque é denominação genérica de toda dança de negros na África. Batuque é o baile. De uma descrição de um naturalista alemão, em visita às Gerais, em 1814/15, ao descrever a dança, fala da umbigada [punga].

Com o nome de "batuque" ou "batuque-boi" há uma luta popular, de origem africana, muita praticada nos municípios de Cachoeira e Santo Amaro e capital da Bahia, uma modalidade de capoeira. A tradição indica o batuque-boi como de procedência banto, tal e qual a capoeira, cujo nome tupi batiza o jogo atlético de Angola.

É descrita por Edson Carneiro (Negros Bantos) - a luta mobilizava um par de jogadores, de cada vez; dado o sinal, uniam as pernas firmemente, tendo o cuidado de resguardar o membro viril e os testículos. Dos golpes, cita o encruzilhada, em que o lutador golpeava coxa contra coxa, seguindo o golpe com uma raspa, e ainda o baú, quando as duas coxas do atacante devam um forte solavanco nas do adversário, bem de frente. Todo o esforço dos lutadores era concentrado em ficar de pé, sem cair. Se, perdendo o equilíbrio, o lutador tombasse, teria perdido a luta. Por isso mesmo, era comum ficarem os batuqueiros em banda solta, equilibrando-se em uma única perna, e outra no ar, tentando voltar aposição primitiva.

Do vocábulo "batuque-boi", registra: espécie de Pernada. Bahia.

Voltemos a Pernada. Câmara Cascudo  informa que assistiu a uma pernada executada por marinheiros mercantes, no ano de 1954, em Copacabana, Rio de Janeiro. Diziam, os marinheiros, que era carioca ou baiana. É uma simplificação da capoeira. Zé da Ilha seria o "rei da pernada carioca"; é o bate-coxa das Alagoas.

Ainda Edson Carneiro (Dinâmica do Folklore, 1950) informa ser o batuque ou pernada, bem conhecido na Bahia e Rio de Janeiro, não passa de uma forma complementar da capoeira. Informa, ainda, que na Bahia, somente em arraiais do Recôncavo  se batuca, embora o bom capoeira também saiba largar a perna.  No Rio de Janeiro já se dá o contrário - a preferência é pela pernada, que na verdade passou a ser o meio de defesa e ataque da gente do povo.

O batuque na Bahia se chama batuque, batuque-boi, banda, e raramente pernada - nome que assumiu no Rio de Janeiro... Ficaram famosos como mestres na arte do batuque, Angolinha, Fulo, Labatut, Bexiga Braba, Marcelino Moura...

A orquestra das rodas de batuque era a mesma das rodas de capoeira - pandeiro, ganzá, berimbau.

 

Leopoldo Vaz

Foto por Augusto Celso Elarrat Canto - Elarrat - de Macapa, Professor aposentado do CEFET-MA, que passando uma temporada em São Luis aproveitou para registrar uma Reunião entre o professor Leopoldo e alguns mestres e capoeira.


[1] Bantos - grupo de cerca de 50 milhões de homens na África Central e SE, falando 254 línguas e dialetos aparentados. Banto é família lingüística e não etnográfica ou antropológica.

 




  Mais notícias da seção Maranhão no caderno CRÔNICAS
22/05/2006 - Maranhão - O VÔO DO FALCÃO
Mudanças de paradigma no ensino da Capoeira?...
30/04/2006 - Maranhão - Os Holandeses e os Palmares
Nassau atacou os Palmares!...
16/04/2006 - Maranhão - Capoeira em Construção
Sobre a construção coletiva da capoeira do "Grupo Angoleiros da Barra" - GABA - Maranhão, que conta com a participação especial dos Índios Guajajaras...
05/03/2006 - Maranhão - E A CORDA, QUEM INVENTOU?
PESQUISA: Neste artigo o autor, Irapuru Iru Pereira, questiona: quem e quando inventou-se o uso da corda, cordel e cordão como símbolo hierárquico da Capoeira?...
12/03/2006 - Maranhão - Angoleiros da Barra
Breve histórico do Grupo Angoleiros da Barra - GABA-, em Barra do Corda, Maranhão e da vida capoeirística de IRAPURU IRU PEREIRA, um de seus idealizadores...
05/03/2006 - Maranhão - ATLAS DA CAPOEIRAGEM NO MARANHÃO
Conversando com Antônio José da Conceição Ramos, o MESTRE PATINHO...
05/02/2006 - Maranhão - Angoleiros em Barra da Corda (MA)
Crônica pelo professor Leopoldo Vaz, São Luis, Maranhão...
18/12/2005 - Maranhão - Capoeiragem, Guarda Negra & O fuzilamento do dia 17 :: Parte III
Apresentamos mais informações sobre Guarda Negra e a Capoeiragem...
11/12/2005 - Maranhão - Capoeiragem, Guarda Negra & ISABELISMO :: Parte II
Nesta crônica o autor apresenta mais algumas informações sobre a Capoeiragem e a Guarda Negra, tendo-se como enfoque desta semana o "ISABELISMO"...
04/12/2005 - Maranhão - Capoeiragem e a Guarda Negra :: Parte I
Nesta crônica o autor apresenta alguns fatos relacionados à Capoeiragem e à Guarda Negra (Rio de Janeiro), enquanto ele, o autor, busca indícios da presença da própria Guarda Negra em São Luis do Maranhão. ...
30/10/2005 - Maranhão - O que é a Capoeira?
Crônica com uma abordagem muito interessante por Leopoldo Vaz, na qual o autor faz uso de algumas matérias recentes do Jornal do Capoeira para enquadrar o questionamento "O que é a Capoeira?", ou melhor dizendo, "como o que a capoeira vem sendo tratada recentemente?"...
28/08/2005 - Maranhão - Jiu-Jitsu no Maranhão
Novos apontamentos para sua História, com informações adicionais referentes à nossa Capoeiragem no século XIX ...
19/08/2005 - Maranhão - Breves Observações Sobre Tambor de Crioula
Mestres e estudiosos da Capoeiragem em São Luis do Maranhão tem discutido a relação entre nossa arte e a "punga dos homens" e "tambor de crioula". Neste sentido, Mestre Marco Aurélio traz algumas considerações sobre o "Tambor de Crioula"....
01/08/2005 - Maranhão - Pesquisa: A Capoeira na Economia
Estudo de Caso: Qual a participação da Capoeira no PIB de São Luis do Maranhão?...
18/07/2005 - Maranhão - Qual Capoeira?
Neste artigo o autor, professor Leopoldo Vaz, do Maranhão, apresenta algumas denominações de nossa Capoeira naquele Estado, e propôe uma pesquisa de opinião quais capoeiras existem realmente?...
04/07/2005 - Maranhão - Capoeiragem no Maranhão
Esta é a sexta parte do estudo que o Prof. Leopoldo Vaz está desenvolvendo sobre a Capoeiragem no Maranhão. Neste artigo, Leopoldo explora a Capoeira "Carioca", além de explorar, de forma positiva, a contribuição de Mestre SAPO para a Capoeira Maranhense....
26/06/2005 - Maranhão - Capoeira no Maranhão
Este é o quinto texto da série, e fala sobre a Capoeira Regional...
29/05/2005 - Maranhão - Capoeiragem no Maranhão - Parte IV - Capoeira Angola
Nesta edição do Jornal do Capoeira publicamos a quarta parte da série de artigos sobre a Capoeiragem no Maranhão. Os artigos são frutos de um trabalho de pesquisa elaborado sob a coordenação do Professor Leopoldo VAZ (CEFET-MA)...
23/05/2005 - Maranhão - Capoeira no Maranhão - Angola ou Regional?
Esta é a terceira parte do estudo que o professor Leopoldo Vaz têm publicado no Jornal do Capoeira, referente a Capoeira no Maranhão...
02/05/2005 - Maranhão - Capoeira no Maranhão - Parte II
Segunda parte do artigo "Capoeira no Maranhão", de autoria do Professor Leopoldo Vaz...
25/04/2005 - Maranhão - Capoeira em Sao Luiz do Maranhão
Mestre Eli Pimenta (São Paulo) escreve sobre a Capoeira em São Luiz do Maranhão, meados do século XIX (1863), trazendo novos subsídios para o entendimento do fenômeno da Capoeiragem no Brasil...
18/04/2005 - Maranhão - Capoeiragem no Maranhão
Artigo enviado por Leopoldo Gil Dulcio Vaz...



Capa |  CAPOEIRA VIRTUAL  |  CRÔNICAS  |  EVENTOS  |  LIT.CLÁSSICA  |  NOTÍCIAS