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Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br
Edição 64 - de 12 a 18/Mar de 2006
São Luis do Maranhão-MA
- Março de 2006 -
Na edição 63 do Jornal do Capoeira publicamos matéria sobre uma entrevista com Mestre Patinho. Além da entrevista em si, publicamos também seu PERFIL DE MESTRE, que é resultado de um estudo que tenho feito com meus alunos da Universidade Estadual do Maranhão - UEMA. Pouco a pouco estaremos também publicando os perfis de vida dos demais mestres da capoeira maranhense.
Nas próximas três edições do Jornal do Capoeira estarei apresentando algumas informações históricas sobre Capoeira em solo maranhense. Este breve histórico é fruto de pesquisas e entrevistas que tenho feito nos tempos recentes sobre a capoeira, capoeiragem ou carioca, e que acho oportuno compartilhar com nossa comunidade. A finalidade principal é a de se encontrar mais subsídios para concretizar nosso sonho: O ATLAS DA CAPOEIRAGEM NO ESTADO DO MARANHÃO. Sabemos que outros estados já estão também se organizando neste sentido, e nossa terra não poderia deixar de fazer sua parte.
Vamos aos fatos.
Por Capoeira deve-se entender "... Desporto de Criação Nacional, surgido no Brasil e como tal integrante do patrimônio cultural do povo brasileiro, legado histórico de sua formação e colonização, fruto do encontro das culturas indígena, portuguesa e africana, devendo ser protegida e incentivada" (Regulamento Internacional da Capoeira).
Assim como Capoeira, em termos esportivos, refere-se a "...um jogo de destreza corporal, com uso de pernas, braços e cabeça, praticado em duplas, baseado em ataques, esquivas e insinuações, ao som de cânticos e instrumentos musicais (berimbau, atabaque, agogô e reco-reco). Enfocado em sua origem como dança-luta acabou gerando desdobramentos e possibilidades de emprego como: ginásticas, dança, esporte, arte marcial, folclore, recreação e teatro, caracterizando-se, de modo geral, como uma atividade lúdica". (Atlas do Esporte no Brasil, 2005, p. 39-40).
Para Mestre André Lace, "Capoeiragem é uma luta dramática" (in Atlas do Esporte no Brasil, 2005, p. 386-388).
Já por "CARIOCA" entende-se por uma briga-de-rua, portanto capoeiragem (no sentido apresentado por Lacé Lopes), sendo que "carioca" é outra denominação que se deu "a capoeira, enquanto luta praticada no Maranhão, no século XIX e ainda conhecida por esse nome por alguns praticantes no início do século XX".
Vamos à algumas informações históricas:.
- 1884 - em Turiaçú é proclamada uma Lei - de no. 1.341, de 17 de maio - em que constava: "Artigo 42 - é proibido o brinquedo denominado Jogo Capoeira ou Carioca. Multa de 50 aos contraventores e se reincidente o dobro e 4 dias de prisão". (CÓDIGO DE POSTURAS DE TURIAÇU, Lei 1342, de 17 de maio de 1884. Arquivo Público do Maranhão, vol. 1884-85, p. 124)
- 2003 - Mestre Mizinho, natural de Cururupu, informa que naquela cidade também se praticava uma luta, semelhante a Capoeira, a que denominavam "carioca":
- 2005 - Dilvan de Jesus Fonseca Oliveira informa que seu avô, falecido aos 92 anos, estivador do Porto de São Luís - Cais da Sagração, Portinho, Rampa Campos Melo - sempre se referia á "capoeira" como "carioca", luta praticada em sua juventude.
- 2005 - em recente temporada - outubro -, em Codó, recebi a informação de que alguns capoeiristas da velha geração da cidade tratam a capoeira ainda como "carioca".
- Mestre Diniz, nascido em 1929, lembra que "na rampa Campos Melo, quando eu era garoto, meu pai ia comprar na cidade e eu ficava no barco. Eu via de lá os estivadores jogando capoeira".
- 1820 - registra-se, nesta data, referência a "punga dos homens", jogo que utiliza movimentos semelhantes à capoeira.
- 1829 - registram-se certas atividades lúdicas dos negros. Nesse ano é publicado no jornal "A Estrela do Norte" a seguinte reclamação de um morador da cidade: "Há muito tempo a esta parte tenho notado um novo costume no Maranhão; propriamente novo não é, porém em alguma coisa disso; é um certo Batuque que, nas tardes de Domingo, há ali pelas ruas, e é infalível no largo da Sé, defronte do palácio do Sr. Presidente; estes batuques não são novos porque os havia, há muito, nas fábricas de arroz, roça, etc.; porém é novo o uso d"elles no centro da cidade; indaguem isto: um batuque de oitenta a cem pretos, encaxaçados, póde recrear alguém ? um batuque de danças deshonestas pode ser útil a alguém ? "(ESTRELLA DO NORTE DO BRASIL, n. 6, 08 de agosto de 1829, p. 46, Coleção de Obras Raras, Biblioteca Pública Benedito Leite)
- 1835 - na Rua dos Apicuns, local freqüentado por "bandos de escravos em algazarra infernal que perturbava o sossego público", os quais, ao abrigo dos arvoredos, reproduziam certos folguedos típicos de sua terra natural:
- "A esse respeito em 1855 (sic) um morador das imediações do Apicum da Quinta reclamava pelas colunas do 'Eco do Norte´ contra a folgança dos negros que, dizia, 'ali fazem certas brincadeiras ao costume de suas nações, concorrendo igualmente para semelhante fim todos pretos que podem escapar ao serviço doméstico de seus senhores, de maneira tal que com este entretenimento faltam ao seu dever...' (ed. de 6 de junho de 1835, S. Luís."
- (ECCHO DO NORTE - jornal fundado em 02 de julho de 1834, e dirigido por João Francisco Lisboa, um dos líderes do Partido Liberal. Impresso na Typographia de Abranches & Lisboa, em oitavo, forma de livro, com 12 páginas cada número. Sobreviveu até 1836 in VIEIRA FILHO, 1971, p. 36).
1863 - Josué Montello, em seu romance "Os degraus do Paraíso", em que trata da vida social e dos costumes de São Luis do Maranhão, fala-nos de prática da capoeira neste ano de 1863 quando da inauguração da iluminação pública com lampiões de gás; ao comentar as modificações na vida da cidade com a ruas mais claras durante a noite: "Ninguém mais se queixou de ter caído numa vala por falta de luz. Nem recebeu o golpe de um capoeira na escuridão. Os antigos archotes, com que os caminhantes noturnos iluminavam seus passos arriscados, não mais luziram no abandono das ruas."
O que é confirmado por VIEIRA FILHO (1971) quando relata que no famoso Canto-Pequeno, situado na rua Afonso Pena, esquina com José Augusto Correia, era local preferido dos negros de canga ou de ganho em dias de semana, com suas rodilhas caprichosamente feitas, falastrões e ruidosos. Em alguns domingos antes do carnaval, costumavam um magote de pretos se reunir em atordoada medonha, a ponto de, em 1863, um assinante do "Publicador Maranhense" reclamar a atenção das autoridades para esse fato.
Continua na próxima edição
Leopoldo Vaz, São Luis do Maranhão
Professor de Educação Física do CEFET-MA
Mestre em Ciência da Informação
Na Foto : Mestres da Capoeira Maranhense
2006 - Ano Internacional da Mulher Capoeirista no Jornal do Capoeira
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