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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS

  01/03/2006
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Bala Perdida 2005 & Capoeira 2006

Crônica por Mestre André Lacé, em homenagem ao Mestre Fanho e com algumas reflexões sobre o processo da institucionalização da Capoeira

Bala Perdida 2005 &  Capoeira 2006 Coquinho Baiano

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br

Edição 62 - de 26/Fev a 04/Mar de 2006

 

André Luiz Lacé Lopes

Rio, Março de 2006

Com um abraço para o Mestre Fanho

         Não escondi meus propósitos ao General Eurico de Andrade Neves, então presidente da Confederação Brasileira de Pugilismo: "Estou aceitando esse cargo, de Diretor Nacional de Capoeira, para tira-la daqui, Capoeira precisa e merece Organização própria, sui generis, que ainda está para ser desenhada".

            Esta sempre foi e sempre será  minha posição a respeito do processo -  lamentável, mas inexorável - de institucionalização da  Capoeiragem.

Muito tempo já passou e pouca coisa evoluiu, mas  há fortes indícios que  2006 será o ano da decolagem rumo a criação de uma INSTITUIÇÃO  adequada para esse cada vez mais fascinante Arte Afro-brasileira da Capoeiragem.

O caso do Professor  Everton Batista,  Mestre  Fanho, é oportuno, emblemático e merece total atenção e solidariedade do Mundo da Capoeiragem e do Mundo em Geral (o primeiro, para surpresa de muitos mestres está dentro do segundo).

"A Capoeira é do capoeira", alguns batem no peito. "Quem é este senhor para falar de capoeira", gritam esses, contra um não-capoeira (jornalista, sociólogo, administrador público, médico  etc) que ousa fazer algum tipo de crítica a este ou aquele mestre. Boa parte das lideranças da capoeira entende que realmente a "capoeira deva ser comandada só por capoeiras". Esquecendo esses gênios geniosos, relevem a repetição, "que a Capoeira, embora fascinante, está dentro do Mundo e da Sociedade em Geral". Esquecem, por exemplo,  que boa parte dos eventos capoeiristas  é patrocinada pelo dinheiro público e, não são poucos os casos de prestação de contas incorreta do dinheiro público.  Aqui no Brasil e no exterior. Tampouco percebem que, até agora, o comércio da Capoeira, de palestras internacionais a exportação de calças, camisas, instrumentos etc, vem sendo feita da maneira mais informal possível, sem a devida  (e terrível) carga tributária. E quando um capoeira adoece e se acidenta, é o próprio mundo da Capoeira que resolve, que assista, que hospitaliza?

Para entrar, finalmente, em sua fase adulta, as lideranças da capoeira precisam começar a pensar seriamente em todas essas variáveis próprias de um verdadeiro e bem intencionado processo de institucionalização.

Tempos atrás escrevi sobre uma linda e extraordinária capoeirista sergipana, vítima de erro médico, atualmente  na fila estóica e heróica de espera para um transplante de fígado. O Mundo da Capoeira tomou alguma medida? Vai tomar?

Claro que não, faz até eventos internacionais sobre a Mulher na Capoeira, onde alguns passeiam, ganham projeção e dinheiro. Tudo em nome, simbólica e hipoteticamente, das mulheres-capoeira que estão nas filas de implante de Vida digna. E que lá ficarão, apesar dos crescentes simpósios internacionais de inclusão social, de defesa da mulher, do negro, do pobre, do impedido físico na capoeira. O importante não é resolver o problema e sim escrever um  bonito "paper" doutoral sobre ele.

Voltemos ao Mestre Fanho, cujo trabalho, especialmente na parte cantada da capoeira (tem dois cds na praça) já elogiei em artigos e livro.

Comecemos por uma transcrição parcial da matéria publicada, tempos atrás pela Revista Isto É:

"O carioca Everton de Freitas Batista, o Mestre Fanho, 38 anos, é professor de capoeira. Na tarde de 17 de março, chegava da academia, no Andaraí, zona norte do Rio, quando ouviu um tiroteio.  "Achei que fossem fogos de artifício".   Mas viu um policial trocando tiros com bandidos, em três motocicletas. O policial bateu o carro e o tiroteio continuou. O capoeirista se jogou no chão e viu um adolescente com a perna sangrando. Ao tentar fazer um torniquete, Mestre Fanho sentiu "uma queimação forte nas costas". Foi atingido por uma bala calibre 38. Hoje usa um colar ortopédico e perdeu o equilíbrio e a força. Produtor de CDs de música para capoeira pensa em viver no Acre".

 

  A seguir transcrevo parte do e-mail que recentemente recebi de Mestre Fanho:

"... No dia 17/03/05, estava correndo, eram 21:30 e estava a dois quarteirões da minha casa. Iniciou-se um tiroteio entre polícia e bandidos do morro do Andaraí (no meio da rua), quatro pessoas foram vítimas de bala perdida, entre elas, eu. Parei para acudir um garoto que pedia ajuda e tomei 2 tiros, um se alojou na bacia e não oferece perigo, o outro se alojou ao lado da 6ª  vértebra cervical. Inicialmente fiquei tetraplégico, fiquei três semanas internado e meus movimentos foram voltando".

"De início, não mexia o lado direito, fui recuperando e já estou andando, com seqüelas neurológicas". Não sinto o braço direito, pois uma raiz foi atingida, mas tenho que agradecer a JESUS, pelo que foi, pois  Ele parou a bala exatamente do lado da coluna (tenho ainda pó de chumbo na medula". 

Minha vida foi completamente modificada e ainda estou tentando meios para entrar com uma ação contra o Estado, mas os advogados relutam muito em pegar este tipo de causa. O fato foi noticiado na revista Isto é, na época do referendo. Segue em anexo a matéria.

          Um abraço, fique com Deus, pois só ELE  mesmo.

Everton Batista (Mestre Fanho)

           

Insisto, esse Ano de 2006 será marcante em  matéria de amadurecimento institucional da Capoeira. Os casos da brava e linda sergipana assim como este verdadeiro milagre ocorrido com Fanho (seu restabelecimento está surpreendendo os médicos que entendem que grande parte deveu-se ao preparo físico e psicológico de Fanho como capoeirista) podem ser os primeiros beneficiários desta nova ordem.

No momento, por exemplo, ambos casos precisam de mais divulgação com vistas a apressar uma solução prática. No primeiro caso, transplante de fígado, no segundo caso, uma ação indenizatória do Estado que poderá ser transformada, simplesmente, no pagamento de tratamento em algum país especializado (Cuba tem excelente hospital especializado).

Para terminar, em homenagem ao jovem Mestre Fanho tomo a liberdade de transcrever um pequeno trabalho que fiz tempos trás e com o qual já ganhei dois primeiros  lugares (um no Rio de Janeiro, outro, em Montevidéu), além de ter sido incluído no show anual que a Doutora Lilia da Rocha Bastos faz anualmente no Mistura Fina (daqui para frente não será mais nesta boite).

 


MORRO  DO  BOREL

André Luiz Lacé Lopes

 

- Primeiro  Lugar  (POESIA)  - 6º Concurso Literário, FESP / RJ  - 1996/1997

-  Primeiro Lugar no 1º  Concurso Nacional de Poesia aBrace

ABRACE e PHOENIX - dez/2002 - mar/2003

Prêmios: Participação do IV Encontro Internacional aBrace,

co-patrocínio da Intendência Municipal de Montevidéu

(16 países; abril/2003); diploma e coletânea (Montevidéu, abril/2004)

-          "Poesia nas Canções, Show de Lilia Rocha Bastos, no Mistura Fina,

-          Lagoa, Rio de Janeiro, 20.nov.2005.

 

 

 Armado de linha dez

cabresto e rabiola

o menino fez da lua cheia

sua  pipa  arraia

 

E tenteou seus sonhos

como jamais,

até então,

o fizera qualquer poeta

 

O primeiro raio de  sol, entretanto,

como bala perdida

(e cheia de cerol)

entrou no seu barraco

cortou a sua linha e

seqüestrou os seus sonhos

 

 

 

 

 


2006 - Ano Internacional da Mulher Capoeirista no Jornal do Capoeira







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