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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS
  19/08/2005
  1 comentário(s)


Breves Observações Sobre Tambor de Crioula
Mestres e estudiosos da Capoeiragem em São Luis do Maranhão tem discutido a relação entre nossa arte e a "punga dos homens" e "tambor de crioula". Neste sentido, Mestre Marco Aurélio traz algumas considerações sobre o "Tambor de Crioula".
Breves Observações Sobre Tambor de Crioula Nova pagina 1

Jornal do Capoeira - Edição 43: 15 a 21 de Agosto de 2005

EDIÇÃO ESPECIAL- CAPOEIRA & NEGRITUDE

 

Por Mestre Marco Aurélio

São Luis do Maranhão

19.Agosto.2005

Foto por Elarrat

O Tambor de Crioula, manifestação popular genuinamente afromaranhense, de caráter lúdico, é tradicionalmente identificada como "festa de preto", assim como onde houvesse instrumentos de sopro, tinha-se como "festa de branco". Dessa forma, à exceção do período da quaresma " hoje em dia, até nesta época " toca-se o tambor de crioula durante o ano inteiro, seja festa ou o evento que for: Carnaval, aniversário, Divino, nascimento, São João, São Pedro, falecimento, ou mesmo uma simples confraternização de fundo do quintal. A festa de São Benedito ocorre entre agosto e novembro, tendo em vista os costumes de cada lugar, mas, sempre durante a fase da lua cheia.

Apesar do aspecto lúdico prevalecer, brincantes (coreiros e coreiras) mais antigos, na sua quase totalidade são devotos de São Benedito, a constatar pelas centenas de grupos de tambor de crioula existentes: "Brincadeira de S. Benedito", "Unidos de S. Benedito", "Filhos de S. Benedito", "Orgulho de S. Benedito", etc., acrescentando-se que ao início de cada "brincada", a primeira salva é dirigida ao Santo, que no culto religioso de influência africana, hegemônico no Maranhão, Mina (com tradição Jeje-Nagô), é relacionado à divindade Vodun, Avêrêkête.

Os tambores, em número de 03 (três), constituem o que se denomina parelha, assim definidos: tambor do meio, meião ou socador, o tambor menor, pererengue, merengue ou crivador, seguido do tambor grande, sulador, ou roncador. O meião inicia e, marca o toque, seguido do pererengue, que faz o contratempo, logo após o tambor grande entra, com o seu roncado característico, definindo a punga.

Conforme as regiões do Estado onde o tambor de crioula se faz presente, define-se o sotaque (forma apropriada de tocar, cantar, dançar, pungar e se expressar). O sotaque, que pode representar sutis diferenças, ou mesmo nem ser percebido pelos leigos, demonstra uma forte característica entre os brincantes, assim, a depender do sotaque, o meião só começa a tocar, após o início do canto, e conforme o ritmo empreendido pelo cantador (acelerado ou compassado), ou o contrário, o meião inicia dando o ritmo e, o cantador acompanha-o, puxando o canto, mas em todo o caso, o pererengue sempre entra após o meião, fazendo o contra-tempo, logo em seguida, o tambor grande se faz ouvir, e livre para solar, evolui numa diversidade de toques até alcançar seu ápice, a punga.

Entre os sotaques mais conhecidos está o "de Guimarães", "Alcântara", ou "do litoral", neste, a "brincadeira" acontece num pique frenético, outro, é o sotaque "da Baixada", mais compassado e de rica variedade rítmica, há ainda os sotaques "de Rosário" e "do Munim", que por fazerem parte dos caminhos dos boiadeiros, trazendo e levando gado de norte a sul, sofreram fortes influências destes, com seus aboios. Os cantos seguem a mesma tendência, podendo ser guturais ou bem definidos. O sotaque define ainda, o uso ou não de baquetas, as quais, quando se fazem presentes são repenicadas na costa do tambor grande, com mais raridade, algumas "brincadeiras" utilizam baquetas (finas e flexíveis) no couro do pererengue.

Os tipos de madeira para a confecção dos tambores são diversos, variando quanto ao peso e sonoridade, sendo umas mais leves e outras mais pesadas, a exemplo do mangue branco ou siriba, pequiá, faveira, etc. A feitura dos mesmos requer um certo ritual, que compreende desde a identificação da árvore, o sangramento desta, durante certa fase da lua, bem como outras particularidades.

Conforme o lugar, a exemplo de São Luís, a dança é exclusividade das mulheres, há, no entanto, homens que dançam, mas neste caso, requer usarem saia. A dança das mulheres se reveste de pura sensualidade e com belas evoluções, onde o ápice acontece quando a mulher, após saldar os tambores menores dançando, mostra-se de frente ao tambor grande, e os dois como que numa simbiose evoluem desafiando-se, até realizarem a punga. O toque dos tambores é predominantemente realizado por homens, apesar de que em alguns lugares a mulher toca, porém, quando se trata de tocar o tambor grande, aquela o faz ao lado deste, nunca sobre, mas, é na capital, onde já há grupos constituídos exclusivamente por jovens, que as mulheres se fazem mais presentes na batida dos tambores.

A punga dos homens, ao contrário da punga das mulheres (umbigada), não acontece em todas as "brincadas de tambor", sendo encontrada mais comumente em comunidades rurais. Acontece ao lado da roda das mulheres, geralmente em areal, e conforme o lugar, é aplicada com mais ou menos intensidade, quando mais vigorosa, não é raro ver homens ao chão, com menos vigor, acontece somente um leve bater de coxas, no entanto, vale ressaltar que nos lugares onde ocorrem as derrubadas, com o avançar das horas, os coreiros já sob os efeitos da cachaça, intensificam-nas em quantidade e vigorosidade, sem que haja no entanto, qualquer incidente grave.

O Maranhão, pelas suas características geográficas, em tempos remotos era um manancial natural de alimentos (até hoje, apesar do desmatamento), tornando-se morada de inúmeras nações indígenas, atualmente, espalhadas ao longo do Brasil Central. Acolheram levas de escravos insurgentes, seja nas aldeias, ou tolerando a formação de (inúmeros) quilombos, mas o certo é que desses ajuntamentos, formou-se o que comumente se reconhece como terras de índio (que não são áreas indígenas) e, terras de preto, entre estas últimas, muitas foram identificadas como verdadeiros quilombos (Projeto "Vida de Negro", da Sociedade de Defesa dos Direitos Humanos) daí, que as características físicas de muitos habitantes de inúmeras comunidades rurais maranhenses, demonstram de forma singular, expressões indígenas e africanas.

A forte miscigenação ocorrida entre as populações africanas e ameríndias, somadas à cultura européia, em menor escala, derivou numa profusão de manifestações populares onde, em relação ao som, predominou a cultura africana com seus ritmos e tambores, no movimento, o predomínio tornou-se da cultura indígena, pois esteja o som sob um embalo mais frenético ou compassado, aquele se faz miúdo, e por último, não há como negar a preponderância do guarda roupa europeu, tendo em vista o pudor deste em relação à nudez indígena e, à sensualidade africana. Vale ressaltar, que ainda há muitas pesquisas a serem feitas, mas esses três elementos culturais são evidentes.

A cantoria do tambor dá-se por um cantador/puxador e, um coro respondendo, seu conteúdo, diverso e revestido de picardia, onde os cantadores costumam saudar São Benedito, fazerem choça uns com os outros, cantarem seus lugares, etc., tudo, dentro do ritmo e de uma métrica, que se não for respeitada, é simplesmente desconsiderada.

Como todas as tradições, o tambor sofreu alterações, uma delas a participação de mulheres, como forma de abrandar a repressão, uma vez que era reconhecida pela sua agressividade, sendo vista inclusive como luta, pelas "autoridades" da época. Tem-se que o termo tambor de crioula é mais recente do que a própria manifestação, uma vez que antes de 13 de maio de 1888, as mulheres com raridade, participavam, pois sendo extremamente vigorosa sua prática traduzia uma maneira de deixar os guerreiros em forma, capazes de enfrentar as adversidades da época, talvez daí tenha-se originado um ditado antigo, ainda hoje pronunciado a respeito em relação à manifestação: tocado a murro, dançado a coice e afinado a fogo.

Enquanto manifestação, não há como dissociar homens e mulheres, vez que para acontecer a brincadeira requer a participação de todos tocando, cantando, dançando, evoluindo e pungando, uma verdadeira festa, que contagia quem estiver presente.

 


Marco Aurélio Haikel é Mestre e grande estudioso da Capoeira; é líder do Grupo Matroá e discípulo de Mestre Patinho, além de exercer a profissão de advogado, em São Luis do Maranhão-MA




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