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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS

  17/03/2006
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Capoeira Angola ou Regional é Folclore!

Artigo extraído do livro A "Capoeira" da Indústria do Entretenimento, de autoria do professor Acúrsio Esteves, Salvador, Bahia

Capoeira Angola ou Regional é Folclore! Coquinho Baiano

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br

Edição 65 - de 19 a 25/Mar de 2006

 

Acúrsio Esteves

Salvador, BA

Março de 2006

Nota do Editor:

Lendo o livro do Prof. Acúrsio Esteves - A "Capoeira" da Indústria do Entretenimento-, entendemos como oportuno a transcrição, no Jornal do Capoeira, de um dos artigos da obra - Capoeira Angola ou Regional é Folclore!

Não temos dúvida o artigo vai provocar valiosa e oportuna polêmica, especialmente nesse ano de tantos eventos internacionais preocupados em pensar e repensar o fenômeno Capoeira. Será um fenômeno pura e eternamente folclórico? Será esse "Folclore Capoeira" constituído do somatório da Capoeira Angola da Bahia com a Luta Regional Baiana (Regional)?

Corajosamente Mestre Acúrsio ousa discordar da maioria, senão de todos os especialistas da matéria (Folclore). Pois há consenso a respeito dos critérios que devem ser utilizados para identificar (ou não) um FATO como FOLCLORE. E o primeiro deles é o Princípio do ANONIMATO. Ou seja, folclore que se preza, não tem DNA muito claro. A Capoeira Antiga, tradicional, de Rua, hoje em dia genericamente chamada de Angola, tranqüilamente sobreviveria a esse critério. Já a Luta Regional Baiana, a Regional, de grandes méritos e totalmente consagrada, não. Pois tem DNA definido, sabe-se quase o dia e a hora em que nasceu. Existe, tem muito valor, mas, em hipótese alguma pode ser considerada FOLCLORE.

Claro que o Folclore é dinâmico, vai-se transformando ao longo do tempo, mas pela prática coletiva, em função da contribuição de muitos.

Prevalecendo esse entendimento, a Regional não poderá ser entendida como folclore, muito menos seu casamento (cheio de rusgas matrimoniais) com a Angola.

Temos aí, pois, uma discussão de alto nível, que certamente incluirá, também, algumas contribuições inegáveis que ficaram de fora do título e do corpo do artigo. Como por exemplo, as academias pioneiras de capoeira no Rio de Janeiro, o livro de ODC, Zuma e outros, o confronto oficial (com a presença de autoridades civis e militares) do campista Cyriaco e o campeão japonês de Jiu-jitsu (1909!), a extraordinária luta do capoeira Rudolf Hermanny com um dos alunos dos Gracie (1950) etc.

Recomendamos o artigo do Professor Acúrcio, que procurou alicerçar seus argumentos da melhor maneira possível. Um exemplo para muitos que ensaiam professorar sem nenhum embasamento, só com crendices, fantasias ou fanatismo.

A grande realidade é que, até agora, apenas resgatamos uma pequena parte da História da Capoeira. Mestres e doutores repetem a todo instante que a "Capoeira é tudo". É bonito de falar e de ouvir, só que temos aí apenas, digamos, uma "verdade poética". Primeiro porque, "por mais fascinante que seja a Capoeira está dentro da Sociedade, e não o contrário", e segundo porque, na teoria e na prática, esse "tudo poético" é ainda algo muito diminuto perante sua verdadeira magnitude. Dizer que capoeira serve para tudo e para todos é fazer da Capoeira uma Divindade, e do mestre um Sacerdote.

"Exato", alguns dirão na maior euforia. Ocorre, entretanto, que estamos todos nós limitados e satisfeitos com o exercício, mental ou não, de golpear os adversários. Com as pernas ou com a palavra.

Falamos tanto de camaradagem, mas se nosso "camarada" é inferior (física ou capoeirísticamente) tentamos a todo instante subjugá-lo, quase sempre, de maneira desmoralizante (a rigor é realmente desmoralizante, mas para quem golpeia). Além do que, ninguém ousa aceitar a discussão se esses guerreiros que aterrorizam as rodas de capoeira lograriam algum sucesso com guerreiros iguais de outras lutas.

Com vocês, afinal, o interessante artigo do Professor e Pesquisador Acúrcio Esteves.

 

             Miltinho Astronauta 


CAPOEIRA ANGOLA OU REGIONAL É FOLCLORE !

Acúrsio Esteves

É comum capoeiristas, pesquisadores, estudiosos e mestres reagirem contra a afirmação óbvia de que a capoeira é folclore, incorrendo desta forma em um grande equívoco. Esta aversão pode ser originada do senso comum que diz ser o folclore algo velho, em desuso, ou pode estar atrelada também à idéia de que folclore é o espetáculo regional mostrado por grupos profissionais aos turistas. Estes shows na maioria das vezes deturpam a forma original da manifestação processo do qual é vítima a capoeira, o samba de roda e até o Candomblé que é uma religião. É possível também que pelo fato do governo Vargas tê-la aceita apenas como "folclore e desporto" tenha contribuído para tal aversão. Outra possível causa é a desinformação acadêmica do que seja folclore e quais sejam as suas características. Manifestação concebida na cultura popular, a capoeira é o elemento folclórico que melhor representa a cultura brasileira. Segundo alguns estudiosos e folcloristas, o Folclore é uma manifestação da cultura popular que representa uma instância qualitativamente superior e estratificada desta cultura, pois ele é a representação simbólica de uma sociedade.

É ocorrente, entre folcloristas brasileiros, uma frase de sucesso: "Tudo que é Folclore, é popular; porém nem tudo que é popular é Folclore". Este refrão remete imediatamente a dois pontos básicos: o entendimento do termo popular e o reconhecimento da existência de níveis distintos no interior da mesma cultura (FRADE, 1997).

Logo, para que algumas manifestações da cultura popular elevem-se à categoria de folclore, é necessário que elas possuam os quatro fatores determinados pela Carta do Folclore Brasileiro.

Folclore é o conjunto das criações culturais de uma comunidade, baseado nas suas tradições, expressas individual ou coletivamente, representativo de sua identidade social. Constituem-se fatores de identificação da manifestação folclórica: aceitação coletiva, tradicionalidade, dinamicidade, funcionalidade (IBECC, 1995).

Iremos de forma detalhada comentar cada item que identifica se uma manifestação popular qualquer é ou não folclore, preconizado pela Carta do Folclore Brasileiro contextualizando-o com a capoeira, objeto da nossa análise.

- A aceitação coletiva é o reconhecimento daquele fato por parte da população, como importante e pertencente ao seu universo cultural. Isto pode se dar em termo de localidade, cidade, estado, nação ou mundo. No caso da capoeira esta aceitação já ultrapassa as fronteiras do Brasil e se configura em nível mundial.

- A tradicionalidade exige do fato folclórico base no passado (ancestralidade), e que suas características sejam transmitidas entre gerações, através da oralidade, o que não invalida a sua transmissão por outros meios, inclusive o eletrônico. Por exemplo, a literatura de cordel atualmente é escrita também e impressa em computadores. Neste caso é patente a tradicionalidade da capoeira, que ao longo da história do Brasil vem sendo transmitida através de gerações, inclusive de forma predominantemente oral, como é característica das manifestações culturais afro-brasileiras.

- A dinamicidade diz que a manifestação pode ser reelaborada e adaptada a novos códigos. Esta iniciativa, porém, deve partir do povo, do legítimo portador do fato folclórico. Estas novas formas devem ser consuetudinárias, como o foi e continua sendo a capoeira. Mais claro do que isso impossível, pois o trabalho do Mestre Bimba foi totalmente amparado por este parâmetro da dinamicidade quando ele (legítimo portador da capoeira) a reelaborou e adaptou a novos códigos com base na tradição e com incontestável aceitação coletiva. A Capoeira Angola também sofreu, ainda que de forma mais branda, este processo por parte do Mestre Pastinha e até hoje a sua dinâmica difere de um grupo para o outro. Apesar de fundamentalmente diferentes como é notório, ambos os estilos conservam bases ancestrais.

- A funcionalidade pressupõe que o fato folclórico tenha utilidade prática, no momento atual, para a sociedade na qual está inserido, prova inconteste de que Folclore não é algo do fundo do baú, cheirando a mofo e que precisa ser resgatado como muitos pensam. A funcionalidade da capoeira é tão evidente que seria perda de tempo enumerá-la aqui.

O fato folclórico será imediatamente restringido à sua condição inicial de cultura popular se perder qualquer um dos quatro fatores acima que o identifica como manifestação folclórica, voltando à condição de cultura popular. Contudo, esta cultura popular poderá voltar a ser considerada manifestação folclórica se reunir novamente por qualquer motivo as quatro condições que a caracteriza como tal. Com isso, podemos perceber que o fato de ser folclore não é demérito para as manifestações populares como muitos pensam, ao contrário, esta condição as consolida e as legitima como representantes mais fieis de um povo.

São objetos de estudo do folclore, dentre outras manifestações: o artesanato, as lendas, os mitos, os contos, os folguedos, alguns rituais religiosos populares, alguns ritmos musicais, algumas danças populares, as cantigas de roda, de trabalho, de ninar, os jogos, brinquedos e brincadeiras infantis, as várias formas de comunicação oral, gestual e escrita, as adivinhações, parlendas, quadras, trava-línguas, as lutas regionais.

A capoeira, como várias outras manifestações populares e folclóricas, é um conhecimento que aflora da vivência e luta das camadas sociais mais humildes e que, por elas mesmas, num processo contínuo de controvérsias, rupturas e conchavos, é reelaborada cotidianamente. Isso pode servir como reforço para melhorar sua realidade social. Mas se essa transformação atender apenas a interesses particulares e capitalistas, poderá se transformar em uma faca de dois gumes.

A Professora do Departamento de Artes e Representação Gráfica - FAAC - Unesp/Bauru e à época Doutoranda em Ciências Sociais - UFSCar Rosa Maria Araújo Simões, em artigo intitulado "CAPOEIRA ANGOLA: Uma discussão sobre turismo e preservação de recursos naturais a partir de tradições culturais", nos coloca de forma clara a concepção de folclore a partir do senso comum e a visão acadêmico/científica que deve nortear nossas ações. Apesar dela se referir à Capoeira Angola, sua reflexão também é valida para a Regional.

A cultura é para ser preservada? Capoeira é mato que foi e nasce de novo...

Iniciemos esta discussão com a interrogação do título deste tópico e com a afirmação proveniente de um turista: a "capoeira é um folclore baiano". Mesmo este munido de um fundo de verdade, faz-se necessário situar a questão do folclore, uma vez que à visão do turista está geralmente implícita uma abordagem romântica e conservadora sobre folclore e, que, em contrapartida, a postura a ser adotada aqui considerará o aspecto dinâmico do folclore enquanto cultura (portanto, não uma peça de museu cristalizada), o contexto social brasileiro e as abordagens implícitas na forma de pesquisá-lo, que vai desde essa visão romântica e conservadora, muitas vezes expressa nos discursos dos turistas e das administrações públicas locais, até a uma visão crítica sobre o mesmo, possibilitando assim, refletir sobre e elucidar algumas formas de transformação de cotidianos a partir dos elementos desta arte popular - a capoeira angola - a qual, como filosofia de vida, implica na contemporaneidade, em "fazeres" prazerosos, espontaneidade, liberdade de expressão, criatividade, enfim, qualidades que o ser humano busca viver por meio do lúdico, principalmente em seus momentos de lazer (SIMÕES & CARDOSO 2004).

As manifestações folclóricas acumulam informações que, se usadas de forma consciente pelo povo, aumentam sua capacidade de discernir e avaliar sobre questões importantes como recusar normas sociais que impliquem em submissão ou dominação. Elas fortalecem seu poder de deliberar sobre suas próprias vidas.

Ao contrário, a acomodação e aceitação passiva de idéias e "pacotes", vindos do vértice da pirâmide social, econômica e política, são originadas no discurso vazio da impossibilidade do povo de lutar contra o sistema instituído, de resistir às suas investidas e principalmente de gerar cultura. Isto é facilmente observável já que as suas produções sob forma de Folclore ou Cultura Popular são vistas pelas classes dominantes como antigas ridículas e inúteis. Refiro-me ao processo de exploração de indivíduos de consciência ingênua, logo, acríticos que não dimensionam, ou o fazem de forma incipiente, o seu papel na sociedade, vindo assim a serem presas fáceis para o domínio de ideologias que lhes inferiorizam cerceando sua liberdade. Estes, ao aceitarem, de forma passiva, as ordens de quem é investido do poder, abdicam do direito de decidir sobre seus próprios destinos.

REFERÊNCIAS:
FRADE, Cássia. Folclore. São Paulo: Global, 1997.
IBECC - INSTITUTO BRASILEIRO DE EDUCAÇÃO CIÊNCIA E CULTURA, COMISSÃO NACIONAL DE FOLCLORE. Carta do Folclore Brasileiro. Salvador: 1995.

SIMÕES, Rosa & CARDOSO, Marina. Capoeira Angola: Uma Discussão Sobre Turismo e Preservação de Recursos Naturais a Partir de Tradições Culturais. Disponível em: www.lmilani.com/m/content/view/534/98/ - 69k. Acessado em 02/02/2006.


 

   O professor e pesquisador Acúrsio Esteves, é formado em Educação Física pela UCSal, com mestrado em Gestão de Organizações UNIBAHIA/UNEB e é professor da Secretaria Municipal de Educação de Salvador. Leciona também nas Faculdades Jorge Amado e Fundação Visconde de Cairu, respectivamente nos cursos de Educação Física e Turismo, sendo também autor dos livros Pedagogia do Brincar e A "Capoeira" da Indústria do Entretenimento, de onde foi retirado este fragmento de capítulo.

    Contactos: (71) 3233-9255 / 9946-4743 - acursio@oi.com.br, acursio1@terra.com.br

 


2006 - Ano Internacional da Mulher Capoeirista no Jornal do Capoeira




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