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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS
  14/05/2006
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Capoeira: Da boca pra fora
Capoeira: Da boca pra fora Coquinho Baiano

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br

Edição 73 - de 14 a  20 de Maio de 2006

 

Luiz Cabeleira

São Paulo, Capital

 - 14 de Maio de 2006  -

 

"Baraúna caiu quanto mais eu,

Quanto mais eu, colega velho."

 

        Toda vez que alguém cita o Mestre Ananias (foto), diz que ele não separa a capoeira do Candomblé nem do samba. Nas palavras do famoso mestre, "capoeira e candomblé comem do mesmo prato." E existe alguma maneira de separar totalmente essas manifestações?

        A capoeira não nasceu nas academias. Até pouquíssimo tempo, não existia sequer um lugar próprio e exclusivo para a prática da nossa arte. A capoeira foi sendo criada, desenvolvida e praticada nos lugares onde escravos, ex-escravos, negros livres e mestiços podiam fazer suas festas, religiosas ou profanas. Nas senzalas, quilombos, zungus, terreiros. E, é claro, uma manifestação foi influenciando a outra. A capoeira não nasceu pronta, fechada para influências. Nunca esteve nem está dentro de um aquário, uma região "protegida", onde nada pode ser alterado.

        Imaginem o seguinte: você é um negro livre, mas que tem entre seus companheiros alguns negros fugidos e outros escravos que perambulam pela cidade. Vamos facilitar sua imaginação e colocar você em um lugar específico: Rio de Janeiro, século XIX. Você vive em um zungu, uma casa de angu, um dos pontos de encontro da "cidade escrava", da "cidade negra". É só nesse lugar, escondido dos olhos da polícia e da sociedade branca, que você pode fazer suas festas e celebrar sua religião.

        A noite começa e você vai tocar seu tambor para o santo. Canta suas músicas e dança, realizando a cerimônia, junto com diversos negros vindo de lugares diferentes. Termina a parte religiosa e começa a festa, no quintal. Um negro escravo começa a cantar uma música que você não conhecia, mas que mais tarde viraria um samba. Cada um toca um instrumento. Você sabe tocar para seus orixás, mas muda um pouco o toque e acompanha esse malungo. Canta também algo de dentro do terreiro, com cuidado e respeito para não ofender sua religião. Depois, no auge da festa, dois escravos aproveitam a música para dançar. Dessa dança, em algum momento, outros escravos começam a entoar outros tipos de música, mudam o toque e começam a trocar pernadas. A festa dura muitas e muitas horas, com ritmos e danças se revezando, até que acaba a folga e todos voltam para o trabalho, depois de terem trocado informações e uma manifestação tendo contribuído para o enriquecimento da outra. Na volta para seus locais de trabalho ou moradia, as novidades são mostradas em outras festas.

 

        É difícil imaginar como se deu o desenvolvimento da capoeira ao longo dos tempos até chegar ao ritual que conhecemos hoje. Mas as influências religiosas e de outras danças e manifestações (samba, côco, jongo, pernada, batuque) ficam óbvias principalmente se estudarmos as músicas mais tradicionais das rodas.

        Como bem disse Nei Lopes em seu "Kitábu", para os africanos a " música não é um luxo, mas um modo de vida. Por meio dela, o ser humano expressa, em suas festas, sua alegria de viver; nas ocasiões solenes, seu orgulho e refinamento; nos rituais religiosos, sua fé e contrição; em tudo, seu amor; no trabalho, seu vigor; no lar, sua simplicidade; e na guerra, sua coragem."

        Numa região como o Recôncavo Baiano, região de negros bantos e mais tarde de iorubás (além de outras nações), a capoeira como a conhecemos hoje pode ter nascido e se espalhado. A troca de informações entre os escravos no Brasil era enorme. Escravos eram vendidos de um estado para outro, o tráfico interno. O país, ainda litorâneo, dependia do mar. Nos portos, negros das várias regiões e diversas tradições se comunicavam. Se a capoeira apareceu primeiro no Rio de Janeiro, Pernambuco ou ali mesmo, ainda não é possível dizer. Só podemos afirmar que o ritual de capoeira que mais se espalhou pelo Brasil, em roda, com os berimbaus, esse veio da Bahia. De Salvador e do Recôncavo, altamente influenciados pela religião. E pelo samba-de-roda baiano. Da terra do Mestre Ananias.

 

"Baraúna caiu, quanto mais,

Quanto mais eu, quanto mais eu"

 

        Essa música cantada nas rodas de capoeira também pôde ser ouvida no candomblé. Em algumas casas de candomblés de caboclo, quando o atabaque desorienta as filhas e as faz cair, ouve-se que "baraúna caiu quanto mais gente"".

Outros versos ouvidos no candomblé, ditos pelos antigos quando precisavam mandar um recado em um cântico também são velhos conhecidos dos capoeiras:

"Sou rei dos astros,

é menino,

delicado no andar,

quem não pode com mandinga,

não carrega patuá,

quem não sabe não ensina,

deixa quem sabe ensinar.

Quem não pode não intima,

Deixa quem pode intimar."

 

        A capoeira foi muito perseguida e discriminada. O candomblé ainda o é. Muitas pessoas têm medo dos atabaques e dos orixás, sem motivo nenhum para isso. Devido à perseguição a essa religião(inclusive por parte de algumas "igrejas" evangélicas) o preconceito é muito grande e, por isso, muitos capoeiristas acabam nem mesmo sabendo dessa ligação entre as manifestações, principalmente em lugares como aqui em São Paulo.

        Ninguém precisa ser "de santo" para ser capoeirista. Do mesmo jeito que ninguém precisa ser católico para participar de uma Festa Junina (que nasceu de festividades católicas). Mas que existiu uma ligação entre essas manifestações, existiu.

        Do mesmo jeito que, ao ouvir numa roda de capoeira a seguinte música: "Quem quisé me vê, vá na Piedade amanhã"" você está, na verdade, ouvindo um samba de roda baiano.

        E ainda "O facão bateu embaixo, a bananeira caiu" vem da batucada ou pernada carioca. E ninguém precisa ser sambista ou batuqueiro para jogar capoeira.

        Do samba vieram inúmeras músicas de capoeira. E da capoeira, muitas foram para o samba. A troca de informações foi e é constante, já que muitos capoeiristas foram sambistas. "Quem vem lá sou, quem vem lá sou eu, a porteira bateu"" também é um samba.

 

Mestre Ananias durante Show em São Paulo. Acervo Rodrigo Lima, Uirapuru Cultura

 

        O que o leitor precisa entender é que a capoeira se formou influenciada por diversas manifestações. Momentos de alegria e religião do negro, que merecem respeito. Quando o Mestre Ananias veio para São Paulo, não abandonou suas tradições. Muitos capoeiristas jovens dizem respeitar o fundamento mas, quando o velho Ananias  pára a roda para reclamar do coro ou da afinação dos instrumentos, esses mesmos "respeitadores" dão risadinhas e reclamam da "chatice" do mestre. E esses mesmos jogadores de capoeira (e não capoeiristas) são cheios de preconceitos em relação a aulas culturais e resgates de outras manifestações. Não podemos mais respeitar as tradições só da boca para fora (mesmo porque, até na hora de abrir a boca para cantar, estamos usando fundamentos de outras manifestações).

 

Luiz Cabeleira, SP, Capital

cabeleiracapoeira@bol.com.br

 

Bibliografia:

Lopes, Nei - O negro no RJ e sua tradição musical

Lopes, Nei - Kitábu

Campos, J. J. P (Joquinha) - Guia de Candomblé da Bahia

Carneiro, Edison - Candomblés da Bahia

Líbano Soares, Carlos Eugênio - A Capoeira Escrava


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