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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS
  10/03/2006
  1 comentário(s)


CAPOEIRA E VINHOS "GLOBALIZADOS"
Nesta crônica o autor faz uma análise sobre os processos de "globalização" da Capoeira e do Vinho, apresentando semelhanças entre a pressão de mercado e a qualidade de ambos "produtos"
CAPOEIRA E VINHOS  Coquinho Baiano

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br

Edição 64 - de 12 a 18/Mar de 2006

 

André Luiz Lacé Lopes

Leblon, 04 de março de 2006

 

O sonho de todo menino brasileiro é ser craque no futebol. Sonho que certamente inclui milionários contratos no exterior. A maioria fica pelo caminho, ou por não ter mesmo grande futebol, ou por não ter um bom "atravessador", ou, ainda, sem pretender esgotar as alternativas, por não ter tido sorte. 

De qualquer maneira, a meninada segue sonhando em ser um Ronaldinho Gaúcho.

Guardando as proporções, a Capoeira está indo pelo mesmo caminho, com um número crescente de mestres aqui no Brasil querendo fazer as malas para conquistar  lugar ao sol no exterior. Todos tomando como exemplo aquela meia dúzia que, tudo indica, venceu de fato no exterior. Alguns até com casa própria, carro do ano, investimentos no Brasil,  pequena adega caseira e crescente sofisticação na arte de consumir vinhos. 

Ocorre que esses, e mesmo os demais, que ainda não lograram grandes vitórias no exterior, sobreviveram e sobrevivem trabalhando muito, via de regra, dentro e FORA da Capoeiragem. E mais, dos que venceram, a maioria é de classe média, teve e tem apoio da família, e tem curso universitário. Se não vencessem dentro da Capoeira, seguramente, venceriam fora dela. De qualquer maneira, de  modo geral, todos que saem acabam tendo padrão de vida melhor, pois,  afinal, estão no chamado "primeiro mundo".

Mas não custa lembrar o risco de um futuro incerto, sem direito à aposentadoria, sem deixar pensão etc.

Buscando o sucesso dentro do mundo da capoeira,  grande parte desses mestres no exterior, bem sucedidos ou não, procura se alinhar com os que, pelo menos em aparência, são mais poderosos. Remar contra a maré (como, por coerência, sou obrigado a remar) é sentenciar a própria morte, é ser riscado de todas listas de convidados para os grandes eventos capoeirísticos, aqui no Brasil ou em qualquer parte do mundo.

Tenho escrito sobre este fenômeno, mas o mote principal hoje, como reza o título e como adiantei no princípio, é a "capoeira e o vinho globalizados".

Na capoeira, há quase cinqüenta anos,  em algumas rodas, venho esbarrando num copo de vinho. Normalmente copo de vidro de geléia ou copo de papelão mesmo.

Mas, sem sombra de dúvida, foi com a descoberta do mercado externo, sobretudo europeu e, dentro desse, o francês, é que o mestre de capoeira começou mesmo a apreciar um bom copo de vinho. Passando a ser também, por via de conseqüência, mais seletivo na escolha do vinho e das taças.

 Mestre Camaleão, por exemplo, pelos anos que vem acumulando  em Marselha, França já deve ter-se tornado respeitável enófilo.  Mestre Guará, em Paris,  não esconde, pelo contrário, até esnoba ao declarar que prefere  "Saint Emillion" e ponto final".

 

Como a clientela de mestres-enófilos só tende a crescer torna-se mais do que oportuno um artigo sobre o assunto.

Como, por exemplo, "casar" o bom vinho com o bom charuto?

Não há chance de "casamento" ou o Trinidad (que prefiro) é realmente o mais indicado, ganhando do excelente Monte Cristo (torpedo 2!), do Partagás (preferido de Che Guevara), Romeu e Julieta, e até do famoso  Cohiba?

E quanto ao "casamento" do vinho com a queijaria?

Como os Pinot Noirs, Cabernet Savvignons, Merlots, Syrahs  e outros combinarão com os queijos Emmental, Gruyère, Mozzarella, Teleme, Stilton, Gorgonzola, Cheddars?

Afinal, como o degustador perceberá a presença de frutas,  taninos, acidez e carvalho quando o vinho se fizer acompanhar desse ou daquele queijo?

Tendo brilhante enófila em casa (recusa-se a ser reconhecida e aplaudida como enóloga) , dela me socorri, propondo uma conversa embalada pelo melhor vinho de sua adega. Surgiu, então, pequena discussão preliminar. A querida enófila aceitou prontamente conversar, mas ponderou que grandes vinhos eram para grandes ocasiões.

De maneira quase impiedosa, utilizei argumento demolidor que aprendi no recomendável filme sobre vinhos "Side way".                                           

-   Um bom vinho não precisa de uma grande data a ser celebrada, pois ele é, em si mesmo, a própria  "Celebração da Vida".

 

Funcionou, um  Quinta do Bacalhôa, safra 2000,  foi aberto  (no que aproveito para saudar Portugal, na pessoa de Mestre Umoi), mesmo se tratando de abstêmio convicto, para celebrar ainda mais nossa conversa.

E como o filme citado, passa-se na Califórnia e defende os vinhos feitos com a uva pinot noir, a conversa começou por aí. Para ilustrá-la, minha PE (personal enófila) sugeriu colocar um outro filme - MONDOVINO - que, muito mais do que o outro citado, deve ser visto, por todo mundo, amantes ou não de vinho, capoeiras ou não. Pois versa sobre um dos aspectos mais perversos, senão o mais perverso, do processo de globalização que está tomando conta do mundo.

Que atinge tanto o BOM VINHO como a BOA CAPOEIRA.

Por oportuno, valerá transcrever o "release" do filme:

-         "Mais do que um documentário sobre o vinho, Mondovino é um triller investigativo dos bastidores desta indústria (e fantasia) internacional que hoje, mobiliza bilhões de dólares (e milhões de egos). O filme entra na intimidade de poderosos viticultores da França, Itália, EUA, Argentina e até Brasil, para revelar a guerra entre a diversidade e a padronização desse antigo símbolo da nossa civilização. Dirigido por Jonathan Nossiter, diretor de ficções como "Domingo" (vencedor do grande prêmio do festival de Sundance). Mondovino é uma comédia humana, cheia de humor e pimenta".

O filme cita e até entrevista alguns dos vilões dessa história, assim como inclui alguns dos heróicos e talentosos defensores do puro vinho. Os vilões do vinho querendo oxigenar o vinho, transformá-lo em mais um tipo de coca-cola, lembram muito os vilões da Capoeira.

Realmente, salta aos olhos algumas similaridades com o processo de institucionalização da Capoeiragem, que também conta com a sua "máfia" determinada a transformar a Capoeira em uma falsa luta-dança, com raízes suspeitas, fundamentos nebulosos. É só "oxigenar" e colocar violento marketing em cima desse novo produto totalmente híbrido que, a rigor, não é barro nem tijolo.

Nesse lamentável processo de "globalização", portanto, temos não apenas o híbrido produto massificado "Vinho-coca-cola", mas também a  "Capoeira-coca-cola". Nada errado, entendam bem, com o produto Coca-cola em si, puro e isoladamente o problema ocorre quando violentam a regra sábia de Mestre Caiçara: "cada qual no seu cada qual". Além do que, sendo o bom e verdadeiro vinho muito mais antigo do que a coca-cola, uma outra máxima caiçareana poderá (deverá) ser também evocada: "roupa de homem (vinho antigo) não dá em menino "coca-cola moderna".

Em  sua coluna semanal  - Em volta da mesa - no Suplemento RIO SHOW, no jornal O Globo de sexta-feira, dia 10 de março de 2006,  o competente Renato Machado, desta vez, preferiu ficar em cima do muro. Ou da mesa. Abre coluna mencionando a discussão entre novo mundistas e os tradicionais do vinho, discussão que estratifica em apenas dois oponentes, o diretor do filme Mondovino, Jonathan Nossiter e, do "outro lado" Robert  Parker suportado pela revista "Wine Spectator". Em seguida, entretanto, parte para os restaurantes de Alain Ducasse, salpica a gosto cultura americana e, na justa medida,  o misterioso episódio das Torres (11 de setembro de 2001). O assunto merece seqüência e, tenho certeza, a famosa e realmente recomendável coluna brindará seu público com novos artigos.

De qualquer modo, a esta altura o leitor-capoeira já terá dado  nome aos bois, já estará sabendo distinguir o vinho-angola do vinho-regional. Já estará até dizendo que existem várias outras alternativas. No que estará absolutamente certo (Capoeira de rua, Utilitária de Sinhozinho etc).

O que não elimina a sugestão, oferecida ao mestre de capoeira interessado, para assistir aos dois filmes, o "Side way" e, sobretudo, o "Mondovino". Ao contrário, reforça. Pois, sem dúvida alguma,  a luta pelo bom vinho é exatamente igual à luta pela boa e verdadeira Capoeira.

Sobre a  bebida "mulher barbada" já escrevemos, sobre o  Trinidad, escreveremos mais adiante.

 


2006 - Ano Internacional da Mulher Capoeirista no Jornal do Capoeira



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