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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS
  20/04/2005
  1 comentário(s)


Capoeira em Sao Luiz do Maranhão
Mestre Eli Pimenta (São Paulo) escreve sobre a Capoeira em São Luiz do Maranhão, meados do século XIX (1863), trazendo novos subsídios para o entendimento do fenômeno da Capoeiragem no Brasil
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A Capoeira em São Luiz do Maranhão.

Mestre Eli Pimenta - São Paulo

 

Nota Editorial

 

Não estava sendo fácil manter um Jornal de Capoeira sem apelar para a velha mesmice, as mesmas estórias que ninguém agüenta mais. Pouco a pouco, entretanto, a situação vai melhorando. Surpreendentemente, pois vai revelando, também, que há uma grande e crescente demanda para textos independentes, ecumênicos e bem fundamentados. E mais, todos começam a tomar conhecimento da importância, fundamental, de se realizar um grande Diagnóstico na Capoeiragem - teoria e prática - que vem sendo feita no Brasil e no mundo.

 

Semana passada tive mais um grande exemplo desta demanda. Sobre a capoeira do Maranhão recebi dois excelentes trabalhos. Do  Professor  Leopoldo Vaz (Universidade Estadual do Maranhão - UEMA), o artigo "Capoeiragem no Maranhão"; e do  Mestre Eli Pimenta, seu mais recente artigo -  "A Capoeira em São Luiz do Maranhão".

 

Permitindo, portanto, mais uma vez, que o  caro leitor constate e confirme a existência de um grande esforço para se tentar restabelecer a história completa de nossa Capoeiragem. Trabalho este que vem sendo feito, é justo ressaltar, por conta própria dos autores, às vezes, contando  apenas com apoio acadêmico local, mas sem apoios maiores da área federal (o que seria muito natural e elogiável). E mais, tais esforços são realmente independentes,  desprezando o cômodo caminho das histórias fantasiosas e encomendadas por uma vertente ou outra da Capoeira. Tão pouco tais pesquisas estão preocupadas em transformar a capoeira num produto turístico de exportação. Seria até justo que o Programa Nacional e Mundial da Capoeira, lançado de forma um tanto nebulosa  pelo Ministério da Cultura, atentasse para a importância de se passar a desenvolver uma estratégia de ação pública que contemple as reais necessidades da Capoeira como um todo, uma Capoeira Brasileira.

 

Assim não agindo, outros grupos estrangeiros, a exemplo do tal grupo independente de Paris, tenderão a seguir o próprio caminho,  sem levar muito a sério os produtos fantasiosos e confusos  que estão sendo colocados no mercado internacional. Muitas vezes patrocinado pelo dinheiro público.

 

Na semana passada publicamos a primeira parte do interessante trabalho do Professor Leopoldo Vaz. Esta semana é a  vez de Mestre Eli Pimenta.

 

Com isto estamos começando a resgatar parte da capoeira que jamais poderia ficar de fora de sua História.  Só assim a Capoeira  Brasileira se imporá, natural e plenamente, lá fora.

 

Lendo o trabalho de Mestre  Eli, é possível que alguns aleguem que os documentos citados não condizem com a história real da Capoeira. Que os livros foram escritos com certo grau de romantismo. Mas, sem querer calar ninguém, temos ai mais dois bons exemplos de que a Capoeira floresceu também por outras paragens deste nosso imenso Brasil.

 

Sendo oportuno, mais uma vez, sugerir que é chegada  a hora da Capoeira no Brasil - e por que não dizer no exterior também - ser devidamente diagnosticada.  Para, então, se partir para  uma estratégia de ação, realmente, e, por via de conseqüência, traçar um Planejamento sério e competente. Planejamento que resulte em projetos NACIONAIS que realmente resgatem e passem a preservar  TODA a História da Capoeira, e não apenas uma de suas partes. 

 

Em conversas com Mestre Eli Pimenta, ele comentou que estava de posse deste grande achado! Tratei de incentivá-lo a escrever este artigo, sabendo que ele tem trabalhado muito para que a Capoeira seja compreendido em quando um fenômeno Dinâmico, geograficamente disperso e temporalmente com particularidades como reflexo da situação política, econômica e social de cada região. Desafio aceito,  e missão cumprida, segue abaixo o artigo encomendado.

 

Miltinho Astronauta

 

 

A Capoeira em São Luiz do Maranhão.

Mestre Eli Pimenta - São Paulo

Grupo Cativeiro Capoeira

São Paulo,17  abril de 2005

 

                 A capoeira é brasileira (sic) meu sinhô.   Essa velha cantiga da Capoeira nos indica um caminho muito rico na trilha da história da Capoeira. Ultimamente, uma outra frase/música da Capoeira, aquela que diz "Capoeira nasceu foi na Bahia, Angola e Regional", é que tem sido dominante na transmissão  da história oral da Capoeira e, de uma certa forma, até mesmo na pesquisa acadêmica sobre Capoeira, que por sinal tem se interessado muito por esse tema. A história "oficial" da Capoeira - entende-se com isso a versão mais difundida sobre a origem da Capoeira e, naturalmente para aqueles que acham que a Capoeira nasceu no Brasil - divulgada por revistas especializadas, por apostilas de academias e também por obras consagradas que falam da Capoeira, passa essa idéia de que tudo começou na Bahia. Isso tem muito de verdade se considerarmos a "nova diáspora" que a Capoeira teve a partir dos anos de 1930 e 1940, graças principalmente, ao trabalho de Mestre Bimba, que, como uma Fênix, não deixou que a Capoeira desaparecesse na Bahia, como havia acontecido em outros Estados da Federação, criando um estilo, uma ética e uma didática que permitiram que a Capoeira não sucumbisse naqueles tempos de tantas adversidades para o capoeirista e para a Capoeira .

 

Mas será que a Capoeira nasceu realmente na Bahia, como afirma a "tradição" hoje dominante ? Não é minha intenção responder essa questão que exige uma profunda pesquisa histórica. Pretendo  tão somente levantar algumas questões que indicam a complexidade do tema, apontando em direções diferentes no que diz respeito à origem da Capoeira. Lendo o belo romance  Os Degraus do Paraíso, de Josué Montello, Editora Martins ,ed.de 1965, que trata da vida social e dos costumes de São Luiz do Maranhão, na passagem do século XIX para o século XX, encontrei uma passagem interessante que fala da Capoeira naquela cidade e naquela época. O autor fala da inauguração da iluminação pública de São Luiz com lampiões de gás, ocorrida em 1863, e comenta as modificações na vida da cidade com a ruas mais claras durante a noite: "Ninguém mais se queixou de ter caído numa vala por falta de luz. Nem recebeu o golpe de um capoeira na escuridão. Os antigos archotes, com que os caminhantes noturnos iluminavam seus passos arriscados, não mais luziram no abandono das ruas."

 

 Essa alusão à Capoeira encontrada em  Os degraus do Paraíso  nos passa a idéia de que capoeiristas perambulavam pelas rua de São Luiz  na primeira metade do século XIX, e não deixa de ser uma pista promissora de pesquisa para aqueles que querem descobrir a origem da Capoeira  no Brasil. Indicações como essa de Montello, que falam da Capoeira em diferentes cidades brasileiras, podem ser encontradas em outras obras literárias ou historiográficas e cabe aqui citar uma passagem da obra  História e Tradições da Cidade de São Paulo, de Ernani Silva Bruno, onde ele diz que: "Em 1846 a Câmara oficiava ao chefe de polícia pedindo providências também contra escravos que andavam pela rua depois do toque de recolhida; contra  as casas onde fazias jogos proibidos; e contra  o "jogo denominado capoeira". "

 

Quanto mais aqueles que se interessam pela história da Capoeira adotarem uma postura não dogmática, aceitando que a história da Capoeira ainda está para ser escrita, maior será a possibilidade de se escrever uma historia da Capoeira com "H" (agá maiúsculo), deixando cada vez mais de lado a "reinvenção de tradição" como fator explicativo da História.

 

Mestre Eli Pimenta

 

Eli Pimenta é Mestre em Ciencias Sociais, professor Universitário e Mestre de Capoeira



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