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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS

  03/07/2005
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Capoeira Livre Versus Avião Tumbeiro

Nesta Crônica o autor estabelece um paralelo entre os "navios tumbeiros" e o que ele chama de "aviões tumbeiros", onde alguns grupos tentam, a qualquer preço - ou melhor dizendo Custo -, tomar conta da Capoeira.

Capoeira Livre Versus Avião Tumbeiro Nova pagina 1

Nota do Editor:

Continua evoluindo, muito bem, a boa discussão sobre o processo de institucionalização da Capoeiragem. Pouco a pouco, discussões e agressões fanatizadas e/ou mercantis vão sendo substituídas pelo debate respeitoso, bem fundamentado e, sobretudo, fraterno.

O que só engrandece a Capoeira e, sobretudo, aos capoeiras-debatedores. 

Não sem razão, portanto, vários bons artigos e estudos começam a circular nas rodas de debate. Para efeito deste pequeno intróito destacaríamos três pequenos trabalhos recentes:  1. "Qual Capoeira?", do Professor Leopoldo Vaz (Maranhão); 2. "Capoeira, Comunidade, Instituição, Sociedade e Indivíduo", de Mestre Cobra Mansa (Washington D.C.); e 3. "Capoeira e o Avião Tumbeiro", artigo de André Luiz Lacé (RIO, Revista ForumVirtual).

Já tínhamos separado o artigo de André Lacé, quando tomamos conhecimento dos outros dois.  Verificamos, de pronto, que o ideal seria publicar os três. É o que faremos depois de confirmar alguns pontos com seus respectivos autores, posto que, principalmente as matérias veiculadas pela Internet, correm risco de sofrer algum tipo de vírus mandingueiro.

Nesta edição, entretanto, já estamos publicando o artigo de Mestre André Lacé. Mas não sem antes adiantar que o estudo do Professor Leopoldo Vaz, à medida que defende pesquisa mais intensa e respeitosa a todos os diversos tipos de capoeira, de alguma forma, parece corroborar a tese defendida por André Luiz Lacé.

A reflexão assinada pelo Mestre Cobra Mansa, ao contrário, parece discordar. Pois combate, com alguns bons argumentos e de maneira flagrantemente sincera, ao que André Lacé chama de "institucionalização da Arte Afro-Brasileira da Capoeiragem". Bem entendido, o texto de Mestre Cobra Mansa não é dirigido ao Mestre Lacé, é dirigido a todos que defendem a institucionalização da Capoeira. Mestre Cobra Mansa, quase poético, defende uma situação muito especial para o Mundo da Capoeira, dentro do Mundo Geral, dentro da Sociedade, mas, ao mesmo tempo, independente e livre como o vento.  No fundo, não diverge muito do pensamento, filosófico de André Lacé.  O problema comece aparecer, talvez em função da longa experiência que Lacé tem como mestre em Administração.  Ou seja, é bonito sonhar com um Mundo Mágico para a Capoeira e para o Capoeira, especialmente, como frisa Cobra Mansa - o Capoeira Angola -  mas quem estará no comando deste mundo especial?  Quem terá o direito de se tornar um profissional da Capoeira Angola? Ou todo mundo mágico da Capoeira Angola será financiado por terceiros? Neste caso, os patrocinadores deste mundo mágico não terão direito de exigir periódicas prestações de contas, de fazer um permanente controle de qualidade técnica e contábil?  Se um angoleiro desse mundo mágico, por infelicidade, quebra uma perna, irá para algum Hospital Mágico ou para um hospital da rede pública ou particular? Neste caso, quem pagará a conta?  E quanto a esses angoleiros que estão percorrendo o mundo, vivendo um fascinante presente, mas sem pensar no futuro, nem dele, nem da mulher, nem dos filhos? O Mundo Mágico da Capoeira garantirá uma aposentadoria para este velho mestre, garantirá uma pensão digna para a sra. viúva e filhos?

André Lacé, em seus artigos e livros, está sempre refletindo sobre tais impasses e, o que é muito positivo, apresentando soluções alternativas que merecem ser discutidas mais amplamente.

No momento, entretanto, vamos nos limitar a transcrever o artigo "Capoeira e Avião Tumbeiro"  onde André Lacé  faz curiosa analogia entre os navios negreiros de Ontem e o fenômeno dom "uncle-tomismo" aéreo.  Vamos ao Artigo.

Milton Cezar Ribeiro

- Miltinho Astronauta -

 

 

 

 

CAPOEIRA  E  O "AVIÃO TUMBEIRO"

 

André Luiz Lacé Lopes

Jornal Fórum Virtual - julho 2005

 

            Defendo, há longas décadas, uma solução sui generis para a institucionalização da Arte Afro-Brasileira da Capoeiragem.  Para comprovar minha posição bastará ler  os artigos e livros que venho publicando ao longo deste tempo.

            Defendo, por exemplo, a parceria com os organismos de Educação Física, desde que não haja paternalismo ou monitoramento (normalmente burocrático, tributário e fiscalizatório).  Já, inclusive, por várias vezes, embora sem nenhum sucesso, apresentei projetos ao Governo Federal.

            O artigo de hoje, entretanto, quase que paradoxalmente, é para combater certa classe de "defensores" da total independência da Capoeira. "Defensores" que lembram muito os antigos traficantes de escravos, só que agora, não mais mercando em navios tumbeiros (de "tumba", ou "caixão", onde boa parte dos africanos escravizada morria), mas em aviões tumbeiros.

            Esses "defensores", verdadeiros sacerdotes de uma espécie de Igreja da Capoeira Sublime e Marqueteira, autoproclamaram-se "donos da verdadeira e única capoeira".  Um forte e diabólico esquema de marketing, em grande parte patrocinado pelos cofres públicos do mundo, vem sustentando as mentiras, fantasias e explorações desta "Igreja" de fanático-mercantis.

            Esses "defensores", essa "igreja", é absolutamente óbvio, não querem fiscalização de nenhuma espécie.  Querem total independência para agir, para sentenciar o que é certo e o que é errado dentro do Mundo da Capoeira, para proclamar quem é mestre e quem não é, para definir quem entende de capoeira e quem não entende.  De maneira primária, mas sempre com forte marketing e, na maioria das vezes, através de prepostos, tais sacerdotes vão inundando o mundo de "medidas provisórias", que pretendem ser, no fundo, permanentes e imutáveis. Verdadeiros dogmas que vão paralisando a Capoeira no tempo, satisfazendo o ego de uns poucos e rendendo alguns euros e dólares para os mais espertos.

            Apenas para exemplificar, bastará citar dois "dogmas" para que todos possam avaliar melhor  o trabalho que vem sendo feito nos porões desta famigerada "igreja":

 

1.      "Só entende de Capoeira quem é capoeira, sendo mestre, entenderá ainda mais, desde que tenha, é claro, real experiência de jogo, que tenha realmente ensinado capoeira e entrado em muitas rodas".

Afirmação marqueteira que faz grande sucesso entre alguns grupos de internautas, mesmo sendo flagrantemente contraditória e totalmente sem fundamento. Qualquer leigo, qualquer pessoa que veja pela primeira vez uma roda de capoeira, saberá dizer quem está jogando muito bem e quem está jogando muito mal. Além do que, qualquer leigo que, depois de uma roda, converse com alguns mestres presentes, perceberá que cada um tem uma versão diferente do jogo que foi jogado e, sobretudo, da História e dos Fundamentos da Capoeira. De mais a mais, aqui entre nós caro leitor, que ninguém nos ouça, mas boa parte dos mestres de capoeira não apresenta um padrão de maestria acima de qualquer suspeita.  O que, aliás, ocorre com qualquer outro segmento sócio-esportivo-cultural. Existem grandes e pequenos advogados, existem grandes e pequenos times de futebol, existem grandes e pequenos sacerdotes, existem grandes e pequenos mestres de capoeira, e por aí vai.

Bueno, continuando, se  este mesmo "leigo atrevido" tiver a paciência de ler artigos e livros sobre capoeira, perceberá  também  que, tirando os pesquisadores-amestrados, há uma grande controvérsia sobre cada ponto nuclear deste fascinante fenômeno sócio-cultural-esportivo chamado Capoeiragem.

Sempre lembro que o maior cronista de futebol, considerado assim pela própria associação de cronistas esportivos, foi o dramaturgo Nelson Rodrigues. Que não escondia que jamais tinha conseguido fazer, com uma bola de futebol, mais de duas embaixadas. E o Futebol, meus senhores, meio aparentado com a Capoeira, tem também sua História, seus Fundamentos, suas rezas, suas mandingas, suas técnicas e táticas.

Resumindo, já está na hora de certos mestres pararem de tentar defender, bisonhamente,  que fora da capoeira só pode escrever sobre ela quem elogiar o trabalho da "igreja".

Mesmo considerando a manobra atual, ou seja, elogiando, nada lhe será cobrado, ao contrário, "é gênio", "percebe bem as coisas". Será convidado para falar em todos "congressos" e similares promovidos pela "igreja".

 Não elogiando, entretanto, está morto. A "igreja" mobiliza seus pequenos demônios - moleques de recado - e lhes dá a missão de excomungar o incauto, com todas as armas possíveis. Sem saber que estão excomungando, senão a própria Capoeira, o sempre recomendável exercício (brilhante e sereno) do Contraditório.

 

2.      "Graças à ação da "Igreja" a Capoeira pegou no mundo".

Outra bobagem, na velha linha de copiar, usurpar, omitir e fantasiar. E, assim, além de forjar uma versão fantasiosa, faz grave injustiça a um verdadeiro batalhão de soldados, digo, de capoeiras  desconhecidos.

O Jornal do Capoeira (Internet), no outro dia, republicou interessante crônica, datada de 1929, que mencionava o sucesso capoeirístico de um marinheiro brasileiro na Itália.  Muito falta a escrever, ainda, sobre o papel das duas marinhas brasileiras, de Guerra e Mercante, na função de disseminar a Capoeira pelos portos brasileiros e pelos portos do mundo.

Muitos funcionários subalternos de embaixadas e de outras representações brasileiras no exterior, inclusive o empresariado caboclo, jogavam sua capoeira e, vez por outra, eram chamados para exibições informais. Alguns chegando a realizar pequenos cursos introdutórios. Pessoalmente, acompanhei alguns casos desses.

Carlos Alberto Pettezzoni, Belisquete, aluno de Sinhozinho, em 1957, ensinou capoeira em Miami, fazendo até um pequeno filme documentário. Artur Emídio de Oliveira, muito antes da criação desta  pretensiosa "igreja" já corria o mundo, sendo aplaudido de pé pela sua extraordinária capoeira (na maioria das vezes, jogando com o não menos extraordinário Djalma Bandeira).

E quanto ao Mestre Canela, do subúrbio do Rio, há mais de 25 anos radicado na Itália,  sempre ensinando e fazendo exibições de capoeira?

Sem esgotar, nem de longe, este mote, a nível nacional, o que comentar sobre a capoeira utilitária do paulista-carioca Agenor Sampaio, que a "Igreja" tentou e tenta esconder de todas as formas?

Enfim, defendo, defenderei sempre, que o fenômeno Capoeira é um grande somatório de todos os eventos e mestres que por ela passaram, desde seus primórdios na África.  Será um erro fatal tentar dar um corte marqueteiro na História e arbitrar uma nova versão para este tão decantado e encantado fenômeno.

Os "dogmas" e as mentiras cristalizadas são muitos, menciono alguns no livro "Capoeiragem no Rio de Janeiro - Sinhozinho e Rudolf Hermanny", mas o marketing e as verbas funcionaram muito bem.  Vai daí que, feita a cama - capoeira se alastrando, sendo melhor reconhecida no Brasil e demandada no resto do mundo -   a "igreja" deita-se nela e passa a produzir versões fantasiosas e mercantis, normalmente movidas por verbas públicas.

Só que o mundo começou a perceber que o produto não era assim tão bom, tampouco era autêntico. Com toda razão, começaram a desconfiar que  havia muita coisa  "por debaixo do angu".  Muitos capoeiras estrangeiros começaram a vir ao Brasil,  a beber na fonte, em várias fontes, tomando conhecimento de vários tipos de capoeiras, de vários estilos, de vários metodologias. Perplexos, começaram também a ouvir várias outras versões sobre as origens e os fundamentos da capoeiragem.

Vai daí que os sacerdotes-capoeiras não tiveram outra alternativa, senão a de, rapidamente, transformarem-se, também, em "sacerdotes-empresários", passando a acenar  com migalhas de dólares e euros  para conseguir  levar alguns bons mestres, não alinhados,  para viagens pelo exterior. Viagens rápidas e monitoradas.  São os "uncles-toms" modernos, alguns espertamente conscientes deste papel, outros, não.

Tenho uma excelente carta de Mestre Leopoldina deixando claro como foi explorado em sua primeira viagem ao exterior.  Muito embora, Leopoldina, tenha sido um dos poucos que tenha conseguido, lá pelas tantas, começar a fazer seus vôos independentes para o exterior.

 Do corajoso Mestre Russo de Caxias também ouvi depoimentos massacrantes.  Os grandes mestres Ezequiel Martins e Lord Bom Cabrito também me deram depoimentos contundentes, que um deles resumiu muito bem na frase:

- Ou fazemos papel de palhaço ou não viajamos mais.

Tudo apontado, portanto, relevem a repetição, para minha velha tese do "uncle-tom" na capoeira, numa versão moderna, não mais viajando de navio, relevem a repetição, mas em "aviões  tumbeiros".

Começo pelo tráfico de capoeiras para o primeiro mundo, pois este vem sendo a maior fonte de exploração dos capooeiras-empresários, mas também internamente, a exploração continua. Manhosamente através de projetos quase sempre patrocinados pelo governo, por partidos políticos ou por candidatos políticos.

A maioria dos "projetos de inclusão", por exemplo, são de eficácia social muito discutível. Sendo que alguns parecem já estar merecendo uma CPI.

Salta aos olhos, portanto, que esses "defensores" da total liberdade para prática da Capoeira, lutam na realidade para que não haja transparência em seu comércio. Lutam, também, por razões óbvias, para que não haja controle de qualidade na parte técnica e histórica da Capoeira. Arvoram-se em "donos da verdade" definindo quem deve viver e quem deve morrer no mundo da capoeira.

Elegem e promovem seus próprios pesquisadores, não por acaso àqueles que entortam a verdade histórica favorecendo versões fantasiosas mais convenientes. Definem, como adiantei acima, quem é mestre e quem não é, também em função de seus interesses mercantis.  Comandam uma verdadeira usina de aproveitamento das informações e das idéias dos outros, copiam tudo, ignoram a fonte, assinam em baixo e comercializam o resultado.  Utilizam qualquer forma de luta que contribua para manter os privilégios alcançados.

Felizmente este quadro está mudando. O próprio Tribunal de Contas da União já andou reprovando algumas contas.  A tendência é aumentar o rigor no exame dessas prestações de conta, nos três níveis de governo.

Também a nível internacional, as embaixadas estão mais cuidadosas, como cuidadosos também estão os governos locais. Até porque, alguns mestres de capoeira no exterior já  utilizaram verbas públicas locais de maneira, digamos,  um tanto confusa.

Resumindo e terminando, defendo autonomia para a Capoeiragem, mas, definitivamente, por razões bem distintas a essas, defendidas por esses senhores tumbeiros.

 

No próximo artigo, a bem da justiça, vamos começar a registrar também o lado positivo desta grande novela.  Vamos dar início a uma série de artigos sobre os grandes mestres de capoeira da atualidade. Mestres que estão fazendo um excelente trabalho aqui no Brasil e no exterior. Falaremos, também de alguns livros realmente sérios, recentemente publicados, e de alguns CDs que honram os grandes mestres-cantadores e tocadores do passado.






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