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Jornal do CAPOEIRA
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 CRÔNICAS

  18/04/2005
  1 comentário(s)


Capoeira no cinema

Artigo escrito por Marcelo B. N. Stotz na Revista UNIFEBE - Especial Cinema Nacional

Capoeira no cinema Nova pagina 3

Nota Editorial

 

Sobre o assunto Capoeira & Cinema, Mestre Djamir Pinatti participou do filme "Se meu dollar falasse", com Dercy Gonçalves & Grande Otélo. O Filme "Kung Fu Contra as Bonecas" contou com a participação do senhor Everaldo Bispo, internacionalmente conhecido como Mestre Lobão - residente em São José dos Campos, São Paulo. No Jornal do Capoeira em 1/fev/2005 o Capoeira e jornalista Pedro Rebouças publicou uma nota com a chamada "Divulgação - Capoeira & Cinema", comentando sobre o filme "Mulher Gato" (ilustração), e a linda atuação, da não menos linda Halle Berry.

Miltinho Astronauta

 

* * *

De Hong Kong para Hollywood, com dendê:

Capoeira & Cinema

Marcelo B. N. Stotz

Revista UNIFEBE - Especial Cinema Nacional 
 

Eu aprendi Capoeira

Lá na rampa no cais da Bahia

O gringo filmava me fotografava

Eu pouco ligava também não sabia

Que minha foto ia sair no jornal

Na Rússia na França e até na Hungria


Em pleno século XXI, não há como negar a influência das artes marciais no cinema. O gênero mostra sua força em filmes como "Matrix", "As Panteras", "O tigre e o Dragão", "O Último Samurai", "A Casa das Adagas Voadoras". "Kill Bill" é uma verdadeira homenagem aos filmes de Kung Fu das décadas de 60 e 70. Assim como Quentin Tarantino, não foram poucos os brasileiros que se tornaram fãs das lutas orientais assistindo a um filme de pancadaria made in Hong Kong. Muitos deles eram exibidos em cinemas decrépitos fazendo uma dobradinha clássica com algum filme brasileiro. Normalmente eram as chamadas pornochanchadas, filmes produzidos em série com estórias eróticas derivadas das chanchadas (porcaria em espanhol paraguaio) e indiretamente do Teatro de Revista. Ambos os gêneros dominaram as telas do cinema nacional até a primeira metade da década de 1980. Apesar de serem estigmatizados pela elite intelectual e midiática, "sexo & karatê" tinham bilheterias lucrativas, pois lotavam as salas de projeção com suas produções de baixo custo " e baixa qualidade.

          O cinema pré-erótico nacional era herdeiro direto da repressão instituída pelo AI-5 (em 1964). A lei de obrigatoriedade de exibição de filmes nacionais instituída em 1968 impulsionou o desenvolvimento da indústria marginal das pornochanchadas. Um gênero assumidamente popular e despretensioso, feito para um público mais interessando em se divertir do que 'discutir'. Quem fazia os filmes pertencia aos mesmos estratos dos espectadores, vindos das classes C, D e E. Poucas produções marginais foram elogiadas pela crítica especializada daquele período, como as tramas "Adultério à Brasileira" (1969), "Ainda Agarro Essa Vizinha" (1974) e "A Viúva Virgem" (1972).

          O gênero se constituiu a partir do sucesso das comédias eróticas leves do início da década e foi desembocar num ciclo de pornografia explícita nos anos 1980. Deu seus últimos suspiros com a política anti-cultural de Fernando Collor e a invasão dos filmes de sexo explícito, atingindo a produção nacional e também a exibição, ao estigmatizar as salas de cinemas. Mas deixou suas marcas. Personagens como a "Feiticeira", "Tiazinha" e similares comprovam que ainda permanece no imaginário popular a velha curiosidade erótica de "olhar pelo buraco da fechadura" que já caracterizava a visão da câmera nas pornochanchadas.

          A Boca do Lixo paulista tornou-se, nos anos 1970, o centro de produção das pornochanchadas. De lá também saíram faroestes, cangaços, melodramas, terror, comédia musical caipira, uma série de filmes de presídio, filmes experimentais e toda sorte de aventuras de segunda linha, como "Kung Fu Contra as Bonecas" (1975), conhecido no exterior como "Bruce Lee vs Gay Power". Uma trama de lutas fakes combinando erotismo e comédia, livremente inspirado no famoso seriado de TV "Kung Fu", sendo considerado um dos filmes mais raros do mundo. Por isso é bastante procurado por colecionadores de bizarrices cinematográficas.

          O enredo de "Kung Fu Contra as Bonecas" é no mínimo inusitado. O diretor Adriano Stuart é Chang, um mestiço de chinês com pernambucana, perdido na catinga nordestina que descobre que seu pai e irmã foram assassinados. Juntamente com a capoeirista Maria, ele parte para se vingar de Azulão (interpretado por Maurício do Valle, o mesmo ator de "Deus e o Diabo na Terra do Sol") e seu bando de cangaceiros gays. Também no elenco Helena Ramos (a rainha da Boca-do-Lixo) e o ator Dionísio Azevedo.

          Muitos atores e atrizes transitavam pelas produções marginais das pornochanchadas e o emergente "cinema de protesto" ou "de arte", feito por cineastas com engajamento político. Herdeiros do chamado Cinema Novo brasileiro (movimento cultural organizado a partir dos primeiros filmes de Glauber Rocha) o "cinema social" produziu grandes filmes como "O Amuleto de Ogum" (de Nélson Pereira dos Santos - 1974), "Xica da Silva" (de Cacá Diégues - 1976) e "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (de Bruno Barreto - 1976). Mas voltemos aos filmes de artes marciais.

          Na década de 1940, enquanto a China ainda se adaptava ao comunismo, as empresas cinematográficas em Hong Kong começaram a fazer suas primeiras experiências com produções voltadas para o público chinês. Usando os conhecimentos cinematográficos herdados dos ingleses e alemães, passaram a retratar estórias populares e clássicos chineses, como as óperas de Pequim. Noventa por cento eram filmes sobre lutadores de Wu Shu. Os filmes fizeram bastante sucesso e estabeleceram um padrão que foi seguido até a década de 70.

          Em seu próprio território, a indústria cinematográfica oriental explorou ao máximo a lua de mel entre as artes marciais e o cinema, movimentando cifras consideráveis ao logo de uma década. Depois migraram para o Ocidente, que foi tomado por uma infinidade de produções de baixo orçamento, feitas para conseguir lucros rápidos. É bom lembrar que as produções orientais de qualidade desta época, como Os Sete Samurais (1954) ou Yojimbo (1961), ambos de Kurosawa, chegaram aos Estados Unidos somente na década de oitenta.

          Acompanhados por uma intensa campanha (capitalista) da mídia ocidental interessada em encher academias e vender revistas, livros, fitas e material promocional, os "filmes de Kung Fu" ajudaram a divulgar a cultura dos povos da Ásia para o mundo. O novo filão dos filmes de artes marciais permitia extrapolar os limites da violência tolerada no cinema ocidental, que se restringia até então a algumas "coreografias" dos Três Patetas ou um par de socos num filme de caubói. Nos "filmes de Kung Fu" tudo era válido para derrotar os bandidos, mesmo que o herói fosse um monge. Quanto mais sangue, melhor. Para os espectadores estava tudo bem, pois no final do filme só havia cadáveres "amarelos".

          As cenas de luta nas quais os atores voam sobre telhados e lagos também eram comuns nessas produções. Exagero sem culpa, livre e descompromissado. O mocinho, praticamente indestrutível, usando algum estilo exótico de luta, saía distribuindo sopapos para todos os lados em centenas de extras que esperavam pacientemente, um a um, a sua vez para atacar. Até chegar a luta final com o chefão do mal, eram espancados dois ou três maracanãs cheios de "sparrings". Prova irrefutável de como o cinema ajuda a gerar muitos empregos.

          Mas nem tudo era made in Hong Kong. As empresas cinematográficas Shaw Brothers e a Golden Harvest, por exemplo, tomavam muita coisa "emprestada" dos filmes de bangue-bangue à italiana, como os enredos e as tomadas parecidas. A eterna busca de vingança, para lavar a honra com sangue ou usando como álibi a própria filosofia oriental " sempre desrespeitada por um vilão que por isso mesmo merecia morrer " o motivo não importava. O importante era ter muita pancadaria.

          A popularidade do Wu Shu atingiu grandes proporções nas décadas de 60 e 70 devido ao seriado Kung Fu (1970) e aos filmes do Bruce Lee (que estreara na TV nos EUA como o ajudante Kato em O Besouro Verde de 1966). O sucesso mundial de "Operação Dragão" (Enter The Dragon " Robert Clouse, 1973) gerou centenas de películas sobre artes marciais. Mas a febre do Kung Fu acabou com a morte de Bruce Lee, junto com os anos "disco" e o desgaste dos filmes antigos do astro e de seus "clones". Os produtores ainda tentaram trazer Bruce Lee de volta do túmulo no picareta "Game of Death" (Robert Clouse, 1978), que misturava trechos com Bruce Lee ainda vivo, com cenas com dublês de óculos escuros, o protagonista de costas, bem ao estilo Ed Wood.

          Mas já não havia volta. A poderosa indústria hollywoodyana descobrira a plasticidade das artes marciais no cinema " e o quanto isso podia render " e os produtores orientais perderam a hegemonia sobre os filmes de luta. Pela facilidade de esconder a identidade do ator (branco) naquelas roupas dos ninjas e substituí-lo nas cenas de luta por um dublê (oriental), a moda dominou o écran por muito tempo. Gradativamente foram substituídas pelo caratê, kickboxing e full contact, dando origem a uma nova geração de atores/lutadores na década de oitenta.

          Veio a onda dos heróis ocidentais. Havia os "sensíveis" como Bruce Leroy em "O Último Dragão" e Daniel San de "Karatê Kid", mas a maioria eram atores anabolizados. Belgas, suíços, ingleses, muitos imigrantes orientais, mas todos morando nos Estados Unidos e com o padrão "american way of life" de comportamento. Os efeitos colaterais também vieram, gerando os espetáculos de lutas de vale-tudo e a proliferação de gangues de pseudo-lutadores.

          Muitas produtoras foram criadas impulsionando a indústria de fitas criadas especialmente para o mercado de vídeo. O novo filão superou o cinema em arrecadação. Dezenas de astros (?) apareceram do nada, como Jalal Merhi, Loren Avedon, Olivier Grunier, Michael Dudikoff, Chuck Norris, Dolph Lundgren e Steven Seagal. Ao mesmo tempo, tivemos a volta dos filmes com temas clássicos chineses com Jet Li e, pelas beiradas, as comédias de Sammo Hung e Jackie Chan, conhecido por nunca utilizar dublês em suas cenas.

          Uma grande variedade de estilos de artes marciais invadiu o cinema. Já na década de noventa as empresas cinematográficas de Hollywood, sempre em busca do exótico, de algo diferente, acabaram por descobrir a Capoeira " e a tornaram mundialmente conhecida através do filme "Only The Strong" (Sheldon Lettich, 1993). A primeira fita americana focalizando especificamente a arte da Capoeira, mostra na ficção o que já é realidade no Brasil, ou seja, a Capoeira como instrumento de educação e inclusão social, onde "só o forte" pode vencer as dificuldades da vida. No Brasil o filme teve o título traduzido (ou reduzido) para o português como "Esporte Sangrento", sugerindo uma prática corporal com características violentas.

          O "herói" americano é um ex-fuzileiro que aprendeu Capoeira no Brasil. Quando retorna aos EUA encontra sua antiga escola invadida por delinqüentes. Cria então um projeto para ensinar Capoeira aos alunos mais problemáticos do colégio na tentativa de recuperá-los. Para isso tem que enfrentar o chefão da gangue local, coincidentemente também capoeirista (eta mundo pequeno!).

          Todas as lutas do filme foram coreografadas por Frank Dux, o lutador que inspirou o personagem de Van-Damme no filme "Bloodsport" (O Grande Dragão Branco). Infelizmente de Capoeira o senhor Dux não entende nada, tão pouco de coreografias de lutas para o cinema. As únicas cenas "reais" de Capoeira que aparecem no início e no fim do filme são protagonizadas pelo mestre Amém, um baiano que dá aulas em Los Angeles, e outros capoeiristas brasileiros. Essas cenas conquistaram fãs no mundo inteiro, embaladas pela música "Paranauê" com uma batida "eletronic" e geraram um comércio lucrativo em cima de uma Capoeira robotizada e bastante diferente da original.

          De qualquer forma, o filme ajudou a divulgar a Capoeira e criou um modismo nos Estados Unidos. Atualmente cerca de 600.000 americanos jogam Capoeira em academias de ginástica e aulas de educação física, segundo dados da Federação Internacional de Capoeira, entidade reconhecida pelo Comitê Olímpico Brasileiro. Na Califórnia, 400 escolas públicas de ensino fundamental oferecem a modalidade a seus alunos. Na prestigiada Universidade Stanford, Capoeira é tema de aula optativa. Para os americanos, a Capoeira tem um atrativo forte, ela é exótica, o que confere um certo charme a quem a pratica, além do fato de funcionar como arma de defesa pessoal e fazer bem à saúde. Mas voltemos a Hollywood, ou pelo menos às telas americanas.

          Os americanos tiveram o primeiro contato com a Capoeira na série de televisão "Kung Fu", estrelada por David Carradine na pele de Kwai Chang Caine, um monge Shaolin chinês-americano vivendo aventuras no oeste americano. O seriado televisivo teve Harrison Ford, Jodie Foster, Barbara Hershey e William Shatner como alguns dos artistas convidados. Em 1972, no episódio intitulado "The Stone" (A Pedra), o personagem principal se viu as voltas com um capoeirista, interpretado pelo ator Moses Gunn. O episódio fez bastante sucesso.

          A Capoeira se encontrou com o cinema de grandes bilheterias no primeiro filme da série "Máquina Mortífera" (Lethal Weapon, Richard Donner, 1987). Para atuar no filme, Mel Gibson aprendeu Jailhouse Rock, uma forma de luta dos escravos americanos (que gerou o Up Rockin de "Rooftops"), Jiu-Jitsu com o brasileiro Gracie e Capoeira " com um professor afro-americano. O filme rendeu bastante assunto nas revistas especializadas americanas, colocando novamente a Capoeira em pauta.

          Em 1989 a Capoeira aparece com grande realce no enredo do filme "Rooftops" (Nos Telhados de Nova York) de Robert Wise, diretor premiado por "West Side Story". A trama acompanha as peripécias de um adolescente entusiasta de Up Rockin (espécie de dança com algumas características de luta) que mora nos telhados de um edifício abandonado. Para proteger outros sem teto de um traficante que deseja colocar um "ponto" de vendas no local, o "mocinho" aprende um pouco de Capoeira com o mestre brasileiro Jelon Vieira (interpretando a si mesmo).

          De lá para cá, muitos filmes de ação passaram a utilizar movimentos de Capoeira. Inicialmente com certa timidez, como em "O Toque da Morte" (Red Sun Rising - Francis Megahy 1997), onde há uma luta rápida num bar entre um capoeirista membro de uma gangue e o herói personificado pelo kickboxer Don "the Dragon" Wilson. Nossa luta figura em dezenas de filmes sobre torneios ilegais de artes marciais. Normalmente o capoeirista morre ou é derrotado em sua primeira ou no máximo na segunda aparição, como em "The Quest" (Desafio Mortal), dirigido, roteirizado e estrelado por Jean Claude Van Damme.

          Em Kickboxer 3: A Arte de Guerra (Rick King, 1992), com participações de Gracindo Júnior e Milton Gonçalves, há uma cena curta de uma roda em uma praia no Rio de Janeiro. Também aparece em "Kickboxer 4: O Agressor" (Albert Pyun, 1994) onde o capoeirista é Joselito "Amém" Santo, o mesmo que treinou Mark Dacascos para "Only The Strong"; "Bloodsport 2: The Next Kumite" (Alan Mehrez, 1995), e muitos outros. Wesley Snipes, aluno dedicado do Mestre Jelon (o mesmo de "Rooftops"), faz movimentos de Capoeira em alguns de seus filmes, como na trilogia "Blade".

          A partir da virada deste século, a Capoeira voltou a ter destaque em produções norte-americanas. Ernie Reyes (O Pequeno Mestre da série de televisão) misturou wushu e Capoeira em seu estilo e pode ser visto no filme Bem-vindo à Selva (2003), junto ao campeão The Rock. Em "Doze Homens E Outro Segredo" (Steven Soderbergh, 2004) o capoeirista Vicent Cassel interpreta um ladrão conhecido como A Raposa Noturna, que realiza um roubo espetacular misturando movimentos de Capoeira e Ginástica Artística. Já Dustin Hoffman desempenha o papel de um bon-vivant em "Entrando Numa Fria Maior Ainda" (Jay Roach, 2004) cuja maior aspiração é aprender a "luta brasileira com música", segundo o personagem vivido por Robert de Niro.

          Halle Berry, a protagonista de "Cat Woman" (Jean-Christophe Comar "Pitof", 2004) já deu diversas declarações na imprensa americana elogiando a técnica de luta brasileira. O responsável pelo treinamento da atriz para o filme "Mulher Gato" foi o brasileiro Beto Simas, conhecido como mestre Boneco. O capoeirista brasileiro que virou modelo e se tornou símbolo sexual como Adão no Carnaval carioca de 1996, já havia feito uma ponta no filme Brenda Star, em 1988, ao lado de Brooke Shields.

          No filme "Elektra" (Rob Bowman, 2004), o ator brasileiro Edson Ribeiro, mestre em Capoeira, faz o papel de um dos vilões (Kinkou), um homem que ninguém consegue desequilibrar. A não ser a protagonista, é claro. Milla Jovovich também aprendeu Capoeira para compor a heroína de "Resident Evil - Apocalipse" (Alexander Witt, 2004), assim como Charlize Theron para atuar em "Aeon Flux" (Karyn Kusama, 2005), adaptação para o cinema do desenho animado criado por Peter Chung nos anos 80 e exibido pela MTV. Pelo menos no cinema, os americanos exploram nossa arte melhor que nós mesmos.

          Em Aventuras Amorosas de um Padeiro, de Waldir Onofre (Brasil, 1975), o português interpretado por Paulo César Pereio já dizia: "vocês brasileiros nem lutar Capoeira sabem!". Podemos afirmar que de Capoeira o brasileiro entende, só não sabe aproveitar bem esse imenso tesouro, assim como muitos outros. Quantos brasileiros talentosos - artistas, atletas, estudiosos, cineastas, etc. - são mais valorizados lá fora do que aqui e são desconhecidos de seus patrícios? Isso não é de hoje. Santos Dumont tornou-se o pai da aviação na França. Nossos melhores jogadores de futebol estão na Europa, a própria Capoeira faz mais sucesso e é mais respeitada no exterior. E o Brasil julga ser isto um motivo de orgulho...

          Numa sucessão de mediocridades que ditam modas tão instantâneas quanto passageiras - mas rendem milhões, para eles - o cinema americano, um dos instrumentos-mor de sua propaganda política, insiste em perpetuar a imagem de um ideal de perfeição e superioridade que só acontece na ficção. Rambos, Conans, Exterminadores e outros acéfalos se revezam na campanha de divulgação intensa de novos "produtos" do vazio cultural made in USA, consumidos sofregamente pelo Terceiro Mundo. Assistimos estáticos a continuidade do processo de colonização, agora gestado pelos gurus da multimídia, que vão ocupando o espaço reservado à memória da nossa própria cultura e empurrando gerações inteiras em busca de modismos estapafúrdios.

          Ao som do "Paranauê" da trilha sonora de "Esporte Sangrento" e outros "hits" das rodas de Capoeira, devidamente travestidos com uma batida "eletronic", a Capoeira esteve em alta nas academias durante as comemorações dos 500 Anos. Beto Simas e Ricardo Petraglia tentaram aproveitar o momento para fazer um filme de aventuras com um mestre de Capoeira, mas não encontraram patrocinadores. Mestre Boneco mudou-se para os Estados Unidos e quem sabe o filme acabe saindo por lá...

   A Capoeira aparece muito pouco nas produções nacionais, apesar do seu grande potencial estético e da infinidade de roteiros que poderiam ser criados aproveitando seu referencial histórico. Até a metade do século vinte, grande parte dos registros em filme cinematográfico da Capoeira no Brasil era feito por estrangeiros, que recolhiam na Bahia farto material e levavam para fora do país. Com o tempo, algumas produções nacionais ou associadas com estrangeiros também aproveitaram a idéia, como o documentário "Brasil Pitoresco" (Cornélio Pires, 1925).

          Na comédia "Massagista de Madame" (Victor Lima, 1959), com Zé Trindade, Renata Fronzi, Costinha e outros, o personagem do título tem alguns problemas com suas clientes e acaba tendo como única alternativa ser massagista dos capoeiristas da academia de sua noiva. Também apresentam cenas ou recortes do jogo de Capoeira os filmes "Orfeu do Carnaval" (Marcel Camus 1957) com argumento de Vinícius de Morais; "Os Bandeirantes" (produção franco brasileira, 1960, drama de Marcel Camus); "Briga de Galos" (Lázaro Tôrres) e "Senhor dos Navegantes" (Aloísio T. de Carvalho,1961).

          Mas as cenas de Capoeira em duas produções nacionais realizadas em 1961 merecem atenção. São os dramas "Barravento" (Iglu Filmes) de Glauber Rocha e "O Pagador de Promessas" de Anselmo Duarte. Em ambas produções participam das filmagens o mestre Canjiquinha e outros capoeiristas da Bahia.

          O primeiro longa-metragem de Glauber Rocha, "Barravento" (produção luso brasileira, 1961), premiado no Festival de Karlovy, ex-Tchecoslováquia, é sobre um grupo de pescadores pobres da Bahia. Um deles, já tendo vivido na cidade, quer livrá-los de suas velhas crenças por meio de alguns estratagemas sórdidos. Filmado na praia do Buraquinho, Itapoã e Vila Flamengo é uma homenagem à cultura popular, com cenas de samba de roda, candomblé e Capoeira. Com esse trabalho Glauber Rocha inaugurou o chamado Cinema Novo no Brasil.

          Glauber Rocha também trabalhou como assistente de produção no filme "O Pagador de Promessas", um dos filmes mais premiados do cinema nacional, ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes, onde concorreu com Buñuel (O Anjo Exterminador), Antonioni (Eclipse) e Bresson (Joanna D"Arc). Filmado em Salvador, foi baseado em peça teatral de Dias Gomes, abordando a influência da religião na sociedade. Os direitos de adaptação foram comprados por 400 cruzeiros, o mais alto preço até então pago por uma adaptação brasileira. Após o recebimento do prêmio em Cannes, ao desembarcar no Brasil, a equipe do filme foi recebida com um desfile público em carro aberto. Exibido na Casa Branca, em 17.12.1962 foi aplaudido entusiasticamente pelo presidente Kennedy, diplomatas e jornalistas.

   Outros filmes e documentários enfocando temas e personagens da Bahia também buscaram nos elementos presentes na Capoeira para a caracterização da nossa "brasilidade". Nove longas-metragens foram baseados nas obras de Jorge Amado, entre eles o trabalho de Nelson Pereira dos Santos "Tenda dos Milagres", com Jards Macalé na pele do bedel da Faculdade de Medicina de Salvador Pedro Arcanjo, incansável defensor da raça negra e de suas manifestações culturais como a Capoeira e o Candomblé.

          Com mais ação e muita engenhosidade para realizar os "efeitos especiais" foram adaptados para o cinema os episódios da série produzida pela Organização Victor Costa (dona da TV Paulista) "Águias de Fogo" (1960), onde quatro aviadores da Força Aérea Brasileira vivem as mais variadas aventuras. Receberam nos cinemas os nomes de "Sentinelas do Espaço" e "Águias em Patrulha". Edson Pereira fazia o Sargento Fritz, um personagem que utilizava a Capoeira ao invés de socos nas cenas de luta. A série, do mesmo criador do "Vigilante Rodoviário", o cineasta Ary Fernandes, fez muito sucesso e seus 26 episódios estão guardados na Cinemateca Nacional.

          Mas, sem dúvida, o projeto nacional mais ousado na tentativa de levar a Capoeira ao cinema foi o filme "Cordão de Ouro" (1977). O roteiro e direção são de Antônio Carlos Fontoura, ex-crítico de cinema. Em "Cordão de Ouro" o mestre carioca Nestor Capoeira é Jorge, um escravo de uma mina de selênio da Companhia Progresso que consegue escapar de Eldorado. Na fuga ele encontra o Caboclo Cachoeira, que o conduz até Aruanda para um encontro com Ogum. Seu Orixá protetor lhe ensina os mistérios da Capoeira e lhe dá um amuleto protetor. O herói volta a Eldorado para enfrentar Pedro Cem (Jofre Soares) o chefe todo-poderoso da Companhia. Zezé Motta, Antônio Pitanga, Carlos Wilson, Conjunto Os Ogans, mestre Leopoldina, entre outros, também atuam na película.

          O argumento é bom, mas perde um pouco ao ambientar a trama na época contemporânea. Helicópteros perseguindo quilombolas, bandidos de uniforme alaranjado e usando quepe com óculos de motociclista (apesar de não haver nenhuma motocicleta por perto) destoam completamente num roteiro que ficaria bem melhor se retratasse o Brasil colonial. Mas é compreensível, uma vez que Antônio Carlos Fontoura sonhou a estória do filme. E nos sonhos, assim como no cinema, tudo é possível.

          Num filme sobre Capoeira o "mocinho" ser branco, tudo bem, mas não era preciso usar um artista branco com o corpo pintado de preto (o excelente mestre Camisa) para incorporar um personagem negro. Certamente não foi por falta de opções de encontrar um grande capoeirista negro para representar o papel de Ogum. Talvez seja por isso que o filme tenha ficado parado dois meses por falta de verbas, só retornando após um pedido formal de autorização aos Orixás. Coincidentemente, no dia da filmagem do jogo de Capoeira do personagem principal com Ogum, Fontoura perdeu a voz. Apesar de tudo, o filme é agradável de se assistir. Pena não ter feito sucesso na época, só se tornando conhecido mais tarde no formato VHS.

          A popularização do vídeo cassete doméstico também propiciou o acesso a outros filmes em que a Capoeira tem alguma participação, quase sempre mínima. Porém os filmes ajudam a recriar o ambiente em que a Capoeira nasceu, ajudando a entendê-la melhor. São exemplos disso "O Cortiço" (Francisco Ramalho Jr, 1977); "Quilombo" (Cacá Diegues, 1984) e "Ópera do Malandro" (Ruy Guerra, 1985), uma comédia musical adaptada da obra de Chico Buarque, que aborda assuntos econômicos e sociais sérios, como racismo e influências americanas no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial.

          Outro filme que leva a passear pelo submundo da malandragem, é o primeiro longa-metragem dirigido por Karïm Ainouz, "Madame Satã" (2002). Apesar de narrar apenas um curto período de tempo logo após a abolição da escravatura, Madame Satã mostra o lazer da população carioca naquela época, o samba na Lapa, a vida nos cabarés, o vício da cocaína, a repressão policial, pequenos golpes e assassinatos. É sobre o último malandro carioca, João Francisco dos Santos. Negro, pobre, analfabeto e homossexual assumido em plenos anos 30, bom no braço, na navalha e na Capoeira.

          A história de João Francisco já tinha sido inspiração para o cinema no filme "A Rainha Diaba" (1971), dirigido por Antonio Carlos da Fontoura, o mesmo de "Cordão de Ouro". Foi seu filme mais premiado. Estrelado por Milton Gonçalves, o filme não representava Madame Satã propriamente dito, mas era a biografia de um personagem fictício inspirado na mitologia que cerca a figura do malandro travesti.

          Assim como Madame Satã, outros personagens e situações da história da Capoeira também renderiam grandes roteiros. Que tal um filme sobre o major Miguel Nunes Vidigal? Segundo Mário de Andrade, o dono da Polícia colonial carioca durante muitos anos. Perseguidor implacável dos candomblés, das rodas de samba e especialmente dos capoeiras. Ele próprio, exímio capoeirista. Mas, nas voltas que o mundo dá, acabou liderando os mesmos capoeiras a quem perseguia, para juntos dominarem os batalhões de mercenários alemães e irlandeses revoltados, que colocaram a população do Rio de Janeiro em pânico em junho de 1828.

          Outro personagem? No Rio de Janeiro: José Elísio dos Reis, o Juca Reis, pivô da primeira crise ministerial do regime republicano. Mais um: Manduca da Praia,
capoeira carioca temido pela policia e até pelos próprios capoeiristas, que livrou-se de 27 processos por lesões corporais leves e graves devido a sua grande influência. Ou ainda Horácio José da Silva, o Prata Preta, estivador e capoeirista carioca notabilizado por seus confrontos com a polícia durante o conflito da Revolta da Vacina.

   Na Bahia? Manoel Henrique Pereira, nome de batismo do Besouro Mangangá, também chamado Besouro Cordão de Ouro. Vaqueiro por profissão, "valentão" por gosto, era tido como herói por alguns e temido por muitos. Era um mulato escuro, muito hábil com as facas, jogava com navalha no pé. E tinha o corpo fechado por mandinga. Foi assassinado no dia oito de julho de 1924.

          Em Pernambuco? Nascimento Grande o mais temido capoeira do final do século XIX. José Antônio do Nascimento morreu invicto aos 90 anos de idade, tendo se envolvido em várias brigas. Corre Hoje atacou o capoeira com mais sete comparsas e acabou alvejado por Nascimento. Antônio Padroeiro, outro famoso valentão do Recife, apanhou até morrer. João Sabe Tudo participou de uma luta com Nascimento Grande que durou horas e só parou com a interferência do vigário local, pois os dois estavam no interior da Igreja. De outra feita, após ser agredido por um famoso malfeitor chamado Pajéu, deu lhe uma surra e obrigou o desafeto a desfilar pelas ruas da cidade vestido de mulher.

          O holocausto da escravidão negra, as rebeliões nas senzalas, a formação dos quilombos, as revoltas populares, os dramas e lutas dos escravos urbanos, os malandros da boemia no início do século XX... Será que nada disso poderia render um bom argumento para um filme enfocando a Capoeira? Isso sem falar nos mestres contemporâneos da Velha Guarda que, plagiando o "Rappa", a biografia de cada um daria um livro por dia. Ao invés dos mártires e vitoriosos habituais, são figuras marginalizadas como muitas outras ao longo da história do Brasil. Perpetuados apenas como herdeiros de uma tradição de violência. A violência contra o negro.

          As medidas que promovem a exibição e divulgação dos filmes nacionais são vitais para o crescimento do cinema brasileiro, mas na opinião de especialistas, é a diversificação nos roteiros que vem levando mais espectadores às salas de exibição de filmes nacionais. Dentro do imenso caldeirão de referências históricas e culturais que a Capoeira apresenta, o cinema nacional pode usar uma estética mais ousada e espontânea para elaborar obras ricas em 'brasilidade', sem precisar reproduzir a linguagem dos filmes norte-americanos.

          Muitos brasileiros nunca ouviram falar do Batalhão Quebra Pedra na Guerra da Independência, ou dos Zuavos Baianos, obrigados a servirem como "Voluntários da Pátria" na guerra do Paraguai. Pura carne de canhão. No entanto muitos deles voltaram como heróis. E acabaram engrossando as fileiras das maltas de capoeiras no Rio e em Salvador, em estórias semelhantes a contada em "Gangues de Nova York" (2002) de Martin Scorcese.

          Em função da ação dos meios de comunicação em geral, cinema e esporte estão entre as linguagens mais difundidas e acessadas no decorrer do século XX. Se o cinema circula pedaços da cultura de um povo mundo afora e os tornam conhecidos em terras distantes, por que não levar para as telas estórias de heróis brasileiros, para que possamos conhecer e ter orgulho de quem lutou pelo Brasil?

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Artigo enviado gentilmente ao Jornal do Capoeira pela pesquisadora Adriana Batalha, Rio de Janeiro

 




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Novo artigo sobre "Capoeira Luta", tendo-se como pano de fundo as matérias publicadas na Revista TATAME (abril de 2005)...
28/03/2005 - Divulgação - Capoeira, Diâmica e Informação
Crônica sobre a dinâmica da Capoeira e das informações nos veículos de comunicações virtuais...
01/02/2005 - Divulgação - Capoeira & Cinema
Nesta crônica Pedro Rebouças - o Pedrinho - que é discípulo de Mestre Careca (SP), fala da presença da Capoeira no cinema...
16/12/2004 - Divulgação - Jornal do Capoeira - Centésima notícia
Crônica sobre a notícia número 100 do "Jornal do Capoeira"...



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