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CAPOEIRA: ANGOLA OU REGIONAL?
Nota do Editor:
Os textos do Professor Leopoldo Vaz , além de surpreendentes revelações sobre a capoeiragem no Maranhão, além do excelente trabalho, pioneiro, de cadastramentos dos mestres e contramestres locais, encerram, ainda, interessantes reflexões sobre a capoeiragem de um modo geral. É de suma importância, neste crucial momento que a Capoeira atravessa, com tantos esforços institucionalizantes, com tantos anteprojetos salvadores em Brasília, com tantos congressos e campeonatos misteriosos, dar voz a todos que queiram e tenham boas críticas e sugestões a fazer. Incluindo-se aí as vozes de fora (ainda) do principal eixo decisório da capoeira.
Não estamos, com isto, referendando esta ou aquela crítica ou sugestão. Até porque seria pretensioso, estamos apenas oferecendo espaço, para aqueles que surgem com respeitável bagagem capoeirística ou em áreas correlatas.
Pensávamos, inicialmente, parcelar em três capítulos o grande texto enviado pelo Professor Vaz, mas, em função do novo desenho do Jornal do Capoeira, entendemos como mais aconselhável, desdobra-lo em seis partes e mais uma publicação especial sobre o Cadastramento dos Mestres e contramestres no Maranhão.
Para controle do leitor que acompanha esta boa novela, teremos:
Textos do Professor Leopoldo Vaz
Parte I - Capoeiragem em São Luis do Maranhão
Parte II - Afinal, o que é capoeiragem?
Parte III - Capoeira: Angola ou Regional?
Pare IV - Capoeira Angola
Parte VI - A Capoeira "CARIOCA"
Parte Especial: Cadastro de Mestres e Contramestres de Capoeira
no Maranhão
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CAPOEIRA: ANGOLA OU REGIONAL?
Sobre o nome Capoeira, é Francisco Pereira da Silva[1] quem nos informa:
"Sempre se teve em consideração que este jogo de destreza corporal se constituía na arma com que os escravos fugidos se defendiam contra os seus naturais perseguidores, os escravocratas, representados na figura famigerada do capitão-do-mato. A luta geralmente se travava no mato, onde os pretos se homiziavam. Que tipo de mato era esse? A capoeira (vernaculização do tupi-guarani caá-puêra: caá = mato, puêra = que já foi). Assim, tem-se por melhor definição aquela (...) que vem no Dialeto Caipira de Amadeu Amaral: 'Capuêra, s. f. - mato que nasceu em lugar de outro derrubado ou queimado.
"Desta sorte, capoeira (forma culta de capuêra, mato), arena das primeiras escaramuças dos escravos rebeldes, teria sido o termo adotado para denominar a luta física nacional: a capoeira.
"Acontece, porém, que se trata de uma palavra de acepções numerosas, e por uma delas se designa um tipo de cesto ou gaiola de uso na guarda e transporte de galináceos. Dizem que os escravos conduziam capoeiras de galinhas ao mercado, e enquanto não se abriam às portas aos mercantes ficavam os crioulos a se distraírem no pátio exercitando o corpo no "brinquedo" terrível que havia de se tornar tão famoso. Isto acontecia no Rio de Janeiro, e o filólogo Antenor Nascentes é de opinião que, por efeito metonímico, o nome do tal balaio passou a designar também o jogo atlético e o indivíduo que o pratica. Temos, assim: capoeira = capoeirista, o lutador; e capoeira = a luta, o jogo de agilidade corporal. Por capoeiragem devemos entender: o ato de jogar a capoeira.".
Para REIS (2005)[2] foram nos anos 30 e 40 deste século, em Salvador, que se abriram as primeiras "academias" com licença oficial para o ensino da capoeira como uma prática esportiva. Destacando-se dois mestres baianos negros e originários das camadas pobres da cidade, Bimba e Pastinha.
Mestre Bimba, criador da capoeira Regional Baiana, não verá nenhum inconveniente em "mestiçar" essa luta, incorporando à mesma movimentos de lutas ocidentais e orientais (tais como Box, catch, savate, jiu-jitsu e luta greco-romana).
Por outro lado Pastinha, contemporâneo de Bimba e igualmente empenhado na legitimação dessa prática, reagindo àquela "mestiçagem" da capoeira, afirmando a "pureza africana" da luta, difundindo o estilo da capoeira Angola e procurando distingui-lo da Regional.
Para essa autora, Bimba e Pastinha elaboraram, através da capoeira, estratégias simbólicas e políticas diferenciadas que visavam, em última instância, ampliar o espaço político dos negros na sociedade brasileira e propõem dois caminhos possíveis para a inserção social dos negros naquele momento histórico:
"A capoeira "mestiça" representada pela capoeira Regional. Embora incorpore elementos de lutas ocidentais, a capoeira Regional guarda elementos que reafirmam a identidade étnica negra nas músicas, nos toques do berimbau e nos próprios movimentos que, conforme depoimento de mestre Bimba, são provenientes também do batuque e do maculelê (Rego, 1968:33)[[3]]. Assim, a capoeira Regional, ao colocar em contato sistemas de valores distintos e, portanto, construções corporais distintas (os movimentos corporais brancos e os negros), opera uma mediação, criando um campo simbólico ambíguo e ambivalente.
"a) A capoeira Regional seria uma afirmação de identidade que é mais ampla que a da capoeira Angola pois afirma não a existência do negro excluído da sociedade branca mas sua presença enquanto parte da sociedade brasileira e, finalmente, enquanto símbolo da nação como um todo.
"b) tem no ecletismo de que faz prova (por exemplo, a incorporação de elementos de outras formas de luta e a nova racionalidade na maximização dos efeitos dos golpes) um elemento de dinamismo que permite a construção de uma nova presença negra no cenário nacional.
"c) tem um preço a pagar por tudo isso, no plano político, que significa renunciar à afirmação de uma diferença na "identidade negra".
"A capoeira Angola, em contrapartida:
"a) a capoeira "pura", como forma inequívoca de afirmação da identidade étnica. A capoeira Angola, em sua própria designação, reafirma peremptoriamente sua origem étnica e, ao "conservar" a construção corporal negra, demarca uma forma culturalmente distinta de jogar capoeira.
"b) existindo como resistência no momento de inclusão do negro na sociedade brasileira, só é revalorizada como reafirmação dessa mesma resistência em função da recuperação de uma "identidade negra" específica no cenário nacional, no bojo da construção política (contemporânea) de uma "consciência negra".
"c) essa construção só se torna possível a partir de uma postura "conservadora", que reinventa a tradição e só se mantém com a recuperação simultânea dos outros elementos que, no plano simbólico, organizam essa "visão de mundo negra" (como por exemplo, a afirmação da origem africana da capoeira a partir do ritual de iniciação denominado dança da zebra ou "N'Golo")[4]. (In JORNAL DA CAPOEIRA, disponível em www.capoeira.jex.com.br, capturado em 14 de abril de 2005. Grifos meus).
FIM da Terceira Parte (para o Jornal do Capoeira)
"Capoeira: Angola ou Regional?"
Próximo texto: Quarta Parte "Capoeira Angola"
[1] IN http://www.capoeiradobrasil.com.br/
[2] REIS, Letícia Vidor de Sousa. Capoeira, Corpo e História. In JORNAL DA CAPOEIRA, disponível em www.capoeira.jex.com.br, capturado em 14 de abril de 2005, artigo com base na dissertação de mestrado "Negros e brancos no jogo de capoeira: a reinvenção da tradição" (Reis, 1993).
[3] Não consta da bibliografia apresentada pela Autora
[4] A autora agradece à professora Maria Lúcia Montes (Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo) por essas sugestivas idéias sobre as distintas propostas negras de participação social subjacentes às duas modalidades de capoeira.
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