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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS
  02/05/2005
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Capoeira no Maranhão - Parte II
Segunda parte do artigo "Capoeira no Maranhão", de autoria do Professor Leopoldo Vaz
Capoeira no Maranhão  -  Parte II

Capoeira no Maranhão  -  Parte II

AFINAL, O QUE É CAPOEIRAGEM?

Leopoldo Vaz

 

Nota do Editor:

            Temos agora no Vaticano, Itália, um Papa alemão.  Assim como, guardando as proporções, um belo dia  poderemos ter grandes mestres alemães de capoeira  comandando a capoeira mundial. Senão alemão, de outro país qualquer, inclusive, certamente, do nosso querido Brasil.  Cada vez mais, o Mundo transforma-se numa Aldeia Global, numa Grande Roda de Capoeira, onde, cada vez menos, caberá visão tacanha, dogmatismos, fanatismos, regionalismos, mercantilismos ou versões fantasiosas sobre as origens e a saga da Capoeiragem.

            Chegou a hora, portanto, de resgatar a História da Capoeira por completo.

            Assim pensando, começamos  publicar, com excelente retorno de sugestões e críticas construtivas, , artigos históricos, clássicos, da literatura da Capoeira.  Na mesma linha editorial estamos interessados em publicar todo e qualquer trabalho, bem fundamentado,  que contribua para  trazer à tona, finalmente, mestres e episódios da Capoeira no Brasil ocorridos e ocorrendo em vários estados, que não contem com a merecida divulgação. Citaria três bons exemplos: 1. As experiências  realísticas com a Capoeira-Luta, a Capoeira na sua faceta marcial, como o Grupo Muzenza vem realizando (recomendo leitura da matéria publicada na Revista Tatame abril); 2. As pesquisas do grupo de mestres-pesquisadores de Floripa (Santa Catarina); e 3. Os estudos, pesquisas e projetos que o Maranhão vem realizando.

            Já publicamos a primeira parte do interessante estudo que está sendo realizado sob a coordenação do Professor Leopoldo Vaz (Capoeira no Maranhão), já publicamos, também, o oportuno artigo de autoria de Mestre Eli Pimenta - "A Capoeira em São Luiz do Maranhão".   No jornal desta semana, estamos publicando a segunda parte do estudo do Mestre Leopoldo -  Afinal o que é Capoeiragem?

            Estudo que, para efeito de publicação neste Jornal, foi dividido em cinco partes.  No próximo número estaremos publicando a terceira parte, tão preciosa quanto esta que ora oferecemos a todos vocês. Valendo adiantar que, a partir da quarta parte estaremos começando a publicar as bases do exemplar trabalho que  está sendo elaborado sob a coordenação do Mestre Leopoldo Vaz:  "Livro-Álbum dos Mestres de Capoeira no Maranhão".  Todos os mestres e pesquisadores locais estão sendo entrevistados e cadastrados - uma experiência pioneira e mais do que oportuna - pelos  alunos, como já adiantamos,  da Disciplina Dimensões Históricas da Educação Física e dos Esportes, Curso Seqüencial de Educação Física Escolar, da Universidade Estadual do Maranhão, Turma "C":   Allyson Ricardo Dias Nunes;  Raimunda Lourença Correa;  Hirlon Pires Braga;  Erodax Rocha Caldas Filho Jaqueline Pinheiro Marinho Dutra;  Pedro Henrique Silva De Brito;  Priscila Souza Alves Pereira;   Henrique de Jesus Sousa Diniz;   José Lindberg A. Melo,  Cláudio José Reis Brito;   Alexsandro Aurélio Serra;   Conrado Fernandes Cavalcante Neto;   Fábio Luiz B. Silva;   Josué Paiva Gomes;   Wagner Almeida Berrêdo ;   Witaçuci Khlewdyson Reis Bezerra;   Maria do Socorro Viana Rego,  Jonatha de Abreu Souza;  José César Sousa Freire;   Antonio Gilson de Sousa Silva ;  Luiz Carlos Silva Albuquerque;  Alzira Dias da Silva;  Alan Carlos Gomes Ribeiro;  Conrado Fernandes C. Neto;  Hermílio Armando Viana Nina,  Ismênia de Abreu Mendes ;  Mayara Mendes de Azevedo.   Já temos em mãos as "fichas" de mais de quinze mestres, contramestres e pesquisadores, dos mais antigos aos mais jovens: Mestres Sapo, Patinho, Nelsinho, Fred, Marco Aurélio e Bamba e vários outros. Pouco a pouco esse Jornal irá publicando a "ficha técnica" de cada um.

Vale repetir, trata-se de um excelente exemplo que, seguramente, será seguido por todos demais estados brasileiros, especialmente aqueles onde a Capoeiragem é mais intensamente praticada.

 

Miltinho Astronauta

 

 

 

AFINAL, O QUE É CAPOEIRAGEM?

 

Segunda parte do trabalho "Capoeira no Maranhão"

de autoria do Professor  LEOPOLDO GIL DULCIO VAZ

e Alunos do Curso Seqüencial de Educação Física - Turma C,

da Universidade Estadual do Maranhão - UEMA

 

            De acordo com seu Regulamento Internacional [1], a "Capoeira" passa a ser reconhecida internacionalmente como um:

"... Desporto de Criação Nacional, surgido no Brasil e como tal integrante do patrimônio cultural do povo brasileiro, legado histórico de sua formação e colonização, fruto do encontro das culturas indígena, portuguesa e africana, devendo ser protegida e incentivada":

 

A existência da capoeira parece remontar aos quilombos brasileiros da época colonial, quando os escravos fugitivos, para se defenderem, fazem do próprio corpo uma arma. Não há indicações seguras de que a capoeira, tal qual a conhecemos hoje no Brasil, tenha se desenvolvido em qualquer outra parte do mundo (REIS, 2005)[2]:

"Como não existem pesquisa históricas a respeito da capoeira para os séculos XVI a XVIII, não é possível reconstruirmos o processo que levou ao deslocamento da capoeira do campo à cidade, o que deve ter ocorrido por volta do começo do século XIX, posto que datam desse período as primeiras referências históricas (até agora conhecidas) referentes aos capoeiras urbanos". (REIS, 2005). 

 

Ainda de acordo com seu Regulamento Internacional, a Capoeira por sua inserção no processo histórico da nação portuguesa no período colonial brasileiro, bem como por haver recebido da mesma suas influências culturais, também faz parte reconhecidamente do acervo cultural do povo português. Mais, em virtude da Capoeira ser concebida no Brasil passa a ser considerada também como um patrimônio cultural dos povos da América e da humanidade.

E ainda, em virtude dos dispostos em seu Regulamento, a Capoeira é reconhecida internacionalmente como:

A- Desporto Cultural;

B- Desporto de Identidade;

C- Desporto Tradicional. 

 

Por isto, considera-se como prática do desporto formal da Capoeira sua manifestação cultural sistematizada na relação ensino-aprendizagem, havendo um ou mais docentes e um corpo discente, onde se estabelece um sistema de graduação de alunos e daqueles que ministram o ensino, havendo uma identificação indumentária por uniformes e símbolos visuais, independentemente do recinto onde se encontrarem.

Assim, considera-se como pratica desportiva não-formal da Capoeira sua manifestação cultural, sem qualquer uma das configurações estabelecidas pelo anteriormente, e que seja praticada em recinto aberto, eminentemente por lazer, o que caracterizará a liberdade lúdica de seus praticantes.

Aquele documento ainda estabeleceu em seu art. 17 a Nomenclatura de Movimentos de Capoeira, estabelecida em duas partes:

A- Nomenclatura Histórica - colhida a partir da pesquisa nas obras dos primeiros autores a escreverem sobre a Capoeira, a saber: Plácido de Abreu, Coelho Neto e Annibal Burlamaqui (Zuma). A mesma poderá ser ampliada em função da evolução das pesquisas científicas.

 

B- Nomenclatura Oficial - estabelecida com base nos referenciais obtidos pelos trabalhos de Manuel dos Reis Machado (Ms. Bimba), fundador da segunda Escola Técnica de Educação Física no Brasil e por Vicente Ferreira Pastinha (Ms. Pastinha), fundador do primeiro Centro Esportivo de Capoeira, entendendo como única a Capoeira, porém considerando-se distintos seus os padrões de jogo advindos do emprego dos ritmos do berimbau em cada um dos legados que nos foram deixados como herança cultural.

 

            Quanto ao termo "Capoeiragem", o Mestre André Lace assim se manifesta: (a) Capoeira seria uma luta dramatizada;

(b) a Capoeiragem é uma luta dramática (in Atlas do Esporte no Brasil, 2005, p. 386-388) [3].

            Ambas podem se confundir, mas esta (Capoeiragem) refere-se mais à luta de rua; aquela (Capoeira) é mais utilizada para rotular o ensino e a prática do jogo com acompanhamento musical (cantoria e ritmo; berimbau, pandeiro, caxixi, reco-reco, agogô, atabaque); esta, uma espécie de briga abrasileirada de rua, em desuso, na qual batiam-se palmas e cantavam versos curtos (samba duro, pernada carioca, etc.).    

            Para esse Autor, a Capoeiragem "nasceu em berço africano", não com esse nome, certamente, e tampouco com suas formas atuais. Serve-se do perfil étnico predominante dos capoeiras brasileiros do passado para essa assertiva, pois não se sabe onde tenha aportado, primeiro. Mas uma e outra - Capoeira e Capoeiragem - têm mais predominância na Bahia - aquela - e no Rio de Janeiro - esta. 

            É a Bahia o grande celeiro de mestres da Capoeira mais tradicional chamada de "Angola" - dança-luta -, embora praticada em outros estados, inclusive no Rio de Janeiro. A Capoeira Angola, também luta, envolveria e envolve outros componentes fascinantes, mas no dizer de Lace Lopes, "fora do presente contexto de luta pura". Já a Capoeiragem, ou seja, a capoeira-luta, a capoeira briga-de-rua, concentrou-se no Rio de Janeiro.

            Sobre a origem da Capoeira, há uma tendência dominante entre pesquisadores e antropólogos em considerar que surgiu no Brasil, fruto do processo de aculturação ocorrido entre africanos, indígenas e português (Vieira, 2005, p. 39-40) [4].

            Ainda seguindo esse autor, em seu processo histórico apresenta três eixos fundamentais: Capoeira Desportiva. Capoeira Regional e Capoeira Angola.   

            Capoeira, em termos esportivos, refere-se a

"... um jogo de destreza corporal, com uso de pernas, braços e cabeça, praticado em duplas, baseado em ataques, esquivas e insinuações, ao som de cânticos e instrumentos musicais (berimbau, atabaque, agogô e reco-reco). Enfocado em sua origem como dança-luta acabou gerando desdobramentos e possibilidades de emprego como: ginásticas, dança, esporte, arte marcial, folclore, recreação e teatro, caracterizando-se, de modo geral, como uma atividade lúdica". (VIEIRA, 2005, p. 39-40).

 

 

Nota do Editor:  Fim da Segunda Parte. No próximo número do Jornal do Capoeira, estaremos apresentando a Terceira Parte - Capoeira: Angola ou Regional? - deste interessante estudo do Professor Leopoldo Vaz.

 

 


[1] Aprovados em Assembléia Geral de fundação da Federação Internacional de Capoeira - FICA - ocorrida por ocasião do I Congresso Técnico Internacional de Capoeira, realizado nos dias 03, 04, 05 e 06 de junho de 1999 na Cidade de São Paulo, SP, Brasil, revisados na Assembléia Geral Extraordinária ocorrida na Cidade de Lisboa, Portugal, em 02 de julho de 2001 e pelo II Congresso Técnico Internacional de Capoeira, realizado na Cidade de Vitória, ES, Brasil, nos dias 15, 16 e 17 de novembro de 2001.

[2] REIS, Letícia Vidor de Sousa. Capoeira, Corpo e História. In JORNAL DA CAPOEIRA, disponível em www.capoeira.jex.com.br, capturado em 14 de abril de 2005, artigo com base na dissertação de mestrado "Negros e brancos no jogo de capoeira: a reinvenção da tradição" (Reis, 1993).

 

[3] LACÉ LOPES, André. Capoeiragem.in PEREIRA DA COSTA, Lamartine (org.). ATLAS DE ESPORTES NO BRASIL. Rio de Janeiro : Shape, 2005, p. 386-388.

[4] VIEIRA, Sérgio Luiz de Souza. Capoeira. in PEREIRA DA COSTA, Lamartine (org.). ATLAS DE ESPORTES NO BRASIL. Rio de Janeiro : Shape, 2005, p. 39-40.




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