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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS

  11/12/2005
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Capoeira Para Turista: O Espetáculo na Rua

Nesta crônica o autor, o prof. Acúrsio Esteves, analisa a capoeira enquanto espetáculo de rua

Capoeira Para Turista: O Espetáculo na Rua E

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br

Edição 53 - de 11/dez a 17/dez de 2005

 

Profº Acúrsio Esteves *

Dezembro de 2005

Salvador, BA

A história do aparecimento da capoeira show começa a ganhar consistência justamente no período em que o turismo cultural ganha força nas ruas de Salvador.  Os grupos de capoeira começaram a ir para os pontos de grande fluxo turístico como Mercado Modelo, Pelourinho, Terreiro de Jesus dentre outros, fazendo suas rodas de rua ao estilo do início do século XX. Porém, estas apresentações não eram realizadas com a abordagem lúdica ou de confronto que caracterizou esse período, mas sim dentro de uma perspectiva mercadológica, se transformando em um negócio, onde ela é reconhecida como produto e assim deva ser gerenciada para agradar ao cliente. Daí vem a introdução de elementos alienígenas a guisa de diferencial para agradar o público e não ficar "monótono",  como roupas coloridas, acrobacias, seqüência de golpes coordenados, "jogo armado", saltos mortais, paradas (posições espetaculares para fotos), "disputa" para pegar dinheiro no chão com a boca, instrumentos não característicos, dentre outros ardis para variar o espetáculo e garantir o "vil metal".

A capoeira tornou-se então um recurso turístico de larguíssima aceitação e cada vez mais universal; agora considerada atração, logo espetáculo, estando assim despida de todo o seu simbolismo, isto é, transformada em mero produto.

Compreendendo as suas transformações e as várias formas que assume diante de uma sociedade preconceituosa, afirmo, com base na observação sistemática do fenômeno, que os praticantes da capoeira espetáculo têm contribuído historicamente para a defesa dos interesses das classes dominantes, mantendo o seu status quo.

O contacto que sempre tivemos com o folclore e a cultura popular, como expectador e brincante desde criança, mais tarde, pesquisador e estudioso, há oito anos professor de cursos de Turismo e há vinte e sete anos da rede particular, municipal e estadual de primeiro e segundo graus, chamou-me a atenção para aspectos importantes na evolução das manifestações populares. Sobretudo no que diz respeito à mudança de formas de apresentação com o passar do tempo, tanto entre localidades diferentes, quanto nas já existentes.

Compreender tais fenômenos e suas particularidades é de fundamental importância para dimensionar a dinâmica da capoeira e suas relações com as demais manifestações populares. Ela sempre nos chamou a atenção pela sua beleza coreográfica, musicalidade e história, ícone da cultura baiana e patrimônio do povo brasileiro.

            As modificações na sua forma sempre foram motivadas por fatores sócio-político-econômicos e pessoais. Para entender sua trajetória, é necessário compreender essas mudanças, que caminharam  da marginalidade à atração turística, das senzalas à universidade, do Brasil ao mundo, do lazer ao negócio. É preciso ainda entender suas nuances e avaliar a existência de uma preocupante forma de seu relacionamento com o mercado consumidor, que a trata como  espetáculo ou show.

A capoeira de alto(s) rendimento(s), a capoeira espetáculo, a capoeira turismo, têm por base a economia capitalistíca e só sobreviverá com base nela e, como ela, expressa suas avassaladoras conseqüências. A capoeira com esta base é nociva ao meio ambiente, a classe trabalhadora porque, com esta base, não se assegura o processo revolucionário. (TAFFAREL, 2004)

Hoje já é possível comprar por cinco, dez centavos, ou se ter até de graça, algumas "queixadas", "aus" ou "armadas" que são vendidas por crianças carentes nas sinaleiras de Salvador. Em busca da inclusão social, essas crianças fazem exibição de capoeira no asfalto para os ocupantes de veículos, quando deveriam estar na escola.

Compreendendo o processo e as implicações sócio-econômico-culturais deste "segmento de mercado", teremos melhor condição de interferir para tentar acabar com o aspecto negativo que o turismo mal gerenciado causou à capoeira. Podemos combatê-lo através de denúncias em encontros, publicações em meios de comunicação de massa, seminários públicos envolvendo universidades e setores políticos comprometidos realmente com a produção cultural popular, dentre outras formas de ação. Estas ações quando sistematizadas contribuirão para minimizar o impacto negativo imposto pelo Turismo mal gerido, beneficiando a própria capoeira e os que sobrevivem da sua exploração turística e não têm consciência do risco que isto representa para a própria existência desta atividade como fator de sua subsistência.

As performances esportivas estão sendo constantemente reelaboradas e adaptadas às características estruturais exigidas pela mídia com o intuito específico de atender aos seus interesses financeiros. Nesta perspectiva, o esporte vem sofrendo transformações estruturais incluindo-se neste "pacote" até mudanças das suas regras oficiais

Para melhor entendimento do fenômeno que tenta, de todas as formas, fazer da vadiação algo mais comercial, estabeleceremos um paralelo entre sua colocação no mercado e a situação do voleibol.

Há alguns anos, as redes de televisão tinham dificuldades em transmitir as partidas de voleibol devido a forma como este esporte era disputado (por suas regras). Como não havia tempo determinado para a duração da partida, não era fácil calcular o valor do patrocínio para sua transmissão. Por esta razão, para que fosse possível estipular o valor do patrocínio, possibilitando a exibição do esporte pelas emissoras de TV, foi necessário mudar as regras do jogo, tornando as partidas mais rápidas.  

A capoeira ainda não está incluída no cardápio dos shows esportivos televisados, mas isto pode acontecer a qualquer momento. E aí? Vamos ter reproduzida, em maior escala, a capoeira espetáculo, na qual os "trapezistas" e "contorcionistas" de plantão (sem nenhuma conotação depreciativa aos artistas do picadeiro) exibirão seus corpos "malhados" e suados, legítimos representantes da "geração saúde", como hoje exige o atual modelo da sociedade de consumo, sem espaços para longas ladainhas, chamadas de angola, dentre outros ritos e tradições pertencentes a este universo.

Enquanto ela ainda não é atração de televisão, o Turismo a expõe impondo as regras para sua exibição a fim de adequá-la aos objetivos da  sociedade do espetáculo. O pior é que esta é a imagem que fica legitimada para milhares de turistas que nos visitam e assistem aos bem produzidos vídeos espalhados mundialmente com aval dos órgãos oficiais de Turismo. Estes alegam  estar  "reconhecendo o  valor da capoeira e divulgando-a internacionalmente". Reflitamos: A capoeira é o homem, o cidadão comum; sua organização é incipiente se comparada a de um esporte olímpico como o vôlei, portanto muito mais vulnerável que este às investidas do grande capital.

É através das fissuras desta vulnerabilidade que os modismos chegam a galope, como facilmente podemos notar nos pontos turísticos, restaurantes, casas de shows e similares, onde ela apresenta um perfil bem parecido com o dos esportes de competição, nos quais prevalecem a agilidade, velocidade e desempenho técnico em detrimento das origens, das raízes. "Quanto aos saltos mirabolantes, os agarrões a as agressões citadas anteriormente, em que prevalece a força física, utilizada por alguns capoeiristas desavisados ou com más intenções, posso garantir que não pertencem nem a Capoeira Angola nem a Capoeira Regional". (BOLA SETE, 1989)

Acúrsio Esteves, Salvador, Bahia


* O professor e pesquisador Acúrsio Esteves, é formado em Educação Física pela UCSal, com mestrado em Gestão de Organizações UNIBAHIA/UNEB e é professor da Secretaria Municipal de Educação de Salvador. Leciona também nas Faculdades Jorge Amado e Fundação Visconde de Cairu, respectivamente nos cursos de Educação Física e Turismo, sendo também autor dos livros Pedagogia do Brincar e A "Capoeira" da Indústria do Entretenimento, de onde foi retirado este fragmento de capítulo.

    Contactos: (71) 3233-9255 / 9946-4743 - acursio@oi.com.br

 

**  Foto por Gustavo Esteves, setembro de 2004.

 

Citação: TAFFAREL, Celi Zulke. Capoeira e Projeto Histórico. Santa Catarina: Universidade Federal de Santa Catarina - VI Simpósio Nacional Universitário de Capoeira, 2004.Disponível em: http://www.faced.ufba.br. Acessado em 05/11/2005.
 




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