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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS
  04/09/2005
  1 comentário(s)


Capoeira :: VALE TUDO, MESTRE HULK E A TGA
Crônica de Mestre André Luiz Lacé Lopes sobre Vale Tudo, Capoeira e Mestre Hulk, com algumas considerações sobre a Teoria Geral da Administração na Capoeira.
Capoeira :: VALE TUDO, MESTRE HULK E A TGA Jornal do Capoeira www

Jornal do Capoeira www.capoeira.jex.com.br

Edição 46: 05 à 11 de Setembro de 2005

 

Nota do Editor:

 

            Na edição passada do Jornal do Capoeira abrimos espaço para debater de forma franca e aberta sobre a Capoeira enquanto Luta (de verdade!). Não estamos com isto defendendo-a enquanto tal, tampouco incentivando sua prática estritamente como luta. Todavia, o que se percebe nos dias atuais é, de certa forma, uma ingenuidade de que a Capoeira é luta braba, que se dois capoeiras entrarem em combate um deles "passa para o andar de cima" e por aí vai. A própria história da Capoeira é repleta fantasias, não sendo tão ingênuas, em alguns casos, pois trata-se, a bem da verdade, de estratégia de marketing para vender no exterior o que, no passado, foi vendido no Brasil com produto de primeira qualidade.

            Hoje podemos despirmo-nos de tais vestes fantasiosas e seguir para um campo mais franco e sincero. É o que temos proposto em nosso modesto jornal.E isto vale não somente para o tema Capoeira Luta, como também para outros temas nucleares que, aos poucos, estaremos abordando.

            Para complementar a série iniciada na semana passada, publicamos nesta edição mais um artigo de Mestre André Lacé - Mestre de Capoeira estilo Sinhozinho, Jornalista e Mestre em Administração-, falando sobre Mestre Hulk, fazendo um com Vale Tudo e a Teoria Geral da Administração (TGA), sendo que este último é, sem dúvida, um dos terrenos mais pantanosos para nossa Capoeira.

 

                        Miltinho Astronauta

 


 

O   VALE TUDO,    MESTRE HULK   E   A   TGA

 

André Luiz Lacé Lopes

       RIO, 21 de dezembro de l995

 

                     Pela televisão, tenho acompanhado o Ultimate Fighting Championship nos Estados Unidos. Onde o Brasil está revolucionando o conceito norte-americano de super-homem. Inicialmente através do clã dos Gracie (Royce!), e, em função da sétima etapa do evento (UFC), através de Marcos Ruas, um desassombrado representante da luta livre.  Pois, às duras penas, os norte-americanos estão descobrindo que o super-homem, o gigante do primeiro mundo, tem, também,  que saber lutar no chão, tem que saber - e muito bem - a arte do jiu-jitsu e do vale-tudo à la brasileira. Senão, nada feito.  Sem  dúvida, uma revolução, inclusive, em termos sócio-culturais. Com base no crescente sucesso do Ultimate Fighting nos Estados Unidos, surgiu a idéia de realizar um confronto similar aqui no Brasil. Haveria uma fase nacional, onde seria selecionado o lutador que representaria o Brasil na fase internacional. Excelente idéia, tinha tudo para dar certo.

              E realmente, a fase nacional transcorreu muito bem, surgindo como campeão brasileiro de vale-tudo - para total surpresa e perplexidade do pessoal do jiu-jitsu e, salvo engano, dos próprios organizadores do evento - um lutador de capoeira: Sidney Gonçalves Freitas, o Mestre Hulk !

               Na fase internacional, entretanto, os problemas bateram fortes e levaram os organizadores à lona. Faltou dinheiro, o torneio foi interrompido e, salvo engano, passado mais de um mês, algumas dívidas ainda não foram honradas.     Mas, não tenham dúvida, a idéia é muito boa e acabará prosperando aqui no Brasil.

              Assim considerando, animo-me a fazer uma rápida apreciação crítica do que testemunhei no Maracanãzinho, tendo, como pano de fundo, até por cacoete de profissão,  a Teoria Geral da Administração.

              Cheguei às 16 horas, uma hora antes da hora marcada para começar o espetáculo. O acesso ao ginásio foi liberado, exatamente, às 17 horas. O espetáculo só foi começar, debaixo de vaia, três horas depois. Mesmo assim, o Maracanãzinho apenas contava com pouco mais de 10% da sua lotação.  Valendo registrar que, destes 10% , mais da metade era composta por capoeiristas especialmente interessados na terceira luta, onde o campeão brasileiro de vale-tudo, Mestre Hulk,  enfrentaria um lutador japonês (Naoyuki Taira). Pelo menos, isto é o que tinha sido anunciado pelos jornais.  

             Os "organizadores", simplesmente, ignoraram todos subsídios e instrumentais fornecidos pelas diversas escolas da TGA, da escola clássica (tempos/movimentos, respeito às regras e regulamentos...) à escola sistêmico-contingencial (variáveis exógenas...), passando pela escola das relações humanas (tratamento mais humano para o Hulk...), comportamentalistas (importância da cultura popular brasileira...) etc. Ignoraram, sobretudo, as quatro grandes funções de toda ação empresarial: planejamento, organização, direção e controle.

            O primeiro grande erro, na área sócio-cultural (o que inclui um grande erro de marketing), foi, justamente, o de ignorar a importância de uma homenagem à cultura popular brasileira. Por exemplo, convidando, de modo muito especial, os principais mestres de capoeira da cidade e até do Brasil para assistirem todas as lutas. Mestres,  como Artur Emídio de Oliveira, um dos poucos capoeiristas que ousou aceitar, décadas atrás,  confrontos com outras lutas poderia quadruplicar o número (surpreendentemente baixo) de expectadores pagantes.

             Salvo engano (dos jornais), o adversário inicial de Hulk, o japonês Taira,   por suas características físicas e técnicas propiciaria  um confronto mais equilibrado. A mudança, aparentemente repentina e casuística, do  japonês pelo canadense Jean Rivierre   prejudicou o próprio espetáculo.

          O atraso de três horas poderia muito bem ter sido minimizado se os organizadores tivessem programado, como preliminar do espetáculo, uma RODA DE CAPOEIRA. Da mesma forma que a seleção  de música  (terrível e ensurdecedora), feita pelo pessoal do som,  poderia ter incluído a fascinante parte rítmica e cantada da capoeira. Para não falar das músicas sobre o tema feitas por Vinicius de Moraes & Baden Powell, Paulinho da Viola (Vela no Breu...), Gilberto Gil, Candeias (O Batuqueiro...), Martinho da Vila (No cais dourado...), conjunto MPB-4 e tantos outros.

 

"Quem é homem de bem não trai o amor que ele quer a seu bem

quem diz muito que vai não vai e assim como não vai não vem

quem de dentro de si não sai vai morrer sem amar ninguém

o dinheiro de quem não dá é o trabalho  de quem não tem

capoeira que  é bom não cai e se um dia ele cai,  cai bem

 

Capoeira me mandou dizer que já chegou - chegou para lutar

Berimbau me confirmou vai  ter briga de amor -  tristeza, camará"

 

Obs.  Considero esta música, de Vinicius e Baden, juntamente com a "Yaya do Cais dourado", de Martinho da  Vila e Rodolfo, as duas composições mais representativas da Capoeiragem e da sociedade brasileira. "Cada qual no seu cada qual"  - como diria Caiçara - cada uma dentro do seu momento sócio-cultural brasileiro.  

 

           Afinal, como pude ouvir, tempos atrás, do exemplar e saudoso Carlos Gracie (fui à sua casa levado pelo Prof. Robson Gracie), o jiu-jitsu é mais do que uma arte marcial, é uma lição de vida. O que certamente nos leva a uma visão que extrapola  a  limitações de um ringue.

            Mas, em que pese todos desacertos, relevem a repetição, não tenho dúvida que a iniciativa (Vale Tudo no Brasil), apesar de abortada,  foi válida, foi corajosa e está apenas começando.    Para os próximos eventos, que certamente virão,  desde já, lanço a idéia de se reservar sempre uma (ou mais) vaga para a Capoeira.  Ou até mais do que isto, que seja realizado, como preliminar da fase nacional do próximo vale-tudo, uma pré-seleção entre os capoeiras-lutadores interessados. Afinal, trata-se da "luta nacional brasileira", muito embora, há que se reconhecer, para se impor como arte marcial vai precisar que outros, muitos outros capoeiristas lutadores tenham a coragem (não é fácil) que teve um Artur Emídio de Oliveira no passado e que está tendo agora o Sr. Sidney Gonçalves.  Daí o grande alcance de uma seleção preliminar com vistas a selecionar um capoeira-lutador para a primeira fase, brasileira, do próximo torneio de vale-tudo.

          Se isto for feito, não tenho dúvida, o Maracanãnzinho vai superlotar, talvez até garanta uma receita que possa tranqüilizar os organizadores em relação às custas da fase internacional...

           O grande mérito desta alternativa, entretanto, será permitir a boa parte dos atuais mestres de capoeira refletirem melhor sobre o real potencial da Capoeira como arte marcial. Pois, sem  dúvida alguma, existe uma razoável dose de fantasia guerreira em algumas rodas de capoeira.  A capoeira, não tenham dúvida, sobreviverá a este laboratório, saindo dele mais autêntica e fascinante.  Em termos práticos, técnicos, táticos e, sobretudo, em termos institucionais, onde urge um fortalecimento.

           Não fosse o seu prestígio pessoal, sua família, seus amigos, seus alunos, representantes da instituição municipal onde trabalha, Mestre Hulk teria ficado sozinho no Hospital Souza Aguiar, para onde foi levado, após uma luta inicial, improvisada e infeliz, com o canadense Jean Rivierre.  Estive lá (hospital)  e senti a falta de uma ação institucional objetiva e eficaz.       Por exemplo, um representante do Ministério Extraordinário de Esportes, ou do Ministério da Educação ou até da Cultura (por que não?).

            Em suma, enquanto nos Estados Unidos, Mestre João Grande recebe, de uma faculdade,  o titulo de doctor of  humane letters, e,   do Governo, um cobiçado "green-card" como Mestre de Capoeira Angola, aqui no Brasil, a verdadeira capoeira continua sendo tratada como fenômeno sócio-cultural de segunda classe.

 

                    André Luiz Lacé Lopes

 

Do Livro "A Volta do Mundo da Capoeira", de André Lacé. Com base no artigo publicado no Jornal dos Sports, Rio (21, Dez. l995) .

 




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