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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS
  08/01/2006
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CAPOEIRAGEM 2006
Crônica de boas vindas à 2006 e à nosso Jornal do Capoeira, no qual o autor - André Lacé - faz breve prognóstico para o ano sócio-capoeirístico que se inicia.
CAPOEIRAGEM 2006 Coquinho Baiano

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br

Edição 55 - de 8/Jan a 14/dez de 2006

 

André Luiz Lacé Lopes

Leblon, Janeiro-2006

- Parte I  -

A esta altura todos mestres de capoeira, pelo mundo afora, já fizeram um balanço geral de 2005. Sabem, agora, o que fizeram de positivo  e de negativo na Capoeira e na Vida, neste ano que acaba de passar. Ninguém escapa deste  "juízo final anual"

E já devem ter feito, pelo menos, algumas previsões para 2006.

            Ano que, no Brasil, será eleitoral, época em que tradicionalmente a Capoeira é lembrada e utilizada. Não faltará plataforma eleitoral falando da importância da cultura popular, não faltará candidato presidencial correndo os estados e elogiando o "folclore" de cada região e, sobretudo, cooptando as lideranças deste folclore. Quantos mestres de capoeira não foram cooptados ao longo da História do Brasil?

Teremos em 2006 o tradicional festival de promessas, "com todos pobres tendo, finalmente, sua casa própria, emprego, transporte subsidiado e saúde pública sem fila e com bom atendimento". Estradas e ruas serão rapidamente asfaltadas, com uma camada fina de asfalto, para poder durar até as eleições. Um dinheiro mágico aparecerá, como sempre aparece, para patrocinar milionárias e espetaculares campanhas de marketing.

Tudo será explicado, os candidatos à reeleição explicarão com voz bem impostada a razão pela qual eles nada ou pouco fizeram pelo Povo, os candidatos de primeira viagem, mais à vontade, jurarão que são incorruptíveis e possuem a fórmula mágica do desenvolvimento social pleno, com justiça e prosperidade para todos.

E, mais uma vez, os capoeiras serão contratados para tocar berimbau nos comícios e dar pulos circenses.  Especialmente aqueles que vivem às custas do dinheiro público, com projetos de "inclusão social" especializados em  "exclusão social".

Vários grandes eventos locais e internacionais serão promovidos, quase todos com fins eleitoreiros. É sempre assim. Com alguns grupos e tribos de capoeiras  aproveitando para fazer seu próprio marketing de sobrevivência e alimentar a própria vaidade. 

A situação no exterior não é diferente,  com  a maioria dos mestres e grupos de capoeira vivendo às custas de verbas públicas ou às custas de alguma outra profissão. Claro, uns poucos vivem realmente de dar aulas aqui e ali, reforçando a receita com shows,  oficinas  fanatizadas, indústria de trocas de cordéis,  comércio de uniformes aburguesados e equipamentos de capoeira. Pouquíssimos têm sede própria. Urge, aliás, um levantamento mais preciso sobre este quadro sócio-econômico-capoeirístico.

  Receitas, diga-se de passagem, que na grande maioria dos casos,  não sustentam um lar de verdade, especialmente se o capoeira já constituiu família ou quando o jovem mestre começa a envelhecer.

Esta sina será a sina eterna do Capoeira?

Ou um dia teremos uma lei milagrosa que abrirá um mercado mágico de trabalho muito bem remunerado para todo e qualquer mestre?

Nem uma coisa nem outra entendo eu. E, através de livros e centenas de artigos e palestras tenho deixado muito clara esta minha posição, sempre propondo caminhos alternativos.

Para começar, defendo que a capoeira tem mecanismo natural de autopreservação. Por mais que seja ameaçada, portanto, acaba ressurgindo ainda mais forte e mandingueira. E acho que está na hora de mais um "sacode" desse tipo. Afinal, já temos mais de três décadas de marketing desnecessariamente fantasioso, feito por uma capoeira contemporânea de passado confuso, duvidoso e polêmico, dizendo-se luta eficaz, mas se apresentando sempre em palcos, dizendo-se Negra, mas cada vez mais embranquecida.. Em suma, uma "capoeira" que, no fundo, não é barro nem tijolo, não é luta nem é jogo, não é esporte nem folclore. Várias outras capoeiras, especialmente a chamada Capoeira Angola, por causa das investidas dessa falsa capoeira,  andaram passando maus pedaços.  Quase sucumbiram por força de marketing criminoso que apresentava essa capoeira contemporânea (?) como a capoeira  melhor do mundo, completa, perfeita em toda linha, na parte rítmica e cantada, no ritual, na autenticidade, no fundamento, no ritual, na dinâmica da roda, na mandinga e, sobretudo, na eficácia (sic). O que será eficácia neste caso? Jogar mais rápido, mas sem sentido algum, em um jogo onde as defesas feitas não guardam nenhuma lógica com o respectivo ataque?  Um jogo cheio de pinote alucinado pretendendo ter algum sentido marcial? Cantigas alienadas e alienantes?

Bueno, essa época, felizmente, entendo eu, está sendo superada e 2006 pode muito bem ser o ano do Pulo Qualitativo da Verdadeira Capoeira.

Já existem alguns indícios extremamente positivos e incontestáveis demonstrando esta boa tendência. Para começar boa parte das lideranças já amadureceu suficiente-mente para entender que o exercício do Contraditório é sempre benéfico, além do que o mestre de capoeira não é um ser, por definição, acima de qualquer suspeita. Nem todo mestre de capoeira, por exemplo,  que viaja para o exterior, é realmente mestre na expressão mais completa da palavra. Nem todos são "verdadeiros diplomatas da cultura brasileira". Como afirmei anteriormente, urge discutir mais profundamente tais assuntos.

Nesta semana e na semana que passou, não por coincidência, testemunhei alguns desses  bons sinais de amadurecimento.

 O primeiro foi há dez minutos daqui de casa, no Leblon, no começo do Jardim de Alá, quase na Lagoa, bem perto da impressionante e monumental árvore de natal itinerante que passeia pelas águas (merece visita).  Mestre Chaminé, que conheci em Paris, há longos anos atrás (deu uma volta do mundo antológica com o hoje  falecido  Mestre Luizão, do  Grupo Engenho da Rainha), promoveu uma Roda especialmente para homenagear seu bom aluno Guilherme (foto). 

 

 

 

Até aí nada demais dentro do mundo da Capoeiragem, ocorre, entretanto, que presentes nessa roda estavam  dois mestres - Marujo e Neco - representando um grupo de mais de trinta mestres que, há 3 anos estão se reunindo  para jogar e refletir sobre a Capoeira. Sem vedetismo, sem culto à personalidade, sem estrelismo, sem versões fantasiosas, sem adoração de mitos e dogmas, nada disso, apenas jogando e discutindo Capoeira de verdade.

Entendem e defendem eles, como eu defendo também, que existem apenas dois tipos de Capoeira: a Capoeira Boa e a Capoeira Ruim.

Entendem, também, que alguns "mestres" da chamada capoeira contemporânea, aparentemente muito valentes, que só entram nas rodas para "trocar"  e "finalizar", no fundo, estão "finalizando" é a própria Capoeira.

Nenhum desses - sempre lembro em meus artigos -  ficariam mais de 10 segundos em pé frente a lutador do mesmo tope de qualquer outra luta. Mas, quando pegam uma parada fácil, alguém menos forte, ou uma menina, aí sim, viram feras invencíveis.

Será esse o caminho, o futuro da Capoeira?

Mestre Neco, como sempre, fez seu discurso, mas, para minha surpresa, está agora bem mais moderado, bem mais fundamentado, despido de mitos e dogmas, apenas um soldado, um bom soldado da verdadeira capoeira. Para mestres assim, tiro o chapéu.

Outro fator extremamente positivo  é o Jornal do Capoeira, editado pelo Sr. Milton  Cezar (Miltinho Astronauta), em São José dos Campos, São Paulo. Jornal que está virando leitura obrigatória dentro do Mundo de Capoeira, preenchendo lacuna grave no processo de comunicação entre os capoeiristas.  Segundo seu Editor, a partir de 2006 o Jornal virá ainda melhor, transformando-se definitivamente no maior veículo de informação e reflexão sobre capoeiragem. Mas, tivesse eu que destacar o que poderia ser considerado o maior mérito do Jornal do Capoeira no ano de 2005, eu não hesitaria em apontar as notícias e as sugestões para a agenda de discussões de toda e qualquer reunião teórica de Capoeira (seminário,  oficina, fórum, congresso etc).  De tanto pesquisar, participar e noticiar esses eventos Miltinho Astronauta acabou percebendo os pontos verdadeiramente nucleares de discussão. Isso evitará que continue ocorrer o que vem, há décadas ocorrendo nesses pomposos eventos, ou seja, nada.

Esta racionalidade deverá beneficiar também a produção de cds, vídeos, curtas e filmes em geral. O mundo está, cada vez mais, dirigido pelo Deus Marketing.  No outro dia apareceu aqui em casa um velho amigo capoeira com um filme debaixo do braço. Uma obra prima da fantasia, da verdade truncada, da  ingenuidade por encomenda. Uma capoeira pintada como solução para a paz definitiva do mundo e prosperidade constante da humanidade. Depoimentos bombásticos ou de um hermetismo cômico, mas,aqui e ali, como sempre acontece, alguma coisa de aproveitável.  Paradoxalmente o filme aumentou minha convicção de que  2006 será o ano do começo do desmascaramento, muito possivelmente num movimento de fora para dentro, uma vez que o mundo "lá de fora" começa a cobrar mais precisão, mais coerência, mais fundamentação nesses mestres que correm o mundo como donos da verdade. Definitivamente 2006 será o ano dos Diagnósticos Técnicos Responsáveis (até agora só há "Chutômetro"), das compilações sérias, dos Álbuns Estaduais de Mestres e Contramestres, da seleção de livros não- comprometidos, de verbas públicas melhor empregadas, de simpósios de capoeiras real-mente conseqüentes, de organizações capoeirísticas organizadas com real eficácia e seriedade.  Diagnóstico que poderá até sugerir e provocar  um outro filme do brilhante cineasta  Luiz Fernando Goulart,  que, em 2005 nos brindou com um belo trabalho capoeirístico.

E mais, acredito, que tudo está a indicar que o processo de institucionalização da capoeira - lamentável, mas inexorável - neste ano de 2006 mostrará a importância de se criar uma instituição realmente com a cara da capoeira. O que, com alguma sorte, acabará sendo feito ainda em 2006. Sem paternalismo político, sem cabresto corporativista, sem igrejas messiânicas de fanáticos mercantis, sem aburguesamento.

Sem esgotar a relação de bons indícios de progresso, no próximo número, fecharemos este artigo com  ligeiro apanhado sobre uma das partes mais importantes do Jogo da Capoeira, a cantoria. Mais especificamente, as letras dessa cantoria.

  

-   Fim da Primeira Parte  - 



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