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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS

  15/01/2006
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Capoeiragem 2006 - Parte final

Roda de Samba no Bip Bip, Lúcio Sanfilippo, Morana (Saravando!) e "Candombe" de Carlos Vilaró

Capoeiragem 2006 - Parte final Coquinho Baiano

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br

Edição 56 - de 15/Jan a 21/dez de 2006

 

André Luiz Lacé Lopes

Leblon, Janeiro-2006

- Parte 2  -

  

Sem esgotar a relação de bons indícios de progresso, fechamos este artigo com ligeiro apanhado sobre uma das partes mais importantes do Jogo da Capoeira, a cantoria. Mais especificamente, as letras dessa cantoria.

Tenho mostrado e demonstrado como essas cantigas, com raras exceções, são extremamente frágeis, alienadas e alienantes. Tenho mostrado e demonstrado também como boa parte dessas letras é inspirada em cordéis, jongo, umbanda etc.

Quem entender que não há problema algum, tudo bem, é só parar de ler este artigo. O que, tenho certeza, não será feito, pois paira no ar uma concordância geral sobre este diagnóstico. O que fazer então?

Muito simples, retomar o sábio exemplo do passado, ou seja, voltar a ouvir com muita atenção os bons cordéis, a cantoria de jongo, umbanda, ciranda etc. Depois de respeitosa reciclagem sobre o Passado, aí sim, ousar criar novas cantigas. Não sendo absurdo pedir auxilio aos compositores consagrados da nossa música popular brasileira. Afinal, uma das maiores cantigas de capoeira, senão a maior (já escrevi sobre isto), pertence a Vinicius de Moraes. Há uma outra, também muita boa da safra de Martinho da Vila. Por que não, então, os bons mestres-compositores de capoeira não começam a fazer parceria com os grandes da MPB. Já pensaram Nei Lopes, Elton Medeiros, Monarco compondo capoeira?

É assim que fecho, portanto, o presente artigo, resumindo alguns eventos musicais dessas duas últimas semanas, aparentados com a Capoeira, que mereceriam, cada um deles, um longo livro.

Refiro-me a dois extraordinários cds recém-lançados - Roda de Samba no Bip Bip e Lúcio Sanfilippo - e o espetáculo SARAVANDO, com a não menos extraordinária MORANA.

Voltarei a escrever sobre tudo isso, mas, para os que já estão cobrando informações imediatas (Alô, alô Floripa!) , adianto o seguinte:

 

1.      Roda de Samba no Bip Bip.

O que faz um bar de samba pegar e outro não? Eis um dos mistérios da madrugada. O Bip Bip é um bar minúsculo, mas de coração maiúsculo, que bate em ritmo de samba, choro e bossa nova. Quando passa da hora e a vizinhança reclama, o pessoal sai do Bar, dá dois passos e vai tocar e cantar na praia de Copacabana. É um dos maiores centros de resistência da boa música, passagem obrigatória dos melhores sambistas e de milhares de apreciadores das quatro partes do mundo (o bar já tem fama internacional).

Essa riqueza só poderia acabar em disco, daí o lançamento do primeiro Cd (certamente outros virão). Do Partido Alto de abertura ao partido final, para qualquer um, será difícil, quase impossível destacar uma faixa. Menos para mim, posto que conheço bem o autor/cantor de uma das faixas, Paulinho do Cavaco, mestre de português e, no passado, excelente mestre de capoeira.  Sua composição "Reunião de Condomínio" é de rolar de rir, deveria ser, simplesmente, o hino oficial de todas reuniões do gênero.

Escolho, pois, o Paulinho, mas sem deixar de citar dois outros conhecidos, Nelson Sargento e Elton Medeiros, sendo este último, também um grande amigo e - data máxima vênia - vítima de uma involuntária omissão no excelente texto que abre o livreto que acompanha o cd. É que Luis Pimentel, embora tenha feito uma lista meramente exemplificativa, deixou de fora o grande Elton, justamente um dos pioneiros do Bip.

 

 

2.      Lúcio Sanfilippo, canções de amor ao Leo.

Nesse novo quadro capoeirístico, que vai nascendo com o Ano Novo, surgirá nova ordem também para a cantoria. Momento que trabalho como o de Lúcio Sanfilippo deverá ser matéria obrigatória para quem pensa compor e cantar capoeira.

Lúcio não é capoeira, mas deveria ser, pelo menos honoráriamente. Seu Cd deve ser ouvido por todo mundo, não apenas o mundo capoeirístico, mas o mundo em geral. É uma aula de cultura brasileira muito bem cantada. Não tem canto de capoeira, mas tem de Jongo, Côco, Ciranda e outras brasilidades cuja origem, na maioria dos casos, está na África. O Cd não é de capoeira, mas o capoeira que ouvir, especialmente as faixas 7 (Razões Africanas) e 8 (Festa pra Logum Edé), sairá jogando capoeira e perceberá a importância e urgência do canto da capoeira dar, afinal, um pulo qualitativo, superando a mesmice em que está mergulhado há algum tempo.

"Lossi, lossi

dança filho de tobossi

veja quanta flor que eu trouxe

pra embalar teu ijexá" (Festa pra Logum Edé)

 

Não estou com isto propondo que se abandone os velhos cantos, claro que não, estou apenas sugerindo que já está na hora de jogar no lixo os terríveis cantos da capoeira contemporânea, que não passam de gingles de segunda classe.

 

3.      Saravando

Quem quiser saber a origem do termo que leia e ouça Nei Lopes, quem quiser entender o teor de magia e poesia do termo que consulte Vinicius de Moraes, quem quiser saravar agora, ouça Morana (foto), pois ela está SARAVANDO.

Morana me foi apresentada no Bip Bip, pelo Monsieur Gomidô, também exímio capoeirista da velha guarda. Na mesma noite constatei e aplaudi sua extraordinária voz, especialmente ao cantar Cartola e Vinicius (o primeiro, respeitosamente, em ritmo de tango!). Alguns dias depois, no bar Saint Morritz, na Casa da Suíça (Bairro da Glória, RIO), repeti a dose, só que aí Morana cantou também a área da Habanera (Carmem, Bizet). Nos primeiros acordes pensei, "não vai dar certo, ópera é ópera, samba é samba". Lêdo engano foi uma das mais extraordinárias interpretações que já ouvi da Habanera. O que me encorajou a sugerir que ela cantasse também candombe (música afro-uruguaia), especialmente alguns dos cd do Carlos Páez Vilaró. Pois muito bem, ontem à noite, reuni uma dúzia de bons amigos para Morana apresentar seu show com um candombe de Vilaró incluído. A extraordinária cantora fez mais, incluiu também um candango argentino feito em homenagem a Carlos Gardel, idéia do guitarrista argentino que a acompanha (Cezar Rebechi). Na percussão, para surpresa geral, um chileno, Sr. Jose Izquierdo. Um trio de alta qualidade merecedor de qualquer grande palco do mundo. A apresentação foi gravada informalmente e, uma cópia, será certamente enviada ao Sr. Vilaró, uma criatura de três metros de altura.

Para completar, na noite seguinte, na rua da "cirrose", também aqui no Leblon, mais especificamente no Song book, ao lado da Academia da Cachaça, o trio repetiu o mesmo repertório.

A esta altura, o leitor-capoeira estará perguntando:

-                      O que particularmente este item tem a ver com capoeira?

Ora, como sempre lembro, a Capoeira está dentro da Sociedade e não o contrário, portanto, porque não acabar o artigo com esta boa notícia musical?

Mas, para os mais recalcitrantes lembro que toda esta idéia de gravar um candombe começou com minha ida a Montevidéu onde fiz breve palestra para o grupo do Mestre Exterior e, dias depois, em Punta Ballena, visitando a famosa CasaPueblo, ganhei de presente do autor (Vilaró) o livro "Entre colores y tambores" onde, às página tantas menciona um tipo de capoeira jogada antigamente no Uruguai e, também, a existência de serviços de inteligência, na África, durante o período da escravidão.

Mais uma vez Feliz 2006 para todos, se possível ouvindo o Bip Bip, o Lúcio Sanfilippo e a Morana.

 

        André Luiz Lacé Lopes

 


2006 - Ano Internacional da Mulher Capoeirista no Jornal do Capoeira




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