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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS
  04/12/2005
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Capoeiragem e a Guarda Negra :: Parte I
Nesta crônica o autor apresenta alguns fatos relacionados à Capoeiragem e à Guarda Negra (Rio de Janeiro), enquanto ele, o autor, busca indícios da presença da própria Guarda Negra em São Luis do Maranhão.
Capoeiragem e a Guarda Negra :: Parte I
Coquinho Baiano

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br

Edição 52 - de 4/dez a 10/dez de 2005

 

Leopoldo Gil Dulcio Vaz

São Luis do Maranhão-MA

Novembro de 2005

Com um misto de alegria e surpresa, li na edição 25, de novembro de 2005, da Revista HistóriaViva um interessante artigo de Carlos Eugênio Líbano Soares e Flávio Gomes - p. 74-79 - sobre "O combate nas ruas pelo Ideal Abolicionista". Alegria, por contar um pouco mais da história da/dos capoeiras. Surpresa, por se referir à "Guarda Negra".

Por não ser da área, isto é, capoeira, e não se lhe conhecer a história, nunca ouvira falar da "guarda negra"; e mais, como estudioso da história do Maranhão, especialmente do esporte e da educação física, não encontrara nenhuma referência a esse assunto nos mais de 400 livros que tenho em minha biblioteca...

Procurei o Prof.Jairo Ives de Oliveira Pontes, meu colega de magistério no CEFET-MA, e organizador de uma "Nova história do Maranhão", ed. em CD-ROM, e fiz-lhe a pergunta, a queima-roupa: "Fale-me da guarda negra!". Espantado, disse nada saber; nem na História do Brasil - da qual é professor -, nem na história do Maranhão, da qual é pesquisador... Mostrei-lhe o artigo em questão. Mostrou-se, qual, surpreso. "Precisamos investigar".

No artigo a que me refiro, da chamada consta "quilombolas, jornalistas e capoeiras foram personagens fundamentais do Rio de Janeiro contrários à escravatura"; e no corpo do artigo, inicia afirmando que

"a abolição da escravidão não foi fruto apenas de uma suposta ação exclusiva de enfrentamentos parlamentares. Nas ruas - principalmente nas cidades -, abolicionistas de várias origens sociais, escravos, libertos, operários de fábricas que alvoreciam, capoeiras, jornalistas e pequenos negociantes transformaram a campanha pela liberdade dos cativos numa verdadeira batalha ... e mais adiante ... capoeiras se engalfinhavam com republicados contrários à abolição...". 

Isso, em cidades como Rio de Janeiro, Santos, Porto Alegre, Campinas, Salvador e Recife não foram poucas as refregas nas ruas envolvendo polícia, abolicionistas, capoeiras, escravos e libertos.

O dono das ruas, naquele momento em que o grito da abolição cortou os ares, era o capoeira. Para os autores, a participação dos capoeiras nesse memorável momento político da vida carioca ainda é plena de contradições e zonas de sombra, em virtude de as maltas - como eram chamados os grupos de capoeira - não se posicionavam somente de um dos lados da contenda. Estavam nas trincheiras dos que defendiam o fim imediato da escravidão, assim como no lado dos que postulavam uma transição lenta, gradual e segura, sem o grito das ruas.

Mas os capoeiras se fizeram presentes, com suas correrias, suas lutas de rua, empastelamento de jornais - de ambos os lados - e os inesquecíveis golpes da capoeira, da rasteira e da navalha...

Iniciando em 05 de janeiro de 1885, quando capoeiras de uma malta armada pelos inimigos da causa abolicionista invadiram o prédio da redação do jornal "Gazeta da Tarde", dirigido por José do Patrocínio. Consta que essa invasão não teve nada relacionada com o movimento abolicionista, conforme a história passou a registrar o empastelamento do jornal, pelos capoeiras.

Foi apenas um enfrentamento entre maltas rivais, colocada de um lado, grupo do Campo de Santana (identificada com os abolicionistas) formada por pequenos vendedores de jornais, e do outro lado (dos escravistas), a malta que dominava o Largo de Santa Rita, chefiada por um tal de Castro Cotrim, junta com outros chefes de malta da região portuária de Santa Rita como Coruja e Chico Vagabundo. Os pequenos vendedores de jornal entraram na redação para fugir de seus perseguidores e foram apoiados pelos funcionários do jornal, que rebateram o ataque.

Anos mais tarde, José do Patrocínio cria a "Guarda Negra", em função da Lei Áurea, que abriu caminho para uma temporária unificação dos grupos em prol da novel agremiação, talvez a face mais conhecida da capoeiragem política dos últimos anos da monarquia. Mais tarde, Patrocínio a iria renegar, após a queda do gabinete João Alfredo, que concretizou o 13 de maio.

Patrocínio foi quem introduziu os capoeiras para o ninho abolicionista e circulava bem no complexo mundo das maltas de capoeira do Rio - José do Patrocínio era mulato, filho de uma africana e de um poderoso cônego do conservador clero católico, de Campos dos Goitacases -, algo muito raro entre as lideranças abolicionistas - Joaquim Nabuco e André Rebouças, dentre outros ... -, em geral compostas de moradores de classe média que nutriam verdadeira ojeriza à capoeiragem.

O porta-voz da Guarda Negra escrevia seus manifestos nas páginas de "A Cidade do Rio", o novo jornal de Patrocínio; as primeiras reuniões foram realizadas na redação do jornal; a polêmica na imprensa era travada entre o jornal de patrocínio e o "Paíz", no qual Rui Barbosa vociferava  os maiores impropérios contra a Guarda da Redentora.

Após o incidente de 14 de julho de 1889 entre os capoeiras da Guarda Negra e militantes republicanos no coração do Rio, Patrocínio gradualmente se afastou da organização... a guarda entraria em declínio, até ser completamente desbaratada pela repressão de Sampaio Ferraz em 1890.

Informam os Autores que houve episódios da Guarda Negra em outras cidades, como Porto Alegre, Salvador e São Luís...

São Luís? Daí nosso espanto, de Jairo e eu. Nunca ouvíramos falar... Procurei em Mário Meireles, nosso maior historiador, e não achei nada; em Vieira Filho, em seu "A Polícia Militar do Maranhão", de 1975, e não consta nada; Navas-Toríbio, em seu "O negro na literatura maranhense", também não há referência...

Resta a Internet! Na Wikipedia, sob o título Capoeira, consta que, historicamente, capoeiristas têm sido utilizados em guerra e conflitos como na Guerra do Paraguai e na Revolta dos Mercenários, em 1828, e que em 1888 foi instituída pelo exército brasileiro a Guarda Negra, composta praticamente por capoeiristas.

Em 1897, o general Couto de Magalhães disse que a capoeira não deveria ser perseguida mais sim dominada e ensinada em escolas militares. Em 1939, mestre Bimba começa a ensinar a capoeira no quartel do CPOR de Salvador. Não se pode esquecer que como arte de guerra a capoeira foi utilizada contra a opressão da escravidão nos quilombos e posteriormente nas maltas. [1].

CARDOSO, em "HISTÓRIA DA CAPOEIRA", ao tratar da "repressão da capoeira" refere-se que, quando da chegada da família Real ao Brasil em 1808, começou o processo de repressão à cultura negra e foi intensificada a perseguição policial. Em 1809, foi criada a Guarda Real da Polícia na qual o Major Miguel Nunes Vidigal foi nomeado comandante. Major Vidigal foi o verdadeiro terror dos capoeiristas, perseguia-os, espancava-os e torturava-os na tentativa de exterminá-los. Apesar dos severos castigos, os capoeiras resistiam bravamente e em 1824, a punição tornou-se pior: além das trezentas chibatadas eram enviados por três meses para realizar trabalhos forçados na Ilha das Cobras.

A partir da segunda metade do século XIX (1850), começaram a ocorrer sucessivas prisões de capoeiristas, os quais estavam formando maltas que atemorizavam a população e os governantes. Os principais focos da capoeira eram: Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco. No entanto, no Rio de Janeiro é que a capoeira era motivo de maior preocupação (mesmo porque o Rio era a capital do país na época), era onde estava a maior concentração das maltas, sendo as mais temíveis as do Guaiamuns e dos Nagoas. Os Nagoas eram ligados aos monarquistas do Partido Conservador, agiam na periferia, e os Guaiamuns eram ligados aos Republicanos do Partido Liberal, controlavam a região central da cidade. (in Letícia Cardoso de Carvalho [2]).

Maltas adversárias que por décadas se digladiaram pelas ruas da cidade; os nagoas e guaiamus sempre aparentavam estar imersos num universo imaginário, fronteira entre a ficção acadêmica e uma nebulosa tradição popular. Nesse processo de divisão da cidade em dois grandes grupos rivais estaria completo, definindo uma linha divisória que mantinha nagoas e guaiamus em lados opostos, e em permanente conflito pelo controle de cada área. O conflito político-partidário entre liberais e conservadores acabou se cristalizando como a clivagem mais importante entre as maltas de capoeiras, que assim se ligaram indelevelmente ao destino dos dois partidos principais do sistema político do Império. O ano de 1888 foi o da Abolição da Escravatura e de grandes mobilizações de capoeiras. (in Soares, Carlos Eugênio Líbano. Dos nagoas e guaiamus: a formação das maltas  In: A negregada instituição: os capoeiras no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1994.).

Apesar da repressão que sofria, quando interessava, a capoeira servia também de instrumento nas mãos dos políticos. Ora para os liberais, ora para os conservadores. Um exemplo é a Guarda Negra, criada em 1888 por José do Patrocínio, composta por negros capoeiristas que tinham o objetivo de defender a monarquia e lutar contra a República (após a libertação dos escravos os capoeiristas ficaram ainda mais a favor da monarquia como agradecimento à Princesa Isabel por ter assinado a Lei Áurea). Logo após a Proclamação da República (1889), a capoeira foi proibida pelo Marechal Deodoro, permanecendo nessa situação até 1937 quando Mestre Bimba a tira do código penal e a leva a esporte nacional. (in Letícia Cardoso de Carvalho [3]).

A formação da Guarda Negra é precedida por violentos conflitos entre nagoas e guaiamus, retratados quase diariamente pela imprensa. Nunca como naquela época a atuação das maltas de capoeiras atingiu um impacto e uma sofisticação como se viu. O termo "fortaleza" para as tavernas deixa entender que aqueles eram locais típicos de reunião e conflito, e mais, pontos nervosos de uma geografia de bairro, constantemente em movimento pelo embate intermitente das maltas. (in Elias, Larissa Cardoso. Capoeira: Revolta e Teatralidade, Uma Perspectiva Artaudiana, disponível em [4])

Nos últimos dias do império, os conflitos entre republicanos e monarquistas ocorreram freqüentemente. A fim proteger a princesa Isabel, os monarquistas criaram a Guarda Negra (protetor preto), composto dos pretos, mulatos e muitos escravos libertos. Estes homens foram extremamente devotados à Princesa porque tinha assinado a lei que abolia a escravidão. A Guarda Negra combateu os republicanos até que a última faísca da vida do império morreu. Furiosos, os republicanos juraram matar seus membros; se a monarquia não conseguiu extinguir a capoeira, a república recém-estabelecida o faria.

Continua na próxima edição falando sobre O ISABELISMO.

Leopoldo Vaz, São Luis do Maranhão, Nov-2005

Professor de Educação Física do CEFET-MA

Mestre em Ciência da Informação

 

 

Nota da Ilustração: capturada da página 75 da Revista HISTÓRIA VIVA - Novembro de 2005, cujo título apresenta-se como "CORRIDA DE CAPOEIRA - Caricatura de autor desconhecido. Observar na ilustração, além de paus e porretes "voando", a presença da Sardinha (Navalha).
 




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