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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS
  05/05/2006
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Capoeiras e Capoeiristas
Capoeiras e Capoeiristas Coquinho Baiano

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br

Edição 72 - de 07 a  13 de Maio de 2006

 

Marieta Borges Lins e Silva

Fernando de Norinha

 - Maio de 2006 -

Nota do Editor:

            Fernando de Noronha nos reserva, além de suas belezas naturais, uma rica história de Capoeiragem. Qual pesquisador de capoeira não gostaria de saber o que aconteceu com os capoeiras deportados do Rio de Janeiro para lá, no final do século XIX - Código Penal de 1890! O que ficou documentado sobre aquele período nos acervos históricos de Fernando de Noronha? Que outras informações se tem sobre a deportação de Juca Reis para Portugal?

            Para nossa felicidade, está entrando na Roda a pesquisadora Marieta Borges Lins e Silva, coordenadora do - vejam vocês - "Programa de Resgate Documental sobre Fernando de Noronha".

            O professor Leopoldo Vaz, de São Luis do Maranhão, foi que descobriu esta preciosa colaboradora para nosso Jornal do Capoeira. Ao Leopoldo, nosso muito obrigado. À professora Marieta, seja bem vinda à Roda da Informação sobre nossa Capoeiragem!

            Para ilustrar esta crônica inaugural da professora Marieta, selecionamos uma tela que, salvo engano, deve ter sido pintada por Mestre Monet.

 

                                               Miltinho Astronauta

 


 CAPOEIRAS e CAPOEIRISTAS

Marieta Borges Lins e Silva

marieta@noronha.pe.gov.br

 

Falou-se sempre muito sobre a Capoeiras e Capoeiristas. Em diferentes tempos e por razões diversas aplicaram-se penas aos praticantes dessa modalidade de desempenho físico, olhando-a como luta, como contravenção, como origem de danças populares - o frevo, por exemplo - como arte e, finalmente, como prática desportiva.  

 

Estudiosos debruçaram-se em jornais e livros, de muitos tempos, à cata de razões que explicassem o fascínio que a Capoeira exercia sobre os homens, sobretudo os jovens, levando-as a aprendê-la e exercitá-la a os tempos, só ocorria na marginalidade.

 

Artigos, reportagens, charges, estudos acadêmicos registraram esse saber que ia sendo identificado, construindo a história dessa forma de destreza corporal, tanto nos seus aspectos lúdicos ou conflitantes, como na grande repressão que gerou, estimulando debates em muitos níveis, tendo o tema como centro das atenções.

 

No século XIX, a prática parecia ser maior entre a população preta e pobre. Esses eram dois condicionantes importantes, para atribuir ao povo mais carente o gosto pela Capoeira e, nele, considerar que somente os de cor negra eram praticantes. A realidade não era bem essa... Muitos filhos de família abastada, brancos na cor, também se deixavam envolver pela magia da Capoeira e tornavam-se membros de grupos, muitas vezes no anonimato.

 

Isso cresceu muito no final do século XIX, contaminando a República recém-proclamada que, em reuniões oficiais, trouxe o assunto para discussão e adoção de medidas coercitivas. E em 1890, menos de dois meses depois do 15 de novembro de 1889, e motivado pelas acirradas discussões dos que integravam o Conselho de Ministros do Governo Provisório Republicano, o Chefe de Polícia Sampaio Ferraz, com apoio do Ministro da Justiça, Dr. Campos Salles, foi designado para executar a missão de exterminar os capoeiras de todo o Brasil. E ele - temendo as lutas que precisaria enfrentar para executar tal ordem, diante do envolvimento de gente graúda na prática da Capoeira - conseguiu sossegar Deodoro da Fonseca, recebendo dele a promessa de que teria "carta branca para agir como quisesse, desde que limpasse o país daquela gente". Estava selado o destino desses "subvertores da ordem": ficou combinado que "todos os capoeiras, sem distinção de classe e de posição, seriam encarcerados no xadrez comum da Detenção, tratados ali severamente e, pouco a pouco, deportados para o presídio de Fernando de Noronha, onde ficariam certo tempo, empregados em serviços forçados,"

 

Todos os envolvidos na trama para exterminar os capoeiras reconheciam que "a prática era uma arte, uma verdadeira instituição mas, radicada nos costumes, resistindo a todas as medidas policiais - as mais enérgicas e mais bem combinadas  - esse flagelo dava eternamente uma nota de terror às próprias festas mais solenes e ruidosas, de caráter popular." Em nota, no trabalho "Actas e Actos do Governo Provisório", organizado por João Dunshee de Abranches Moura, publicado em 1907, fica evidente o medo que cercava a realização de quaisquer festividades, patrióticas ou religiosas, nos conturbados tempos pós-República, sobretudo à noite - quando a multidão de apinhava pelas ruas e praças - de que não ocorressem cenas sangrentas e aviltantes de confronto entre policiais e capoeiristas...  Isso viria a culminar com a deportação daqueles considerados "indesejáveis" de todo o Brasil para o arquipélago distante, como medida saneadora de distúrbios públicos. E como, na arte da capoeiragem, desde os tempos da Monarquia, não somente os das "classes baixas" estavam envolvidos, mas também personagens ilustres e até políticos, achou-se por bem atingir logo esses homens no nascedouro da República, livrando o povo daqueles indivíduos que atentavam contra a ordem estabelecida.

 

A polícia, na época, conhecia bem quem eram os praticantes da capoeira. Facilmente organizou-se uma "lista" dos "facínoras que infestavam as cidades", não atendendo a nenhum dos pedidos de condescendência e considerações para com nenhum deles... E muitos problemas advieram da rigidez na execução dessa tarefa.. A imprensa acirrou os posicionamentos. Os Ministros se dividiram em opiniões contra ou a favor das medidas que estavam sendo tomadas. Deodoro da Fonseca não recuou dos seus propósitos. E poucos meses depois começava a remessa, de homens de muitas classes e com muitos "padrinhos", para o distante arquipélago, onde viveriam sua vida reclusa e submetida a trabalhos forçados.

 

Para Fernando de Noronha essa foi uma página da história que parece ter sido propositalmente ocultada, fazendo com que a presença, na ilha, de todos os capoeiristas brasileiros e estrangeiros, passasse desapercebida dos relatos que se sucederam, ainda que saibamos hoje que, até 1930, continuaram a ser enviados para lá esses homens marginalizados, por serem praticantes de uma forma de condicionamento físico. E, no entanto, nenhum lugar do Brasil tem um diferencial tão precioso e tão importante do que o arquipélago "perdido em meio a lindos tons de azul". E por isso, em nenhum outro lugar do Brasil a Capoeira merece ser escrita com o brilho dos feitos do passado, mesmo que tenham sido dolorosos.

 

Continua na próxima Edição do Jornal do Capoeira

 


* Marieta Borges Lins e Silva é pesquisadora, coordenadora do "Programa de Resgate Documental sobre Fernando de Noronha"

 

2006 - Ano Internacional da Mulher Capoeirista no Jornal do Capoeira







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