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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS

  23/04/2006
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Congresso Nacional de Capoeira Angola

Crônica publicada por Mestre André Lacé, no Jornal dos Sports - Rio - 1996

Congresso Nacional de Capoeira Angola Coquinho Baiano

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br

Edição 70 - de 23 a 29 de Abril de 2006

 

André Luz Lacé Lopes

Jornal dos Sports, 26.09.l996

    Nota do Editor

Concordamos com a previsão de que, um belo dia, a Capoeira terá espaço próprio em todos grandes jornais e revistas.  Assim como os demais setores da vida - esporte, cultura, arte etc - a Capoeira passará também a contar com jornalistas especializados. Haverá, então, muita surpresa. Quantos jogadores de futebol, após a partida, defendem que jogaram muito bem e, no dia seguinte, percebem que as crônicas especializadas defendem tese contrária!?  Quantos técnicos insistem que estão "prestigiados" e, logo em seguida, descobrem que foram despedidos!?

Há décadas os capoeiras vêm conseguindo sobreviver como se fossem um sistema fechado, de fora só admitindo elogios, jamais críticas. Não aceitam cabresto de ninguém, embora muitos, sejamos francos, só consigam sobreviver à custa de verbas públicas. Ora, para liberar verba pública todo governo é obrigado a fazer uma apreciação. Do contrário haverá problemas legais, como, aliás, aqui no Brasil e no exterior, às vezes ocorre mo que tange a gasto público.

Pois muito bem, no caso da Capoeira, quem deve receber e quem não deve receber qualquer tipo de patrocínio, público e mesmo privado?

Um excelente capoeira, praticamente do estilo angola, que não descenda diretamente da "linhagem pastiniana" (expressão utilizada por alguns com justa veneração) poderá pleitear verbas públicas, ou mesmo privadas?

Será que esse excelente capoeira, por definição, teria sempre que ser preterido por outro, mesmo que fosse péssimo praticante, mas que tivesse linhagem nobre?   

No Rio de Janeiro, por exemplo, além do consolidado grupo "Vadiando entre amigos", formados por excelentes mestres, reconhecidos no mundo inteiro, começa a surgir agora um outro -  "Capoeiragem entre camaradas" - com futuro também promissor.

Somados contam com cerca de quase trinta mestres, nenhum de linhagem puramente "pastiniana".  O que ensejará a pergunta, se pleitearem apoio, patrocínios, para seus eventos, todas as portas deverão ser fechadas para eles?

A presente consideração vem a propósito em função de algumas matérias que publicamos recentemente que provocaram saudável polêmica e algumas cartas veementes.

Nosso Jornal é muito modesto para abrigar essa discussão, mas temos certeza que ela passará a ser tema de praticamente todos seminários de capoeira daqui para frente.  Mesmo sabendo que nenhum setor do mundo, especialmente o esportivo logrou sustentar hegemonia por muito tempo.

Mas, por oportuno, transcrevemos matérias publicada, no Jornal dos Sports, em 1996. 

 

Miltinho Astronauta, Editor

 


 CONGRESSO  NACIONAL  DE  CAPOEIRA  ANGOLA

 

André Luz Lacé Lopes

 

A Capoeira Angola cresce, sintomaticamente, no mundo inteiro. Além de um número sempre crescente de praticantes, vai crescendo, também, a literatura especializada, incluindo-se aí, teses e dissertações universitárias. Aqui no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa.

                Consciente e preocupado com o amadorismo gerencial crônico que caracteriza a grande maioria de eventos dessa natureza, o Senhor Cenésio Feliciano Peçanha, mais conhecido como Mestre Cobra Mansa, chegando de Washington D.C. - onde realiza um extraordinário trabalho de propagação da capoeira Angola - em rápida passagem pelo Rio, tratou de discutir o assunto com algumas lideranças locais. Participei de um desses encontros e fiquei muito bem impressionado.        Assim como foi uma grata surpresa o êxito do "workshop" por ele realizado, no Centro Cultural  José Bonifácio, no histórico bairro carioca da Gamboa. Ainda mais do que êxito, surpreendeu-me a estratégia de não-promoção do evento, ou melhor, a deliberada despreocupação com a promoção.  Situação, aparentemente, contraditória, mas que encerra toda a sabedoria utilizada pelos nossos primeiros capoeiristas - o negro das senzalas, o negro das capoeiras (mato rasteiro), o negro dos quilombos: "para resguardar as raízes há que se evitar, nesta frondosa e fascinante árvore, o crescimento dos galhos podres, dos galhos comerciais, dos galhos aburguesados, dos galhos com grife, dos galhos invejosos"...

                 Não tenho dúvida que as reflexões e, sobretudo, as sugestões objetivas feitas durante tais reuniões e durante o "workshop" deverão subsidiar e - quem sabe? - dar maior conseqüência prática ao Congresso de Salvador, destino final de Mestre Cobra Mansa, nesta sua rápida visita ao Brasil (muito embora, afirme que tomou conhecimento da reunião por mero acaso).

 

 

 

                 Acredito até que um resumo deveria  ser feito e distribuído, preliminarmente,  a todos os congressistas.   Sugeri a idéia, mas o Senhor Cenésio, alegando - com certa razão - falta de tempo hábil, mandingueiramente, contrapropôs que eu escrevesse um pequeno artigo destacando tópicos que, seguramente, deverão aflorar durante o congresso na Bahia. Aproveitando a generosidade deste espaço no Jornal dos Sports,  com base em minhas observações  e sem querer, obviamente, esgotar tão rico assunto, é o que passo a fazer:

 

1. Preliminares:     Para iniciar, será de fundamental importância, que as lideranças da Capoeira Angola - Mestres João Grande, João Pequeno, Pedro Moraes, Nô. Curió, Lua de Bobó, Cobra Mansa, Mala e tantos outros, conheçam, a fundo, a filosofia, os objetivos e, sobretudo, os resultados práticos que a CBC  vem apresentando desde a sua fundação. Claro que a própria Confederação, a esta altura, já deverá ter preparado, para distribuição no Congresso, um exaustivo e persuasivo relatório sobre suas realizações.  A rigor, este material já deveria estar nas mãos dos congressistas (disquete, parece, foi enviado para alguns).  De qualquer modo, o resumo, certamente, deverá mencionar o nome, endereço, telefone e curriculo vitae de toda diretoria e conselhos da Confederação, bem como a relações (diretores e conselheiros)  e endereço de todas as federações estaduais a ela filiadas. Pois tomo conhecimento que há alguma polêmica sobre a legitimidade e, sobretudo, sobre a eficácia de algumas dessas federações.

 

2. Regulamento Oficial da Capoeira (?): Não sendo possível distribuir um regulamento para cada congressista, será imperioso colocar umas cópias à disposição dos mais interessados.

 

3. Proposta inicial: A iniciativa do evento, da reunião, do congresso, salvo engano, não partiu das lideranças de Angola, sendo assim, caberá aos promotores,  justificar a realização do evento, apresentando uma proposta inicial para discussão. Ou seja, o que a CBC pensa da Capoeira Angola, e o que pensa fazer por ela e com ela?  E, na hipótese de um não casamento entre Capoeira Angola e CBC, a Confederação passará a tomar medidas coercitivas?

 

4. Recursos Financeiros: quais são os recursos da confederação, como estão sendo gastos, como serão gastos até o final do ano e ate o final da atual gestão. Transparência administrativa é e será sempre fundamental.

     4.1  Considerando a crescente profissionalização do esporte amador, o que a CBC está fazendo neste sentido?

 

5. Estatuto & Eleição: também o estatuto da CBC deverá estar à disposição dos congressistas, da mesma maneira que uma pequena palestra deverá ser feita para esclarecer sobre a próxima eleição, prováveis concorrentes e eventuais mudanças na política de ação.

 

6. Luta pelo Poder, disputa de mercado: de maneira adulta, o assunto devera ser abordado, para evitar as perversões que rondam boa parte do esporte confederado (poder pelo poder, poder por vaidade, poder para viajar, poder como escada política, poder para licitar  etc).

 

7. Cooptação: Ate onde o "povo de Angola" estará sendo, novamente, conduzido para o navio negreiro?

    A própria Capoeira Regional foi vítima do "sistema" (aburguesamento, sistematização excessiva, padronização excessiva, transformando em dilema o que é a essência da capoeira).

 

8.  Soluções alternativas, solução brasileira: por que insistir em colocar a capoeira numa camisa de força?

     Por que não procurar uma solução alternativa, brasileira, que contemple toda a infinita criatividade da capoeira,    especialmente da capoeira angola?

       Por exemplo: como está e como estará - em função do evento -a Associação Brasileira de Capoeira Angola?

             E quanto à Fundação Internacional de Capoeira Angola, com sede em Washington D.C.?

 

9.  União Geral: sem dúvida, será uma ótima oportunidade para que as lideranças da Capoeira Angola dêem um belo    exemplo de fraternidade, de capacidade de união; para tanto, será aconselhável que o congresso reserve um tempo e um espaço para reuniões fechadas, só para angoleiros. Tais reuniões serão tão importantes quanto às reuniões gerais, onde, com alguma sorte, prevalecerá o clima de fraternidade e comunhão.

 

10.  Visão ecumênica da Capoeira:  A Capoeira Angola não pode nem deve abrir mão de suas raízes, não pode nem deve negociar o quase milagre do seu ressurgimento e sucesso (no mundo todo), mas pode e deve procurar  trocar  idéias com todos aqueles que realmente conhecem o assunto e sabem conversar,  respeitosamente, sobre ele.

 

11.  Capoeira Olímpica, Ano 2004: está na hora da Capoeira, especialmente a Capoeira Angola, apoiar, apropriadamente, a luta para sediar a Olimpíada de 2004 no Brasil. O Congresso poderá - deverá - tomar uma posição inteligente, criativa e, sobretudo, eficaz!

 

12. Homenagens especiais: claro, pelo menos em tese, há que se reconhecer a importância do encontro e, por via de conseqüência, o mérito da iniciativa (CBC e Prefeitura Municipal de Salvador), entretanto, o evento ensejará uma excelente oportunidade para homenagear os grandes mestres da Capoeira Angola, incluindo-se aí o próprio Mestre Bimba (certo!?) e, por motivos especiais, o Sr. Antonio Conceição Moraes.

 

                                                                 RIO, 26 de setembro de l996

 

Observação: Este artigo provocou veemente protesto (fax sem timbre e sem assinatura) do "Diretor do Departamento Nacional de Capoeira Angola (?)", de uma organização de capoeira que tem a pretensão de, um belo dia, passar a controlar todos, absolutamente todos os tipos de capoeiragem, inclusive o "folclórico".  O bravo diretor contestou o Senhor Cenésio para quem, segundo ele, mandara um convite formal para participar do evento ("muito embora entendesse que o Senhor Cenésio não representasse os verdadeiros interesses da Capoeira Angola"). Só uma acareação bem humorada poderá esclarecer o tal problema de comunicação; agora, quanto ao êxito deste "departamento nacional" e da própria organização nacional  bastará avaliar os resultados práticos atuais e de um futuro próximo. Particularmente, há décadas, venho defendendo uma solução totalmente atípica (Plano Nacional para o Desenvolvimento Pleno da Arte Afro-Brasileira da Capoeiragem; um plano multidisciplinar e interdepartamental!)


2006 - Ano Internacional da Mulher Capoeirista no Jornal do Capoeira



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