| Login | Crie o seu Jornal Online FREE!

Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

Capa |  CAPOEIRA VIRTUAL  |  CRÔNICAS  |  EVENTOS  |  LIT.CLÁSSICA  |  NOTÍCIAS


 CRÔNICAS

  21/05/2006
  0 comentário(s)


De Chica da Silva à Pelé: O Negro Sem a Terra

De Chica da Silva à Pelé: O Negro Sem a Terra Coquinho Baiano

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br

Edição 74 - de 21 a  27 de Maio de 2006

 

André Pêssego

projetozumbi@uol.com.br

São Paulo, Capital

 - 21 de Maio de 2006

 

PALMARES, UM PROJETO DE NAÇÃO

DE CHICA DA SILVA À PELÉ: O NEGRO SEM A TERRA

"A imaginação de construção da nação brasileira ficou

restrita à terra, à sua posse, à distribuição e ao seu usufruto

pôr uma etnia dominante" (Luis Mir).

            Este escrito é como que um ensaio a algumas considerações a serem feitas a respeito da obra de dois séculos a trás - a Transposição das Águas do São Francisco - já em meio-andamento meio-suspensa. Aquele canal é a primeira e  a  mais importante porta  para a última e permanente das fronteiras agrícolas do Brasil. Tenho me referido ao último dos mercados nacionais do Mundo: a população negra. Todos os ciclos econômicos do Brasil foram queimados sem o negro. Salvo a industrialização, em um período breve, mas proveitoso. De todos os ciclos econômicos o negro não participou (se quer como consumidor privilegiado de algo) porque não teve Terra. Esta nova fase da agricultura permanente é inimaginável pensar-se o negro excluído da Terra.

            O negro sem a terra ficará a mercê dos favores das atividades marginais. Do negro acabaram com a alforria; botaram no lugar  o "direito-a", ou seja pulou de Chica da Silva para "Pelé". Um e outro tão atolados no dinheiro, quanto sem rumo - porque a ambos não foi dado a terra, - não tiveram "a"  origem, portanto não tiveram para onde voltar. Antes até mesmo da educação terá de ser a Terra.  A educação deverá ser atitude dele, negro. Antes de tudo, a indenização, composta  de duas partes - a) terra; b) dinheiro, em espécie; e uma conseqüente - assistência técnica-comercial em diversas faixas e longo tempo, (calcadas na experiência para com os imigrantes europeus e  japoneses, principalmente).

         Chica deu aos filhos  educação esmerada: da batina  a passagem por academias romanas. Ainda assim  tiveram o desfecho próximo ao do filho de Pelé: dos  quatro filhos homens de Chica, de um sendo padre, dos outros três a debateram-se para ingressar no seio da nobreza - é tudo quanto se sabe; das 9 mulheres a maioria tornando-se freiras, não deixaram pegadas diferentes dos rastros das outras quatro,  no que pese a educação de proa em colégios internos católicos. Tudo o mais foi o "sem-eira-nem-beira", de quem não tem a terra; assim também não é discutido o filho do Pelé além das fronteiras de um princípio constitucional tão ilegítimo, perverso quanto irreal - o de que "todos são iguais perante a Lei": São iguais os que têm a terra e desiguais os que não a tem. Todos nós sabemos o destino dos Pedro de Almeida, desde 1685, porque tiveram terra, nasceram com "o pé na Terra", tinham para onde voltar a cada mexida na vida. Tinham a origem e na origem encontravam a própria origem - primos, tios, avós, amigos de infância com interesses comuns.  Pelé e Chica, cada um a seu tempo, foi sorteado, no "regime da antiga quota" para servir de "cala-a-boca". Quem de nós não ouviu o pito - " racismo? que nada, olhe o exemplo de Pelé".  Vamos resumir algumas genealogias e seus fatos.

 

-          'Séc. XVII, Henrique Dias, o "gov.  dos pretos" e o Gov. Souto Maior,  ambos lutaram para destruir Palmares. Da árvore Souto Maior, não preciso falar - estão entre fazendas e palácios -; e os "herdeiros Henrique Dias" - onde estão? Com certeza nalguma favela, ou dizimados, entre os Séc. XVII e XVIII, talvez nem chegaram ao Séc. XIX.

-          Por que foram dizimados, bem antes, ou estão nalguma favela?

-          Porque Não tiveram terra. Na família, é preciso dentre seus membros, uma  parte considerável  tê-la. É a referência, é para onde se possa "voltar", num dado instante da vida, encontrar seus iguais. 

-          Por que não tiveram, se as terras de Palmares foram loteadas entre seus destruidores? Se o pagamento de tudo era a terra? Se todos os outros, de comandantes a soldados, a tiveram?

-          Henrique Dias sendo negro não podia ter terra. Ainda hoje, o negro não pode! Sob mil disfarces, mas não pode. Há notícias de que ainda há demanda judicial inacabada com as terras de Palmares. As demandas de Jorge Velho, por mais e mais terra, chegaram à Republica. Não há um único processo, levantado  até agora, envolvendo o negro Henrique Dias. Como não há registro de um palmo de terra destinada aos comandantes dos "Batalhões dos Henriques". Por que? - Por ser negro!

 

Séc. XVIII,  alguns dados sobre Chica da Silva - alforriada no pé do altar pôr e para unir-se a João Fernandes. Diziam do Contratador ser mais rico que o Rei de Portugal. 

 

-          Chica ficou viúva  com muito dinheiro,  tinha muita capacidade para ganhar dinheiro,  porque não comprou   terra? Não  comprou porque não   podia, não podia por ser negra. De Chica viuva - "negra alforriada não podia casar com seu senhor"; mas sem casar não poderia pertencer à irmandade religiosa dos brancas - Chica pertenceu às três: dos mulatos, dos pretos e dos brancos. Sem casar teria sepultura comum - foi sepultada na Igreja de São Francisco de Assis, em Tijuco, irmandade reservada à elite senhorial branca. O não casamento de Chica poderá ter sido artifício para tomarem-lhe a herança.

 

 PONTINHA, uma ponte pequena? Lá isso não, uai! - OMILAGRE DA TERRA.

 

-          Séc. XVIII, CHICO REI, também alguns dados. De Chico  Rei  sabe-se, com certeza tinha irmãos e parentes muitos. A história do ouro carregado nos cabelos é enganação, todos os  negros tinham cabelo. E os donos das minas, seus capitães,  eram o que foram,  o que são: Chico Rei também foi sorteado na política da antiga quota, como  "cala-a-boca".

 

            Um endereço, uma História:  Há em Minas um lugar chamado PONTINHA, antes um lugar de Diamantina, hoje Município de Pompeu. "Esta pontinha de terra" a Padroeira vendeu a Chico Rei, pelo Padre Moreira. O Padre Moreira fez os documentos como sendo para uns parentes dele (padre) que haviam de chegar de Portugal, e para não ter desconfiança, deu o nome a todos de Fulano, Sicrano, MOREIRA... Antes da queima de Rui "pegou fogo" o cartório onde tinha a escritura dos MOREIRAS.... Dona Mariquinha, viúva dum figuraço, ainda moça,  por amancebia entre os Moreiras, tomou-lhes as dores  (pelo seu "pedacinho de ébano" diziam as más línguas), arranjou novos documentos, "tudo nos conformes". E estão lá, para quem quiser ir conhecer. Com o advento do Estatuto da Terra, 1964, pouco tempo depois grileiros contumazes quiseram tomar Pontinha dos Moreiras. Alguns deles foram levados a Brasília... um outro padre, falavam do Dep. Monsenhor Arruda Câmara, de Pernambuco,  os socorreu. Ainda apareceram falsas escrituras, noticiou-se muito este fato.... Estão lá os Moreiras,  pé na Terra.

            Séc. XX # XXI, Pelé pôde ter o dinheiro que teve; pôde ser o que foi (embaixador do café, plenipotenciário, Ministro de Estado) pôde ter até banco, (sistema financeiro), não pôde ter terra. 

            Que se aponte um negro, em qualquer lugar do Brasil  candidato a um outro "Rei da Soja", com léguas e léguas de terra,  metendo a mão no Banco do Brasil - pode ser de jogador de futebol a ganhador de loteria.

          Na região do São Francisco, onde restou o maior número de lugares habitados por negros, (dos fugidos aos libertos), em todo o vale das culturas irrigadas, com todo o conjunto de obras feitas com dinheiro público, de cunho Estado, a população negra,  que não perdera a terra,  está sem poder usar água, neste tempo de duas décadas, a mais.

 

André Pêssego, Berimbau Brasil - SP/SP

 

Fotografia de PELÉ: Larry Berman, 1975, edição especial da Black Sports Magazine


2006 - Ano Internacional da Mulher Capoeirista no Jornal do Capoeira




  Mais notícias da seção Na Roda com Zumbi no caderno CRÔNICAS
30/04/2006 - Na Roda com Zumbi - Nota do Leitor
Sobre a crônica "Por que Nassau Não Atacou a Palmares?"...
01/04/2006 - Na Roda com Zumbi - Quilombo, O Estado Já o Reconhece
Este artigo faz parte do projeto "Palmares, Um Projeto de Nação" ...
19/03/2006 - Na Roda com Zumbi - O Filho Único, o Gato, os Pais, a Capoeira
"A Capoeira é um dos últimos lugares da Terra em que criança não atrapalha"...
12/03/2006 - Na Roda com Zumbi - POR QUE ZUMBI VAI PARA PALMARES?
Crônica por André Pêssego sobre o Zumbi dos Palmares, Abdias Nascimento, Capoeira e Teatro...
26/02/2006 - Na Roda com Zumbi - Rainha Nzinga e a Primeira Dama
Nesta crônica o autor faz breve introdução sobre questões pertinentes à definição de Quilombos, e arremata a crônica sobre "Os Silvas, As Silvas", homenageando duas Mulheres Lindas: NZINGA MBANDI & MARISA LETÍCIA DA SILVA ...



Capa |  CAPOEIRA VIRTUAL  |  CRÔNICAS  |  EVENTOS  |  LIT.CLÁSSICA  |  NOTÍCIAS