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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS

  09/04/2006
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De Dandara à Sinhá Moça

De Dandara à Sinhá Moça Coquinho Baiano

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br

Edição 68 - de 09 a 15 de Abril de 2006

 

André Pêssego

9 de abril de 2006

 

PALMARES, UM PROJETO DE NAÇÃO

DE DANDARA A SINHÁ MOÇA

 

Lenda são ilações que formam uma resposta para explicar o

desconhecido; e que mesmo após  conhecido não mudam a lenda

nem a resposta.

                                              Mestre Benício.

                                         

Passa na Rede Globo no horário das 18 horas, a Novela Sinhá Moça, julgamos interessante  elucidar a um fato que se dera por todo o mês de março.

- Vimos o "rebu" que deu o fato de Sinhá Moça ter viajado no mesmo trem com o Dr. Rodolfo. Pegava mal uma moça de família viajar com um rapaz mesmo que ilustre.

- Depois que Sinhá Moça chega na fazenda: Quem a faz companhia? Quem lhe leva pra lá e pra cá? -  o negro Sebastião. Bastião lhe acompanha em passeios  pelas cercanias da grande fazenda - ora a cavalo, ora andando. Lhe conduz às senzalas; leva-a para visitar os negros feridos, no açoite, nos castigos.

- Por que o negro Sebastião? Por que ela rememora outros negros que a acompanhava quando menina?

- Porque o Barão de Araruna deixava a filha, ainda por cima única, ser acompanhada, guiada por negros homens? E por cima nos ermos da fazenda, a cavalo?

- Não era só. Sempre que as mulheres - casadas ou não, de qualquer idade - ia de uma localidade para outra era conduzida, acompanhada por negros homens. Por que?

 

            Ato como este foi prática corrente até a primeira metade dos anos 1900. Em todo o interior do Brasil, notadamente nas zonas agropastoris. Só para rememorar a maior carência do homem  escravo, era de mulher. A branca, nem pensar. As negras eram tomadas pelos senhores, os filhos rapazes, capitães do mato. Ainda assim os negros homens é que acompanhavam, transportavam, conduziam as mulheres brancas.

 

            Até meados do século passado as meninas eram "dadas" a casamento entre 13 a 15 anos na quase totalidade, como um negócio. Ofertadas, a homens muito velhos, acima de 50 anos, não rato 70. Ainda por cima muitos dos velhos eram tios avôs das meninas. Pós casamento viviam vigiadas. Quem as vigiavam? -  Homens negros! . Por que?

            Nos casos das mulheres muito novas, quase meninas, casadas com homens velhos, havia a traição, ou por vingança ou por necessidade. Muitos dos namorados sonhados não se aventuravam.  Muitas  se entregavam a seus pajens, negros -  Tantas engravidaram e  todas foram assassinadas quando no  parto era descoberto. Matavam os três - a mulher, a criança e o negro,  pai. Registrado como "morreu de parto". Muitas mocinhas se suicidaram para não casar. Viúvas novas, da primeira viuvez, se suicidavam em grande quantidade para não casarem pela Segunda vez com quem não queria. Não tinha uma terceira opção: ou casar-se ou suicidar-se.

            Por quase um século em Pernambuco, nas imediações, até 30, 40 léguas, de Palmares, havia a terceira via a fuga. Fugir para Palmares. Lá a Santa Inquisição não alcançou, Palmares era território estrangeiro - O Quilombo - tinha regras próprias...

            Por que não eram "vigiadas",  por mulheres negras?

- Porque a mulher negra se conduia da sinhá e alcovitava o namoro; facilitava a traição, por ser mulher e por ser vítima da mesma vilania. Ambas detestavam os senhores.

E por que esta confiança doida no homem negro, já que ele não tinha mulher?

Haviam três razões: a) crença; b) o medo do senhor: c) um  motivo para sair do pesado, ir pra casa grande. Mas, a principal era a crença. O Senhor confiava era na crença. O negro não trairia sua crença. Sem sua crença não teria sobrevivido. Para Mestre Moraes, "é impossível pensar-se, compreender o negro sem seu misticismo, sem suas crenças".

 

            A História Oficial registra "a esposa branca de Zumbi". Vamos transcrever um texto "do casamento de Zumbi, com sua esposa branca". Sua esposa branca chamava-se Ana Vitória, e que veio a chamar-se, em Palmares de DANDARA. Este texto faz parte da peça teatral ZUMBI NA RODA, um ABC para Jorge Amado, de nossa autoria e que esperamos em breve levar aos palcos na Cidade de São Paulo.

            Ana Vitória tinha de 13 a  15 anos, estava prometida para o Alferes Albuquerque, de 70 anos, seu tio avô.  Ana Vitória fugiu para Palmares com  Zumbi. Ela fugira em  um dia de Festa na Vila, talvez no dia que se casaria com o Alferes. Em Palmares era permitida a poligamia. "Aqui está cheio de mulheres brancas fugidas - moças, casadas e até viúvas- fugidas do estupro oficial, do negócio horrendo"..

     ....  E cantaram para Ana Vitória a modinha Menina Flor. Alguns mouros tocaram arpa.              

A Rainha Mãe conversa com Ana Vitória... vai ao terreiro - pára o baile

"Meus  filhos, estou muito alegre; mas cansada; ... Ela ainda não aflorou (menstruou). Até lá ela ainda pode querer outro noivo. Expliquem a ela, "aqui menina não casa". ...

- E, saindo, passa a mão na cabeça de Ana Vitória... "Me deixe ir"...

 

            O estupro entre aquele povo era o pior dos crimes. Consciência trazida da África. Toda e qualquer violação sexual da mulher era aplicada a pena capital. Pena de morte. Morte sumária. Zumba aproveita e conta pela milionésima vez a Lenda de Iemanjá. Iemanjá, perseguida por Orugã, seu filho. Orugã! Rapaz, só naquele ermo. Orugã apaixona -se pela mãe. A mãe corre, corre, esvai-se, cai. Cai, sem forças, indefesa. Cai de frente, o peso do corpo contra o solo parte-lhe os seios.    Dos seios a vida se transformam em dois filhos.

            Um casal, para continuar habitada aquela parte da terra,  - matéria gerada da vida, dos seios de Iemanjá. Xangô vem e  "fuzila" Orugã. E ficou a lei. A lei terá de ser cumprida por séculos, e séculos. À violação da mulher - no estupro: a morte, sumaríssima...

 

        - A toda mulher é reservada uma das duas condições: ou ela é mãe ou ela é filha. A condição de esposa é a última das condições da mulher. Ante violentar a fêmea,   Olurum aceita o suicídio. Orugã foi um fraco. O mais fraco dos homens da África. Ododua, a Terra, é mulher, é dona de toda a reprodução que lhe pisa, que lhe habita. Não pode violentar Ododua. Ododua  se multiplicou em muitas fêmeas, de cada espécie uma fêmea. Para cada macho uma fêmea, obra de Obatalá. Nem um outro animal violenta a fêmea. Todos esperam a "afloração" de sua fêmea. Tossiu o General, e voltou:

- Só o europeu, só o homem branco violenta mulher; compra mulher; vende mulher! ....

 

            As mulheres - filha ou mãe - a nenhuma é dada a possibilidade de escolher ser mãe de alguém, ou ser filha daquela outra. Não há escolha!

            Mas a toda ela é possível escolher ser esposa deste ou daquele. É assim, Arrematou Zumba.

            Pois bem, aqueles nobre sabiam da lenda e do comportamento do negro relativamente ao estupro. E sabiam que a mulher alcovitava a outra. Tomava as dores da outra. O negro que estuprasse uma mulher branca ou negra era morto por outros negros, implacavelmente, mesmo na senzala, onde quer que fosse.

            As cerimônias da "afloração" variam de região para região; de povo para povo. Na África há cerimônia para rapazes e moças. Entre os nossos indígenas a cerimônia do "recolhimento da moça" reveste-se ainda de mistérios e de uns ainda desconhecidos exames, testes, exercícios.

            Também entre os indígenas não há caso de estupro contra a mulher.

            A Política de Desafricanização do Brasil nunca permitiu serem contadas estes fatos.

 

                                                           Andre Pessego, Berimbau Brasil

                                                           projetozumbi@uol.com.br

 


2006 - Ano Internacional da Mulher Capoeirista no Jornal do Capoeira




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