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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS
  26/03/2006
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E a Capoeira Escrafuncha Seu Passado
E a Capoeira Escrafuncha Seu Passado Coquinho Baiano

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br

Edição 66 - de 26/Mar a 01/Abr de 2006

 

André Pêssego

São Paulo, Capital

Março-2006

 

... cadê o gato? Foi pro mato. Cadê o mato? Fogo queimou,

brincadeira de criança

           

            Chega ser emocionante a sofreguidão com que os afeiçoados da Capoeira vêm escrafunchando sua História (dela). E, ai, me ocorre de fazer duas considerações a respeito:

 

1o) A que História se busca:

a) A uma História escrita? a ninguém interessava (ainda hoje) escrever  "um "a" sobre o negro, o que tinha o fogo queimou; (que analisaremos noutro artigo).

b) Busca-se os laudos condenatórios de ontem? - Os de hoje estão estampados nos batalhões militares armados  entrando e saindo nas áreas de sub-habitações das grandes cidades, ante a lógica  terrível e que se perpetua - não há negro rico; em favela só mora pobre - logo, o negro está ali.

c) A História oral? Dentro da Política de Desafricanização do Brasil, uma das formas de acabar com a identidade do negro foi desqualificar sua cultura, sua identidade, varrendo seus nomes, seus vocábulos, suas memórias. Assim, no âmbito da historiografia oficial, não conta a transcrição oral do negro. (Diferentemente para com o Cristianismo, a História Greco-Romana, e a mitologia roubada da África, todas orais e ensinadas em prosa e verso).

 

 2o) Entre as décadas de 1940 e 1950, houve o período de busca por Palmares.

a)      De Palmares foi pesquisado o possível e sistematizado como está escrito. O tal (sic).

b)     Ainda não houve o período de análise, de interpretação sobre Palmares. Cabe a nós.

 

Feitas estas duas colocações cabe uma terceira ponderação comum: Quem leu Palmares? Pode-se afirmar que uma fração de 1 por milhão de brasileiros. No passado, a História de Palmares foi vítima de três fatores secundários e de um fator determinante.  Vamos analisar apenas o fator determinante:  os possíveis leitores de Palmares não "pertenciam" a seus autores, e estes não detinham os meios de divulgação.

 

Abusando um pouco dos senhores leitores, fazemos mais uma indagação:

 

Da Capoeira, agora: quem está lendo os brilhantes artigos deste Jornal do Capoeira que estes incansáveis pesquisadores vem fazendo de modo tão didático, escrevendo cuidadosamente resumidos? Vamos direto aos fatores determinantes: A) Os autores e o público alvo se confundem, pertencem, de verdade, ao mesmo universo - A Capoeira. A leitura desses artigos depende exclusivamente da compreensão e vontade dos meus Mestres espalhados Brasil afora, em cada biboca.

     É verdade, trata-se de um Jornal Eletrônico e poucos tem acesso, ainda, a estes veículos. Mas nós temos a nosso favor a cópia fotostática, o famoso XEROX. Temos dois universos de mais que possíveis leitores: a) o aluno, o praticante; b) o visitante ocasional, o curioso, os pais enquanto esperam os filhos.

 

 

     ... Mais velho que revista de barbearia...

 

           Cortar cabelo é uma "coisa" tão antiga quanto necessária. Não havia necessidade do barbeiro/cabeleireiro agradar a quem quer que fosse. Mas as revistas estão lá - recortes de tipos e modelos de cortes os mais variados. O barbeiro/cabeleireiro está se mostrando um profissional progressista, "lido e corrido" como se dizia no Piauí. Tipos variados para o cliente escolher: qualquer que seja, o profissional/especialista está apto a fazê-lo. Competentes, cursos...! E a idade das revistas? Não importa, pois "informação não envelhece", me dizia um barbeiro, sem dinheiro para renovar o estoque. Informação, papel, revista, fotos, mudam conceito, e mudam na maioria das vezes para melhor.

 

            Não é visto, exposta na recepção de nenhuma academia, sede ou grupo de Capoeira, uma folha se quer, do Jornal do Capoeira;  uma folha destacada de nenhuma das outras publicações, pregadas nos quadros, ou nas paredes; como não é ouvido de  nenhum Mestre, nas suas pregações, qualquer menção a existência destes veículos setorizados.  Enquanto tenho visto, em visitas feitas de curiosidade, nas academias dos chamados esportes concorrentes da Capoeira - Jiu-jitsu, Judô, etc. - uma imensidão de materiais informativos, propagandístico mesmo; uma diversidade de jornais diários com matéria pertinente assinalada, revistas - diferençando do nível econômico entre academias, apenas pela idade das publicações.

            Cada Mestre de Capoeira, na sua grande maioria, não fala do Jornal, não avisa de sua existência por que o Jornal não falou dele; não leva as revistas que compra porque não tem matéria nenhuma sobre ele.  O famoso "este moço é Mestre? É Capoeira?", quem é ele para falar de Capoeira? Equivale a uma atitude pior que de integrantes de seita: As seitas se divulgam, só não admite conhecimento para fora de si. Meus Mestres se esquecem de que há um número grande de crianças, de jovens que passam mais tempo com eles, Mestres, que com os próprios pais, e que nesta ordem ele, Mestre, é responsável também pelo estímulo à leitura, responsável mesmo da educação formal dos seus jovens aprendizes.            

            Para Milton Gonçalves, "queremos discutir o tambor... a música, cultura; mas também queremos discutir - o destino educacional, política econômica, engenharia nuclear...". Isto quer dizer que há outros Mestres, e que seus saberes estão na grandeza dos saberes dos Meus Mestres de Capoeira; Mas tem também Mestre de Frevo; Mestres de Folia de Reis; Mestres de Vitalino; e, Mestres em Química, em Física, em Biologia, em Direito etc. e que é desta rendição que dará a mistura com a qual iremos ter condições para sustentar as formulações de uma política prática da nossa inclusão. Será desta capacidade de misturar-se que passaremos a ser vistos "como uma atividade sócio-educacional-cultural". A integração de nós, o Negro Brasileiro, é tarefa para a Capoeira,  e não a faremos sozinhos.

            Cadê o tocinho que botei aqui? O gato comeu. Cadê o gato? Foi pro mato. Cadê o mato, fogo queimou.... (e a vida tinha de continuar)...Cadê o fogo? água apagou...  chegava-se nos sovacos, na barriga, às cócegas... Esta brincadeira expressa o espírito do negro, a sua sobrevida. Para tudo a queima pelo fogo é o fim. Termina tudo. O negro inventou esta brincadeira, até chegar no "suvaco", para a criança correr, procurar valia junto a uma dada moça, ou rapaz, ou emissário; com isto o negro que brincava com a criança se aproximava e enquanto desvencilhava-a das pernas "do socorro", dava o recado alcovitando o namoro proibido - o dia, o local, a hora da fugida... (lembrando que até meados do século XX, o casamento para a mulher e tronco para o negro estavam próximos). Com isto o negrinho, a negrinha, ganhava a simpatia do futuro casal, ia morar com este... E procriava, até... Esta é a vida do negro brasileiro - após as cinzas ainda é obrigado a continuar vivendo.

 

            Na foto estão Bruna e Luiza, na Roda semanal do Berimbau Brasil, a quem dedico "A duas Flores", poema de Castro Alves.

 

São duas flores unidas,

São duas RAÇAS (1) nascidas  = Raças que o Instituto Nacional do Livro

Talvez do mesmo arrebol,             trocou por rosas. Assim ensinava

Vivendo no mesmo galho,             Mestre Benício.

Da mesma gota de orvalho,

Do mesmo raio de sol.

 

 

André Pêssego - Grupo Berimbau Brasil

PALMARES, UM PROJETO DE NAÇÃO

 


2006 - Ano Internacional da Mulher Capoeirista no Jornal do Capoeira




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