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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS

  18/06/2006
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E ainda me chamam de radical...

E ainda me chamam de radical... Coquinho Baiano

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br

Edição 78 - de 18 a 24 de Junho de 2006

 

Acúrsio Esteves

acursio1@gmail.com

Salvador, Bahia - Junho de 2006

     

Algumas pessoas lendo meu livro A Capoeira da Indústria do Entretenimento, acham que a minha crítica às modificações impostas pela "sociedade do espetáculo" à capoeira é por demais contundente e até mesmo descabida. Elas acham que as "novidades" colocadas no jogo com o intuito de atrair espectadores são válidas. Continuo entrincheirado nas minhas convicções e com razões de sobra para tal atitude. Senão vejamos:

No mês de abril tive o prazer de receber como hóspede o administrador do site Portal Capoeira, Luciano Milani (foto), que em merecidas férias aproveitava o tempo livre para pesquisar capoeira "na fonte" aqui em Salvador, mantendo uma extensa agenda na qual constavam encontros com mestres como o Mestre Decânio, Mestre Pelé da Bomba, Mestre Gagé, Mestre Bola Sete dentre outras personalidades da capoeira. Agendadas também estavam visitas à instituições como a Associação Baiana de Capoeira Angola e academias como a Fundação Mestre Bimba do Mestre Nenel.

Eu, cumprindo o papel de cicerone sempre que minhas atividades acadêmicas permitiam, estava no Pelourinho com Milani e resolvemos fazer uma visita a uma academia para conversar um pouco com o mestre da casa. Ao chegarmos ele não estava, porém, tinha um monitor ou professor dando aula para uns três estrangeiros. Paramos para olhar quando, estarrecido, verifiquei que o referido professor estava dando a aula em (péssimo) inglês, talvez na tentativa de "agradar os clientes" ou talvez até de "se mostrar diferenciado" em relação aos demais profissionais da área que dão aula em português.

Ora, um dos orgulhos culturais que a capoeira carrega é o de propagar aos quatro cantos do mundo o nosso idioma... Aí meu camarada, é complicado aceitar este argumento. Minha mãe usava muito um ditado popular que diz: "Quem muito se abaixa o rabo aparece...".

Esta subserviência, baseada na idéia que temos sempre que agradar os de fora ainda que para isso sacrifiquemos nossos bens culturais, não pode continuar. Temos que dar um basta!

No dia 31/5 ao assistir um noticiário local, me chamou a atenção a matéria  que apresentava um grupo de mulheres capoeiristas que iria fazer uma turnê na Europa e salvo engano, estaria na Alemanha durante a Copa do Mundo apresentando a arte brasileira da capoeira aos gringos. Tudo estaria nos conformes se eu não tivesse notado (maldito olho crítico) alguns detalhes na apresentação que elas fizeram para uma rede de TV local.

O que primeiro me chamou a atenção foi que na bateria estava constando como instrumento o nosso velho e querido violão. VIOLÃO... é mole ou quer mais? Relutei a acreditar no primeiro instante, porém, as imagens seguintes confirmavam que não precisaria ir com urgência no dia seguinte ao oftalmologista; era mesmo um sonoro violão, ali, bem ao pé do berimbau.

Pergunto: Onde nós vamos parar? Ou "O que estará por vir"? Daí para a guitarra elétrica ou instrumentos de sopro é um pulo. Eu já tinha visto o Balé Folclórico da Bahia colocar um "surdão", mas violão era a primeira vez. Talvez até seja ignorância da minha parte porque, se a gente reparar bem, tanto violão quanto berimbau tem corda né? Afinidades...

Se vocês pensam que a "performance" das meninas pára por aí estão  equivocados. Elas usavam um modelito azul, com a camisa em pontas amarrada no meio do tórax e calça com vários e sobrepostos babados em cascata, fartos e coloridos abaixo do joelho. Algo mesmo espetacular!

Acho bem apropriado para a ocasião tomarmos por empréstimo a fala de um dos grandes retóricos da história, Marco Túlio Cícero, 106 aC a 46 aC. São famosas suas catilinárias, discursos contra um político da época, um certo Catilina, senador como ele próprio. Na sua mais famosa fala sempre citada em todo o mundo ele dispara contra seu desafeto:

 

- Quousque tandem, Catilina, abutere patientia nostra? Que em bom português significa: Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência? Fazendo uma adaptação ao nosso caso questiono: Até quando, oportunistas, abusarão de nossa paciência? É simplesmente lamentável constatar estes abusos... E ainda me chamam de radical!

 


 

   O professor e pesquisador Acúrsio Esteves, é formado em Educação Física pela UCSal, com mestrado em Gestão de Organizações UNIBAHIA/UNEB e é professor da Secretaria Municipal de Educação de Salvador. Leciona também nas Faculdades Jorge Amado e Fundação Visconde de Cairu, respectivamente nos cursos de Educação Física e Turismo, sendo também autor dos livros Pedagogia do Brincar e A "Capoeira" da Indústria do Entretenimento, de onde foi retirado este fragmento de capítulo.

    Contactos: (71) 3233-9255 / 9946-4743 - acursio@oi.com.br, acursio1@gmail.com

 


 

2006 - Ano Internacional da Mulher Capoeirista no Jornal do Capoeira




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