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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS

  30/04/2006
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ELEIÇÕES 2006 - o galo já cantou, ACABOU A NOVA REPÚBLICA

 ELEIÇÕES 2006 - o galo já cantou, ACABOU A NOVA REPÚBLICA Coquinho Baiano

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br

Edição 71 - de 30/Abril a 06/Maio de 2006

 

André Pêssego - São Paulo

projetozumbi@uol.com.br

29 de abril de 2006

(II) Entram em Cena os Intelectuais da Capoeira

 

"Não sei como possa alguém alegrar-se com o berimbau."

                                                  Câmara Cascudo, 1954

 

            O galo já cantou,  ( PEQUENO ASSIM MESMO)

            Na primeira metade da década de 1980, entra em cena, (se torna conhecido) O GALO JÁ CANTOU, de Mestre Nestor Capoeira. Vamos fazer uma abordagem rápida para consumo interno: Quando apareceu, o livreto era comprado pensando-se num manual - faça isto, faça aquilo, depois aquilo outro - e havia os que "não levando jeito" já pensavam - "olha eu na fita". Nada disto - "Ih! Não era o que eu queria"... Porém a urdidura bem feita não causou decepção. Ao contrário passava de mão em mão. E ele produziu efeitos imediatos e de grande valia:   nós, nos familiarizamos com o termo e com a idéia Universidade; nestes 20 e poucos anos houve um aumento significativo de capoeiras nas universidades, assim como universitários  "entrados" na capoeiragem.  E até a uns 10 anos havia o estímulo, até a cobrança por muitos e muitos mestres neste sentido.

            Mas vamos ao contexto nacional, da titulação enunciada.

            À famosa citação de Pe. Fernão Cardim, sobre como passaram o Natal de 1585 - "...o Irmão Barnabé nos alegrou com seu Berimbau",  Câmara Cascudo se lhe referia  passando um "pito" em Mario de Andrade que dedicou o capítulo final de seu livro mais famoso "Música Doce Música" ao soberbo instrumento. Consta que Mário, por acaso viu um grupelho cantando e tocando o Gunga; parou ouviu, conversou com alguém, trocou informações e foi à Índia e outros países, informar-se.  Consta também que Mário, letrado e culto, ao saber da "censura" nunca mais trocou impressões com Câmara Cascudo - sabia do amigo, o cabedal de conhecimento e a ignorância cultural, a par e passo. Esperou-se também embate insano entre o intelectual da nobreza e o intelectual negro, o dia em que lhe tivéssemos. Ledo engano. Ele surgiu, e que se pode constatar é o início de um novo ciclo no Círculo da Abordagem da Correlação Étnica Brasileira, vejamos.

 

a)      Autoria X autoria - Tudo quanto foi escrito sobre o negro, foi feito pelo não negro; mesmo que tenha sido feito por "um" negro - foi pensado em um pensamento não negro. O intelectual de raça negra, fora da Capoeira, não aprendeu, e não encontra espaço para se expressar como negro, porque o Espaço Terra não está  com ele; Sem a terra, o que "ele" escrever será no máximo um texto técnico.. Quem dispõe das condições - local, divulgação e leitor para um pensamento de matiz negro, no Brasil?   - A Capoeira. A Capoeira se torna autora de matiz negro porque adquiriu caracteres de um grupo étnico, negro. O autor "capoeira" se identifica como tal. E, é. Diferente dos autores que escreveram sobre as "crença", estes balizavam  seus escritos - por mais que se esforçassem,  na crença alheia e antagônica, a sua já estava adulterada, milenarmente.

b)     Espaço x mercado - A Terra, Espaço, Base, sustenta o homem em todos os tempos. O negro da Capoeira "criou um espaço",  no seu imaginário. Mestre Nestor Capoeira, fareja (na capoeira se fareja)  descortina-o e neste  espaço entra com uma proposta rica, a qual vem experimentando. Entra, no Espaço que ele também "habita". Neste espaço ele ajuda a criar um mercado; com este mercado a "Capoeira firma-se como um grupo étnico". Neste espaço - neste universo - quase um povo, a Capoeira se digladia - para ser vista, ter força, para ver se tem resistência.

 

 

Mestre Nestor Capoeira, ao centro - FONTE: www.nestorcapoeira.net

 

           Esta metamorfose não é nenhuma novidade - já tinha acontecido com o judeu;  com o cigano. Como e onde viveu o povo judeu por séculos antes da criação do Estado de Israel? - Num território imaginário. Neste espaço imaginário ele se fez mercador, criou um mercado, digladiou-se, provocou uma cisão entre as nações do mundo - teve estados contrários e estados aliados.

c) Interesses x Interesses - Voltemos a Nina Rodrigues -   falecido em 1906, (na História Natural); seu livro mais famoso, Os Africanos no Brasil, só foi publicado, (pelo Estado), em 1933, (já na Biologia). Nina, vivo, talvez não o publicasse. Ao contrário, talvez na Era Vargas viesse a defender a sua tese do "tratamento desigual", fundamentada em que  "O negro chegou na República diferente," era prudente que se "lhe dispensasse tratamento diferentemente privilegiado," não na urdidura do incapaz, como se tem dito. Até à segunda metade do século passado, toda abordagem no Brasil virava uma contenda - Bahia x Pernambuco; São Paulo x Rio de Janeiro; Maranhão e Ceará x Sul do Brasil, etc..  A  capoeira não entrou pelo varejo; e não deu ouvidos nem atenção ao tecnicismo, já em moda desde 1964,  inventado  para empanzinar-se dos cofres públicos, a mesma nobreza da verborragia; a Capoeira se apegou a tudo quanto é válido; teceu suas verdades, (dispensou Ruy Barbosa e se apegou a Bimba, Pastinha, Max, etc.) - o novo, e o novo é temido pela velha ordem;  se esforçou para o racional... entrou e se abancou... "Sou jogo, sou dança, sou folclore, folguedo, mas também sou luta", como advertem meus Mestres por aí. Por enquanto só estão no coro, ninguém se apresentou para entrar na Roda.

 

            NÃO SERÁ FEITO OMELETE SEM QUEBRAR OS OVOS!

 

Não há ninguém tolo: Dar algo AO NEGRO significa sim,  direcionar-lhe algum privilégio.  Isto é, ratear entre a Nação como um todo o que for possível. Não há, nem pode haver meia-palavra - integrar o negro passa obrigatória e imediatamente por um acréscimo patrimonial, tenha o nome que tiver; passa pela posse da terra, necessariamente.

Assim, a Capoeira, por Mestre Nestor, nesta análise, inicia a uma abordagem que tem o mérito de mostrar que a integração do negro nada vai tirar do bolso individual de quem quer que seja - ao contrário, vai equanimizar o  mercado. Foi criando mercado que a Capoeira saiu por aí batendo pernas e varando o Mundo. O fator mercado sempre abalou estruturas e conceitos  em todos os momentos da História, neste século abalará como em nenhuma outra época.  Qual o futuro do Brasil? - a incorporação do negro ao mercado.

A crise do Fim da Nova República vai desaguar no bojo de uma nova Constituição, inevitavelmente.  Ora, todas as agremiações políticas estão hoje, no "fim da crise", desmoralizadas; um sem número de outras instituições, idem. Das Instituições de Estado só o Presidente Lula e o Ministro Gilberto Gil estão inteiros. O intelectual capoeira será o interlocutor popular de maior representatividade. Ora, a Capoeira é a "coisa" mais misturada e mais igualitária do Brasil a única que não chegará desacreditada; que não tem mácula do passado.  A futura Constituição não se voltará para espólio, e só terá legitimidade com a participação do negro como todas as outras. Para o Brasil poder ganhar, alguém terá de perder.  Este alguém a perder não será o negro, nem mais um dia. Não há meias-palavras.

 

 

Mestres Nestor Capoeira e Camaleão, vadiando no Morro do Turano, Tijuca, Rio

 

            Ao lado de Mestre Nestor, há outros e tantos outros, no mesmo diapasão para o País. O que distinguiu a "Capoeira os Fundamentos da Malícia" foi o resultado, mesmo com a despretensão do autor. Aproveitando convém pedir aos meus mestres - espalhados Mundo a fora, Brasil no meio, - vamos fazer um novo esforço, uma nova cruzada, recomendado, cobrando, exigindo desta juventude, desta meninada dos nossos grupos, cuidado,  interesse pelas Universidades;  o objetivo antes de ser a próxima graduação que seja  - o colégio, o cursinho, a Universidade.

 

André Pêssego, Berimbau Brasil, SP-SP

projetozumbi@uol.com.br

 


2006 - Ano Internacional da Mulher Capoeirista no Jornal do Capoeira




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