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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS

  16/03/2006
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Festival de Cordas, Cordéis, Cordões e Fitas

Artigo publicado originalmente no Jornal A Notícia, por Juca Reis, codinome assumido por André Luiz Lacé Lopes, quando assinava a coluna Roda de Capoeira daquele jornal.

Festival de Cordas, Cordéis, Cordões e Fitas Coquinho Baiano

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br

Edição 65 - de 19 a 25/Mar de 2006

 

André Luiz Lacé Lopes (*)

Jornal A Notícia, RJ- 1996

 

Nota do Editor

Cresce, dia a dia, o interesse pela Capoeira em geral, cresce, também, o interesse por cada uma de suas partes: "fundamentos e mensagens dos cantos", "variações rítmicas", "a verdadeira luta de capoeira", "lutas e danças similares (Nadja, Moringue, Savate etc)", "a Capoeira do Maranhão", "importância do fator Negritude", "Capoeira e política", "Capoeira e Administração Pública", "profissão de mestre", em suma, uma lista interminável. Que não pára de crescer, como se poderá notar pelas matérias recentes sobre a utilização de cordéis para marcar a hierarquia dentro da Capoeira.

O camarada Irapuru Iru Pereira, do Grupo Angoleiros da Barra (GABA), de Barra do Corda, Maranhão, fez uma chamada na Edição 63 do Jornal do Capoeira: E A CORDA, QUEM INVENTOU?

Mais uma vez nos socorremos do nosso modesto acervo e encontramos razoável material a respeito. Destacamos e republicamos nesta edição, o artigo "Festival de Cordas, Cordéis, Cordões e Fitas", publicado no Jornal A Notícia, do Rio de Janeiro, em 21 de dezembro de 1996, transcrito na primeira edição do Livro "A Volta do Mundo da Capoeira", em 1999 e, reproduzido em vários sites e jornais de capoeira. O assunto merece algo mais completo e profundo, mas o artigo, como todos artigos de André Luiz Lacé Lopes, oferece informações e críticas que merecem a atenção de todo e qualquer interessado em Capoeiragem.

Muitos trechos parecerão anacrônicos, mas fique o leitor atento a data do artigo (1996!). Ou seja, o que temos aí também é um respeitável retrato do processo de institucionalização da capoeiragem na época da primeira publicação do artigo.

Todos leitores concordarão que se trata de excelente tema para os inúmeros eventos nacionais e internacionais que serão realizados,  neste ano no Brasil, com propósitos de se pensar, discutir e deliberar sobre Capoeiragem.

Na próxima edição, no artigo "Cordas, Cordéis, Cordões e Lenços e Fitas - Considerações sobre o emaranhado das graduações na capoeira", trataremos de explorar um pouco mais esse tão demandado tema.

 

Miltinho Astronauta



 

 Festival de Cordas, Cordéis, Cordões e Fitas

 

André Luiz Lacé Lopes (*)

Jornal A Notícia, RJ- 1996

 

Escrevemos, na semana passada, sobre uma possível "União Geral das Diversas Uniões das Capoeiras" (o autor refere-se ao jornal A Notícia). Realmente as tentativas no sentido de uma grande união, de uma união geral estão proliferando, fazendo com que os eternos gozadores de plantão comecem a afirmar que o  ideal é uma "união geral para cada mestre". 

Mesmo assim, vejo o fenômeno com otimismo, não tenho dúvida de que desse excesso de soluções  surgirá uma solução de consenso.  Final feliz, para a Capoeira e para os capoeiras, que poderá ser acelerado se o Governo Federal (Ministério Extraordinário de Esportes, INDESP) resolver entrar nesta Roda.  No momento, não vejo outra alternativa mais rápida e eficaz, ou seja, o INDESP promovendo uma grande mesa redonda com os representantes dos principais movimentos. Claro, nesta reunião - histórica - estariam presentes figuras que valem por um movimento inteiro. Além de apoio multidisciplinar - sociólogos, antropólogos, administradores, advogados, educadores, maestros - e de visão-ação interdepartamental (na área federal, só para dar um exemplo, o melhor trabalho em prol da capoeira, em l996, foi feito pelo  Ministério da Cultura).

Um dos assuntos nucleares para esta "grande mesa redonda federal" (mundial!?), seguramente, será a Torre da Babel dos Cordéis, Cordas, Cordões e Fitas tentando definir uma hierarquia dentro da Capoeira. Este é justamente o nosso assunto de hoje.

Para não complicar muito comecemos com a definição feita pelo regulamento oficial da capoeira como aprovado em l972. Inspirada nas cores da bandeira brasileira que, por sua vez, inspirou-se nas características naturais do próprio Brasil, tomou a seguinte forma:  1º estágio - cordel verde, 2º - cordel verde-amarelo, 3º - amarelo, 4º - amarelo-azul, 5º azul (formado), 6º - verde-amarelo-azul (contramestre, mestre de 1º grau - cordel branco-verde, mestre de 2º grau branco-amarelo, mestre de 3º grau - branco-azul, e mestre de 4º grau - cordel branco.  Não tendo ainda em mãos o trabalho feito, recentemente, pelo Mestre Damionor Mendonça, estou utilizando como fonte de informação a apostila básica elaborada pelo Mestre Bogado para todos os cursos da Associação de Capoeira Barravento (sede em Niterói, Rio de Janeiro).

Sem mesmo procurar conhecer os fundamentos da hierarquia acima resumida, alguns mestres resolveram criar hierarquia própria. Alguns até passando a chamar cordel de corda ou cordão (a utilização de fitas, salvo engano, pertence ao Mestre Carlos Senna e data de muito antes das demais).

De qualquer maneira a disputa virou um verdadeiro "festival de alternativas discutíveis e até suspeitas", todas elas contrariando frontalmente a essência da capoeiragem. O que de um lado, com boa vontade, pode ser entendido  como a comprovação da criatividade infinita da capoeiragem,  por outro, pode muito bem ser  entendido como mecanismos criados com segundas intenções, intenções que não ajudam à Capoeira, e sim a terceiros. Segundas intenções ditadas por simples vaidade ou por ganância. Não será por aí que chegaremos à solução maior, magnânima, que contemple os verdadeiros fundamentos desta fascinante arte.

Mas que fique claro, não estou tirando a razão de quem tentou ou está tentando implantar seu próprio padrão de hierarquia, apenas estou sugerindo que já está na hora de uma reflexão mais profunda sobre o assunto, com vistas a uma grande fusão, não tanto de cordéis (ou cordas, cordões etc etc), mas de fundamentos.

   Cordéis ou similares, caso sobrevivam (espero que não sobrevivam), deverão representar os fundamentos da Capoeira. O que não está ocorrendo.

Apenas para ilustrar, a seguir, apresentamos algumas alternativas criadas para o padrão oficial aprovado, em 1972, pelo então Conselho Nacional de Esportes. Para começar, a própria Confederação Brasileira de Capoeira já introduziu algumas modificações. Vários outros grupos, entretanto, como a Senzala-regional, o Abada, a IUNA e a Muzenza preferiram partir para uma hierarquia própria. Valendo lembrar que todas essas tentativas estão sempre acompanhadas de justificativa, por vezes, digamos, excessivamente "mística": "Cinza: vem das cinzas e as cinzas retornará"; "Laranja: representa o fruto que está nascendo dentro da capoeira"; "Azul claro: quer almejar os céus"! Etc...

O Abada-Capoeira (Informativo nº 4, setembro/outubro 963) estabeleceu dezessete níveis: 1. Corda crua, 2. Amarela/crua, 3. Amarela, 4. Amarela/laranja, 5. Laranja. 6. azul/laranja, 7. Azul/verde, 9. Verde, 10. Roxa-verde, 11. Roxa, 12. Marrom/roxa, 13. Marrom, 14. Vermelha/marrom, 15. Vermelha, 16. Branca/vermelha, e 17. Branca.

O Grupo Muzenza (fonte: Jornal Muzenza, outubro, 96), por sua vez houve por bem definir 13 níveis para adulto: 1. estágio inicial: cinza (iniciante), 2. laranja (iniciante), 3. azul claro (iniciante), 4. verde (aluno graduado), 5. amarelo (aluno graduado), 6. azul (aluno graduado), 7. branco/roxo (contramestre 1º grau), 8. branco-marrom (contramestre 2º grau) 9. banco/vinho (contramestre 3º grau), 10. Roxo (mestre 1º grau), 11. Marrom (mestre 2º grau), 12, vinho (mestre 3º grau) e 13. Branco.  O Grupo Muzenza estabeleceu, ainda, uma graduação específica para alunos até 15 anos: cinza/claro, 2. Laranja/branco, 3. Azul/claro, 4. Verde/branco, 5. Amarelo/branco e 5. Azul/branco.

O Grupo IUNA (Mestre Santana, São Paulo), salvo engano, procurou fazer uma conciliação do padrão oficial inicial (Confederação Brasileira de Pugilismo) e o padrão ABADÀ (fonte: Boletim Capoeira IUNA, dez/93), não resistindo, entretanto, a exemplo do Grupo Muzenza, à tentação de hierarquizar o mundo infanto-juvenil.

Mestre Paulo Gomes (Associação de Capoeira Ilha da Maré), manteve a tradição, ou seja, nada de cordas ou cordéis, nada de imitar soluções orientais, nada de fragilizar o capoeira inventando uma corda para ele, eventualmente, nela se enforcar. Paulo Gomes preferiu uma solução que merece  reflexão profunda de todos nós: 1. Fase inicial (espécie de estágio probatório)  sem uniforme especial; 2. Batismo: calça preta e camisa branca com cola preta; 3. Calça branca, lista vertical preta, camisa branca e gola preta; 4. Tira a lista preta da gola da camisa, fica todo de banco: formado para aula (mestrado); 6. Casaco de cetim (professor de capoeira), amarrado na cintura (o branco é o símbolo máximo da capoeira).

Sem querer esgotar a questão, não posso deixar de transcrever a opinião do Professor Inezil Penna Marinho ("Ginástica Brasileira", Brasília, 1981).

 

-   "A hierarquização dos cordéis, segundo o nosso entendimento, deveria obedecer aos sete "Domínios de Irradiações dos Orixás", que correspondem "as sete fases sociais do negro. As linhas de Orixás são as seguintes:

 

1ª  -  Linha de Iemanjá - na iconografia religiosa representa a linha que reina nas areias e no mar; cor representativa do Orixá: azul.

2ª - Linha de Xangô - No sincretismo religioso representa a linha protetora do céi (Olorum) e da terra (aganju), a linha que leva o batismo espiritual a todos que nascem e vivem na terra; cor representativa: marrom.

3ª - Linhas de Oxossi - Representa a linha guardiã das matas; cor representativa: verde.

4ª - Linha de Oxum - representa a linha protetora das águas doces e das cachoeiras; cor representativa: amarela.

5ª -Linha de Iansã - Representa a linha que preside os ventos e as tempestades; cor representativa: roxa.

6ª - Linha de Ogum - representa a linha guerreira; cor representativa vermelha.

7ª Linha de Oxalá - Na iconografia religiosa é o orixá maior, chefe supremo, linha que tem irradiação universal: core representativa: banca".

 

A respeito desse assunto, continua o Prof. Inezil Penna Marinho, indicamos a leitura do trabalho "Síntese do Sistema de Graduação Fundamentado no aspecto místico-religioso do negro", de autoria de Mestre Zulu.

Devo declarar que, de todas as tentativas de simbolizar cada grau hierárquico na capoeira, está me parece a mais instigante. No seu bojo, vamos encontrar a origem mais remota da capoeira, seus fundamentos filosóficos, espirituais e religiosos, noção de justiça (Xangô!!), preocupação ecológica e inspiração poética. Mas, não ousem mergulhar muito fundo nessas águas misteriosas e fascinantes. Conversei com vários especialistas e seguidores praticantes de cultos negros, todos concordaram que o mote era instigante, mas, todos concordaram, também, que existe meia dúzia de obstáculos perigosos, talvez até instransponíveis.

 Para começar não existe apenas um culto afro-brasileiro, existem vários; não apenas várias linhas de Candomblé, mas, também, várias linhas de Umbanda. Qual escolher como paradigma da  hierarquia da Capoeira (supondo, apenas raciocinar, que esta idéia burguesa de estabelecer uma hierarquia militar não afronte os verdadeiros fundamentos da Capoeira)?

Se temos um Ogum dançando Capoeira no Candomblé (com direito a toques específicos pelos alabês), temos, também, na Umbanda, os encantados Zé Pilintra (foto),  Marinheiro, Malandrinho, Maria Padilha jogando, de vez em quando, sua capoeiragem...

O assunto  é apaixonante e, caso o leitor queira aprofundá-lo, como preliminar de fundamental importância, aconselho a percorrer as melhores corimas do Rio e da Bahia (com todo respeito às "roças" dos demais estados - algumas fortíssimas - e as corimas do resto mundo, do Uruguai à África, passando certamente pelo Caribe e - pasmem! - pelos Estados Unidos e Europa.  Ao final dessa "volta do mundo" muito especial, talvez o leitor não saia com um estudo pronto sobre hierarquias, mas, em compensação, estará entendendo muito mais sobre boa parte dos fundamentos da  Arte Afro-Brasileira da Capoeiragem.

Muito bem, voltando  ao tema geral deste artigo, o fato é que os exemplos proliferam, aqui no Brasil e - o que é muito perigoso - no exterior. Contrapondo-se às cordas e cordéis, numa resistência  heróica e bem sucedida, vamos encontrar a solução dos Angoleiros.  Domingo passado, tive o prazer e a honra de participar da festa de fim de ano do Grupo Capoeira Só Angola (Santa Teresa, RIO).  Vários mestres prestigiaram a festa, inclusive o excelente contramestre Valmir Damasceno (Grupo Pelourinho, Mestre Moraes, Salvador). Obviamente, ninguém utilizava corda ou cordéis. Pois muito bem, ao final da Roda, qualquer um, especialista ou não em capoeira, sabia dizer, com exatidão, quem tinha sido mais mandingueiro, quem deu a melhor volta do mundo, quem tinha cantado melhor e mais adequadamente (em função da dinâmica de cada "vorta do mundo")...

Pensem nisto, camaradas.                                                                                        

 

(*) Artigo publicado inicialmente no Jornal A notícia, Coluna Roda de Capoeira, de Juca Reis (André Luiz Lacé Lopes). Rio de Janeiro, Domingo - 21/21 de dezembro de 1996.

Transcrito no Livro "A Volta do Mundo da Capoeira", 460 páginas. RJ / 1999.

 


2006 - Ano Internacional da Mulher Capoeirista no Jornal do Capoeira






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