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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS

  29/01/2006
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Juca Reis mulherengo e a Mulher Africana

Crônica de Mestre André Luiz Locé Lopes, versando sobre Juca Reis, com transcrição de um artigo publicado em jornal de 1890

Juca Reis mulherengo e a Mulher Africana Coquinho Baiano

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br

Edição 58 - de 29/Jan a 04/Fev de 2006

 

André Luiz Lacé

Leblon, 21.fev.2006

 

Prezado Miltinho Astronauta,

 

            Parabéns pelo seu Jornal que, pouco a pouco, vai preenchendo significativa lacuna nos meios de informações aos capoeiristas. Informações, diga-se de passagem, sempre muito valiosas e mais do que oportunas, apresentadas com competência, isenção e respeito ao leitor.

 Muito feliz, também, a sua idéia de transformar 2006 no Ano Internacional da Mulher Capoeira. Não por coincidência recebo um excelente trabalho em Power Point sobre a Mulher Africana ("MulenbaXangola"). É um bom começo, sugiro que você divulgue a obra prima pelo seu jornal.

 Igualmente apreciável é o trabalho posto recentemente no ar, no  seu Jornal, sobre "FLUXOS E REFLUXOS DA CAPOEIRA - Brasil e Portugal Gingando na Roda"  (Mestre-Doutor Falcão).  Que, com toda razão, cita alguma coisa do capoeira Juca Reis.  Boa parte do mencionado artigo, como não poderia deixar de ser,  foi garimpada em Portugal, pais que, por uma razão ou por outra, estou sempre visitando. E, na medida do possível, garimpando também informações sobre a nossa capoeira. Algumas delas guardo a sete chaves esperando momento oportuno que nunca chega, por isto, e considerando o mérito do seu esforço, mando  interessante crônica sobre o desterro do nosso famoso Juca Reis. Um dos maiorais do grupo seleto denominado de "moços bonitos" que vinham para a Colônia na esperança (esperança dos pais e da família) de se tornar um "homem de Bem".

 

Uma vez no Rio de Janeiro, Juca aprendeu capoeira com a "ralé" e levou a arte para os salões elegantes "azarando" as moçoilas elegantes e arranjando muita briga.

No fundo, em alguma medida, repetia-se a velha escrita: "avô nobre, pai rico, filho pobre", fenômeno que ainda acontece, com ou sem o componente capoeiragem.

Da crônica, que ora lhe passo, guardo apenas a ilustração (retrato falado de Juca Reis), raríssima, posto que o velho Conde de Matosinho, muito poderoso, praticamente proibiu a mídia de fotografar o filho (muito menos que se falasse em capoeiragem).  Também, de propósito e por razões óbvias,  não cito agora minha fonte. Mas adiante o farei.

 

 A crônica a seguir, mesmo incompleta, lança muita luz sobre o assunto, inclusive surpreendendo alguns pesquisadores que ainda fazem confusão em relação ao título de Conte do Matosinho ("seria do pai ou do irmão?").

Vamos à crônica publicada  em 1890.

 

 


 

"JUCA   REIS

 

Partiu hontem para Fernando de Noronha, a bordo do paquete Arlindo, da empresa Norte-Sul, José Elysio dos Reis, que se achava preso por ordem do dr. Sampaio Ferraz, chefe de polícia da Capital Federal.

Às duas horas da madrugada de hontem, compareceu na casa de detenção o sr. Tenente Pereira e Souza, do corpo militar de polícia, ajudante de ordens do sr. Dr. Sampaio Ferraz, e declarou que estava encarregado de acompanhar o preso durante a viagem.

A ordem para embarcar não foi uma surpresa para Juca Reis, que estava preparado pra a viagem. Achava-se muito abatido; emagreceu bastante nestes últimos dias; tinha a barba e o cabelo crescidos, e uma pallidez marmórea.  Trajava um terno de casemira escura e chapéo preto.  Um bello typo romântico, que parecia evadido de uma página sombria de Montepin.

Exhibido o competente documento oficial, Juca Reis foi entregue ao sr. Tenente Pereira e Souza, que lhe ofereceu logar n`uma carruagem da Companhia Fluminense, parada à porta da Detenção. A carruagem seguiu immediatamente para o caes Pharoux.

Juca Reis e o sr. Tenente Pereira e Souza embarcaram numa lancha especial, que os conduziu a bordo do Arlindo, onde chegaram às 4 horas da manha.

Noutra lancha embarcou o sr. Dr. Agostinho Vidal, 4º delegado de polícia, acompanhado de uma força de 16 praças do regimento policial, e essa segunda lancha acompanhou o vapor até fora da barra. Chegando ao paquete, Juca Reis subiu immeditamente para o tombadilho, e ahi se conservou, num passeio agitado, até 7 horas da manhã. A essa hora atracava ao Arlindo uma lancha a vapor, na qual ia o sr. Conde de S.Salvador de Mattosinhos, irmão de José Elysio dos Reis.

Este, ao avistar seu irmão mais velho, desceu do tombadilho. O Encontro foi commovente, como bem hão de imaginar os nossos leitores. Os dois irmãos dirigiram-se para a sala de jantar do paquete, e ahi conversaram intimamente até a hora de levantar ferros.

O sr. Sampaio Ferraz mandou dar a Juca Reis um beliche de primeira classe. O mesmo camarote é occupado pelo sr. Tenente Pereira e Souza.  Vão também a bordo os agentes Jacob e Ricardo, e quatro praças do regimento especial.

Um dos repórteres, engenhosamente disfarçado, assistiu a tudo quanto ahi fica narrado, desde a intimação dada ao preso da madrugada até o momento em que os dois irmãos, soluçando, se despediram.

O nosso repórter tentou por diversas vezes conversar com Juca Reuis, para trazer-nos um interessante interview, mas não foi possível arrancar-lhe uma palavra. O preso estava inteiramente succumbido.

Juca Reis nunca se photographou. Debalde procuramos o seu retrato: não houve meio de obtel-o  O que hoje offerecemos aos nossos leitores foi feito de memória por um talentoso desenhista amador, e dá apenas uma idéia muito aproximada do preso.

O Jornal XXXX é um jornal popular, como o seu título indica, e procura por todos os meios popularizar-e ainda mais.  Ora, a prisão de Juca Reis agitou a opinião pública; por pouco esse incidente não se transformou num acontecimento político.  É natural que procurassemos dar o retrato do causador de tanto barulho.

A agitação do público explica-se em duas palavras: Juca Reis é filho de um conde e irmão de outro conde, e a ambos esses fidalgos deve o nosso paiz inapreciáveis serviços.  Para Fernando de Noronha tem sido mandados os filhos do povo: era preciso, era urgente que o filho do fidalgo também o fosse. No nosso paiz já não há privilégios hierarchicos.

Ninguém mais do que nós lamenta o que se passou, e o fazemos por respeito que nos merece a honra memória de João José dos Reis, e pela sympathia que votamos ao ex-proprietários do Paiz, que nesta emergência deu provas de louvável amor fraterno; mas Sampaio Ferraz cumpriu o seu dever.  O rigor da polícia, n`uma república moralizada deve ser igual para todos. Honra a Sampaio Ferraz!"


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