| Login | Crie o seu Jornal Online FREE!

Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

Capa |  CAPOEIRA VIRTUAL  |  CRÔNICAS  |  EVENTOS  |  LIT.CLÁSSICA  |  NOTÍCIAS


 CRÔNICAS

  19/02/2006
  0 comentário(s)


Mestre Lua de Bobó :: Angola "Meninos de Arembepe"

Capoeira, aquilo que nos envolve

Mestre Lua de Bobó :: Angola Coquinho Baiano

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br

Edição 61 - de 19 a 25/Fev de 2006

 

Sérgio Jorge Burihan

Caraguatatuba, SP

Fevereiro de 2005

Nota do Editor:

Serginho Burihan é discípulo de Mestre Lua de Bobó e contramestre de Capoeira Angola, faz parte do Grupo Meninos de Arembepe e coordena o núcleo de Caraguatatuba, Litoral Norte do Estado de São Paulo. Atualmente Serginho dedica-se à seu mestrado em Antropologia, na PUC de São Paulo, onde desenvolve estudos relacionados à nossa Capoeira.

Ao tomar conhecimento de que nosso camarada estaria caminhando para Arembepe, não hesitei em "encomendar" uma crônica  versando sobre Capoeira Angola, Mestre Lua e Arembepe. Mais que simplesmente enviar uma crônica, Serginho conseguiu levar-me à Arembepe, fazendo-me sentir, mesmo que por momentos, como se também fosse um dos "meninos de mestre Lua".

Viajem, pois, vocês também, nos caminhos da Angola, ao "som" da crônica que apresentamos à seguir.

Iêê é mandingueiro,

Iêê é mandingueiro, camará...

 

    Miltinho Astronauta

 


 

Capoeira :: aquilo que nos envolve

Por Serginho Burihan

 

A imensidão do mar de Arembepe, a força dos ventos, a sombra do coqueiro que não para de gingar, a noite regada de estrelas cadentes, o cheiro de peixe, o balanço dos barcos, o som das ondas e as muitas histórias dos velhos homens do mar, o eterno ir e vir. Horas caminhando, pisando recife, areias, chão duro de todos os passos. num processo infinito de fortalecimento do ser.

Em Arembepe a lua se envolve no sol que pede licença a  madrugada e ascende a vontade de viver logo cedo. São os primeiros passos cortando o areal. Velhos, moços e crianças, como que saídos de seus casulos. Sempre com a disposição de uma primeira manhã. Olhos vidrados no mar. A vida em Arembepe gira em torno do mar, que por sua vez leva e trás a vida. Aquilo que nos envolve, são as ondas do Pirui, as rodas de conversa e conversa da boa! Rever os verdadeiros amigos e se reencontrar com os anseios, é o aproveitar (sorver), de uma conquista e a realização de desejos e sonhos tão reais que se tornam velhos camaradas. Aquilo que nos envolve. O suco de frutas demoradim da tia Marcí, tão doce e firme como o delicioso e hospitaleiro cafezinho de toda hora. A bondade de seo Lió, de Paulo Gude e de Vadinho, os lobos do mar. É o vigor e a determinação de tia Celina, de mestre Orelha e o conhecimento pesqueiro de Mimi. O coco natural do Jamelão e os banhos na piscina salgada ao som da mais brasileira das rádios baiana, as 6 da manhã, logo após dormir na areia,  na  cumplicidade companheira da esteira de palha.  É o despertar do mingau da "Coroa", quente e viscoso feito o clarão do sol. É o caminhar gingado e o sorriso no olhar "positividade" sincero e sábio de seo Lua, alias, de Mestre Lua de Bobó, bem de frente da nossa igrejinha, ali na  beira do mar! Disposto a surpreender a todo instante, nos permitindo até, que por alguns mágicos momentos, pertencer a uma estirpe digna, carregada de ancestralidade e fundamentos profundos, talhados à mãos fortes e precisas, mesclando suor e arte. Mestre Lua cultiva a grata missão de abastecer o fluxo de transmissão da espiritualidade, da clássica malandragem mandingueira. Fruto de um convívio primoroso com grandes homens de outrora. Mantendo viva a intricada chama da capoeira angola, unindo o passado e o presente, e de quebra, semeando o futuro. "Basta olhar a enorme quantidade de criança sob seus ensinamentos". Este ano ele nos preparou vários presentes. Situações de extrema riqueza. Além de suas tradicionais oficinas, que segundo alguns de seus mais fiéis adeptos, assemelha-se a um ritual, devido a grande presença de energia que emana. Descendo na negativa e saindo no role, lá fomos nós  pela historia de Arembepe adentro, caminhando sempre juntos, conhecemos o "cacimbão", onde os antigos arembepeiros se abasteciam da mais pura água potável. Hoje, infelizmente, o velho poço está entregue ao esquecimento e ao descaso. Mas a sua alma ainda jaz por lá. Deu pra notar pelos reflexos dos olhos de mestre Lua quando nos contava sobre as inúmeras idas e vindas ao cacimbão. "e era bem cedinho macho!".

Passos à frente, ou melhor, muitos passos depois (meu irmão, é brincadeira o que se anda em Arembepe!), a natureza nos brinda com mais uma das suas... pois no meio do caminho havia um rio. Que como todo bom baiano, lentamente nos convidava para seu leito. E para não fazer desfeita lá se foi a trupe! Refrescar o couro castigado de sol. Que banho generoso! Como que nos purificando para o que estava por vir.

A vivência no sitio de coqueiros, "nas terras da coroa!".  Carregado de bons fluidos, o sitio pertencente à família Borges da Cruz é um pedaço do paraíso tropical, mangueiras, jaqueiras, coqueiros, biribas, mangabas e macacos.  Foi neste universo de solo forte, que muitos foram apresentados a biriba em sua nativa moradia. Essa gentil e graciosa espécime da flora atlântica que nos concede a musicalidade de um instrumento ancestral. Que por sua vez, em pura ressonância,  nos conduz através de seu som peculiar ao coração da mata. Completando assim um ciclo vital. Naquela tarde cada participante do encontro pode desfrutar da construção de seu próprio berimbau. Escolhendo a madeira, a cabaça e trabalhando suas habilidades manuais. Ao mesmo instante em que a sombra das jaqueiras, das mangueiras e das pessoas se entrelaçavam em suas tarefas, Dona Maria (a Princesa), mãe do mestre Lua, cuidava com carinho e sabedoria do preparo do alimento do grupo. Juntamente com a Nilzete (coroa), a  Maril, a Taiana (perola negra) e a Luiza.

Aos poucos o silêncio da mata, por vezes invadido pelo vai e vem de uma serrilha de arco, ou mesmo um deslizar de lâmina de afiada faquinha, do barulho da lixa misturada a tenção depositada na esperança de se obter um bom instrumento, da troca de energia entre "o criador e a criatura", da conversa calada e do olhar profundo na madeira. Esta atmosfera, enfim, ganhava a companhia da pluralidade singular dos gungas, berimbaus e violas. Feitos ali. Os parentes distantes do mulubumba e do urucungo. O som se espalhou pela mata e ecoou nos quatro cantos do campo de mandinga. Os berimbaus saudavam o solo. Feitos ali mesmo! Com os pés no chão, na terra. Na fonte. Soavam bonito, regidos pelo maestro Lua de bobó.

"meu berimbau é de biriba! Mestre Lua me ensinou!".

Não demorou um nada e já estava formada a roda ao pé da jaqueira, a vadiação correu solta. Foi como nos tempos de antigamente, levantando poeira do chão, terra no rosto, mãos e pés, pés e mãos, entregues ao sabor do chão, rodeada de berimbaus, foi lindo, algo que comoveu a muitos. Ao findar da vadiagem, lá estava a mais autentica representante da cordialidade baiana, dona Maria nos esperando com sua deliciosa refeição. Preparada pelas mulheres, com esmero por todas as mãos responsáveis. Comer bem é muito bom! Agora.... comer super bem, após jogar capoeira, fazer seu próprio berimbau, tomar banho de rio, ter andado a veraz debaixo de sol, é bom demaiiisss! É uma dádiva! E é com certeza uma grande parte daquilo que nos envolve. E na mesma tarde sem que ninguém houvesse combinado nada, surgiu mais uma manifestação grupal de forte valor, beirando o sagrado, uma verdadeira procissão de berimbaus. Aproximadamente 8 Km de extensão foram cobertos por cânticos e toques, dando o efeito de um mantra que encantava e confortava as ruas e vielas durante a caminhada de volta. Finalizando esse dia mais que especial, só mesmo mestre Lua, de chapéu, calça engomada e sapato polido, empunhando com classe o gunga no comando de mais uma roda (missa) noturna em nossa sede (igrejinha) a beira-mar.

 Iê Maior é Deus! Pequeno sou eu!

 Maior é Deus!...

 


2006 - Ano Internacional da Mulher Capoeirista no Jornal do Capoeira




  Mais notícias da seção Bahia no caderno CRÔNICAS
19/03/2006 - Bahia - Capoeira Angola ou Regional é Folclore!
Artigo extraído do livro A "Capoeira" da Indústria do Entretenimento, de autoria do professor Acúrsio Esteves, Salvador, Bahia...
07/02/2006 - Bahia - A Capoeira na Educação Infantil
Uma Ferramenta Metodológica para Pedagogia Social ...
31/01/2006 - Bahia - A Musicalidade na Capoeira
Crônica enviada pelo professor Acúrsio Esteves, Bahia, abordando alguns assuntos relacionados à questão da musicalidade na Capoeira...
15/01/2006 - Bahia - TURISMO, MERCANTILISMO E CAPOEIRA
O professor Acúrsio Esteves escreve sobre O Furto da Ludicidade nas "Rodas de Vadiar"...
09/01/2006 - Bahia - Capoeira & Terapia
A Capoeira Como Atividade Terapêutica. Novas Possibilidades de Reabilitação....
11/12/2005 - Bahia - Capoeira Para Turista: O Espetáculo na Rua
Nesta crônica o autor, o prof. Acúrsio Esteves, analisa a capoeira enquanto espetáculo de rua...
30/10/2005 - Bahia - Projeto ERÊ em Itabuna :: Contramestre Fabinho
Aconteceu no dia 15 de Outubro, na cidade de Itabuna-BA, o IV Batizado do Projeto Erê Capoeira. Eli Pimenta, Mestre de Capoeira e colunista de nosso jornal, esteve presente no evento...
14/08/2005 - Bahia - O Poder da Negritude
Capoeira & Negritude: da Revolta dos Malês aos Terreiros de Angola, Oludum , Ilê Aiyê e outras africanidades dos tempos atuais...
13/06/2005 - Bahia - Visita à Salvador I: Terreiro de Jesus, Odilon, Gagé & CGC
Primeiro artigo sobre a Capoeira em Salvador, com base na viagem que fiz à "Boa Terra" em meados de maio de 2005...
09/05/2005 - Bahia - "Querido de Deus" um Capoeira Navegador!
Crônica por Mestre Tonho Matéria sobre o Mestre Querido de Deus, Capoeira da Bahia imortalizado nas rodas de capoeira e nas obras de Jorge Amado...
20/04/2005 - Bahia - Crônicas e Artigos sobre a Capoeira na Bahia
Artigos publicados no livro "A Volta do Mundo da Capoeira", por André Luiz Lacé Lopes, e enviado para o Jornal do Capoeira...
15/03/2005 - Bahia - Homenagem à Mestre Pastinha
Lucinano Milani, Portugal, escreve em homenagem à Mestre Pastinha...



Capa |  CAPOEIRA VIRTUAL  |  CRÔNICAS  |  EVENTOS  |  LIT.CLÁSSICA  |  NOTÍCIAS