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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS

  05/03/2006
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Mestre Rui Henrique & I.U.N.A.

- Carta ao Departamento Cultural (1989) -

Mestre Rui Henrique & I.U.N.A. Coquinho Baiano

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br

Edição 63 - de 05 a 11/Mar de 2006

 

André Luiz Lacé Lopes

Jornal do Capoeira

Leblon, Março/2006

       

Prezado Miltinho Astronauta,

Editor do Jornal do Capoeira,

 

O meu segundo livro - A Volta do Mundo da Capoeira - por motivos óbvios - deu especial ênfase à Capoeira do subúrbio do Rio de Janeiro.  O livro acabou fazendo relativo sucesso pelo Brasil afora e além fronteiras, mas, para minha decepção a grande maioria dos mestres do Rio de Janeiro não mostrou grande interesse em conhecer sua  própria História. O que me levou, ao preparar uma segunda edição, enxugar o livro ao máximo, até porque a obra acabou saindo grande demais  (quase 500 páginas). A carta-resposta que enviei a Diretoria Cultural da Associação de Capoeira Irmãos Unidos das Nações Africanas (I.U.N.A & Mestre Rui Henrique) foi mantida, pois entendi que continha reflexões que poderiam interessar aos mestres de capoeira em geral.

 Através do seu recente e-mail, tomo conhecimento que Mestre Rui Henrique está, há algum tempo, radicado na Alemanha. Ele e Mestre Canela (também há a longos anos radicados em Viterbo, na Itália) foram dois dos melhores alunos de Mestre  Zé Maria, em Bonsucesso, Zona Norte, da Cidade do Rio de Janeiro.

 

 

 

Relendo a carta qualquer um perceberá que vem de longe a identificação de alguns problemas capoeirísticos e, sobretudo, a tentativa ingênua de solucioná-los, por  exemplo, na base de congressos e leis mágicos. Talvez haja, ainda, repito, algum interesse jornalístico nesta carta escrita em 1989. Deixo a seu critério publicá-la ou não.

Cordialmente,

                                                                      André Luiz Lacé Lopes

 



 

Rio, 10.Janeiro.89

Ilma. Sra.                                                                         

  - Diretora  Cultural,

 Associação de Capoeira Irmãos Unidos das Nações Africanas, I.U.N.A.

 Mestre Rui Henrique

 Rua Conselheiro Ramalho -  Água Santa - RIO/RJ

 

               Senhora Diretora Cultural,

 

          Parabéns pelo esforço empregado no seu projeto de pesquisa, para o Curso de Educação Artística, com licenciatura em História da Arte, da Faculdade de Educação, da UERJ: "A Ginga na Roda da Vida".

           Há no seu trabalho muita informação,  emoção e  boa intenção. Com base nesta constatação-elogio, mas admitindo também que, como costuma dizer Mestre Caiçara - "roupa de homem não dá em menino" - passo a fazer algumas críticas & sugestões:

1. Lamentei a omissão dos nomes das pessoas que você entrevistou ("menina, quem foi teu mestre?");

2. Considero incompleto qualquer trabalho sobre capoeira que não inclua temas como o da Negritude (negritude e "blue note", negritude e mercado marginal de trabalho, negritude e "mandinga", negritude religião e filosofia etc), temas como o processo de institucionalização da Capoeira, o "embranquecimento" e o "aburguesamento" da Capoeira, raízes históricas e processo sócio-econômico, a Capoeira do Rio Antigo, a Capoeira "Bossa Nova - tipo exportação (e a sua grande e criminosa contradição) etc etc.

3. Quanto à idéia de um Congresso (mais um...), essência e objetivo do seu trabalho, embora ingênua é visivelmente bem intencionada. Mas, valerá a pergunta, em que resultou as dezenas de congressos, reuniões, oficinas e simpósios realizados exatamente com os mesmos objetivos?

             Tem muito mais Sra. Diretora, você bem sabe que a "Capoeira é um poço sem fundo", "é uma caixinha de infinitos segredos". Releve, portanto, a minha insistência e veemência, pois, repito, seu trabalho é bom e sério, e deve ser aprofundado. Para tanto, considero de fundamental importância que você consiga uma boa entrevista com o Jair Moura (um dos melhores alunos de Mestre Bimba e pesquisador da Capoeira); você deverá ouvir também o Professor Luiz Sergio Dias ("Capoeira, morte e vida no Rio de Janeiro"), e o angoleiro Pedro Trindade Morais, um verdadeiro mestre - mestre de berimbau, de fundamento e de "roda" - bem como alguns bons teóricos e militantes do Instituto de Pesquisas de Culturas Negras, IPCN (RIO/RJ).

            Caso você tenha "fôlego" para tanto - acredito que terá - você estará com um precioso livro nas mãos.

            Cobrei uma definição para a CAPOEIRA e você pediu tempo; para sua reflexão, adianto a minha:  "CAPOEIRA É CAPOEIRA!" Apenas isto, considero um erro tentar rotular a capoeira em função de rótulos já disponíveis - é luta? é dança? é religião? -  tudo isto é bobagem. Perguntaram certa vez, ao grande Louis Armstrong, o que era JAZZ? "Se você pergunta, jamais saberá", foi a resposta aparentemente enigmática.

Em anexo, estou enviando o resumo de uma monografia que escrevi sobre o fenômeno do "embranquecimento da capoeira".

              Como professor universitário, aproveito a oportunidade para dar mais alguns palpites: 1. Sobre metodologia da pesquisa leia os estudos da Dra. Lilia Rocha Bastos; 2. Reflita sobre o significado (e os riscos) das seguintes palavras inglesas: "perception", "beliefs", "biases", "values", "attitudes" e "emotions"; e 3. Leia e reflita também sobre a Lei de Indeterminação, de Heisenberg (pela qual o processo de se observar um fenômeno - uma roda de capoeira, por exemplo - altera esse fenômeno).

 

                                                  Cordialmente,

                                                                      André Luiz Lacé Lopes

 

 

Anexos: Diversos

    


2006 - Ano Internacional da Mulher Capoeirista no Jornal do Capoeira







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