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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS
  07/05/2006
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Nassau Não "Quis" e Holanda não "Pode" Atacar Palmares
Nassau Não Coquinho Baiano

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br

Edição 72 - de 07 a  13 de Maio de 2006

 

André Pêssego

projetozumbi@uol.com.br

São Paulo, Capital

 - 07 de Maio de 2006 -

PALMARES, UM PROJETO DE NAÇÃO

NASSAU  NÃO  "QUIS"   E  A  HOLANDA  NÃO   "PODE"  ATACAR.

 

"O erro dos estudos afro-brasileiros tem sido a análise a partir

da conseqüência afro-brasileira e não da causa afro-negra".

Eduardo Fonseca Jr.

 

-          "É. Pensando bem, estais certo. Quem poderia dizer, que esta não é a cabeça de Zumbi dos Palmares? Quem poderá afirmar que Zumbi não morreu? Somente Domingos Jorge Velho poderia, mas ele já está no Ceará e não vai querer perder as concessões de sesmarias e títulos, que ganhou em função da destruição de Palmares." (EFJ, pag..202). ((Eduardo Fonseca Jr., procura mostrar a sordidez a que se entregavam homens, na busca pela terra. Os  "relatos da guerra eram  feitos por soldados"  a engrandecer os seus comandantes para pleitearem  a terra).

            Todos os fatos históricos carecem de suas verdades. Os fatos  - uma bomba foi jogada em Hiroshima; morreram pessoas; - análise:  por que jogaram? Quantas pessoas morreram? Por quanto tempo, morreram e ou morrerão? -  a estas respostas, na sua diversidade e mais os fatos formam a História. Palmares, 400 anos depois é contada e lida, ainda na base do famoso "sic" - (como está escrito). Dos arquivos de estado e instituições adentrou-se-lhes na cata  das narrativas unilaterais. Não se escrafunchou os monturos dos que sobraram ou que testemunharam de qualquer distância. Dos chamados  quilombos perdidos, às povoações indígenas meio-misturadas a todos foi negado importância. Cabe-nos, ao negro, iniciar e incentivar esta análise. Ela não nos doerá mais que os fatos cortaram nas entranhas dos que as sofreram, como das gerações mais próximas.

     A História mais fantástica do Séc. XX foi a História de Nossa Senhora de Fátima: passa-se no menor período de tempo, 3 dias; envolve o menor número de pessoas - 3 crianças e uma divindade; acontece na menor área, uma trilha e 100 metros quadrados;  sem ter um fato, sequer; uma contenda, não houve; uma origem, salvo a divina. E é verdade.

            Em 1946 o Prof. Edson Carneiro publica  O Quilombo dos Palmares, cujas pesquisas coordenara. Como ele mesmo dizia - um roteiro para futuras análises. Para  fazer frente à repercussão,  o Exército Brasileiro contrata o Cel. e Prof. Mario Martins de Freitas para escrever um livro que levasse em conta o pensamento militar. M. Martins de Freitas escreve toda introdução de um dos mais importantes livros sobre o tema - O Reino Negro de Palmares. Apresenta-o copiando da Doutrina Militar: "A África é uma terra triste". Inicia, e logo depois... "Dir-se-ia que Deus, depois de sua grandiosa criação do mundo e da distribuição  das diversas raças e dos seus elementos pelos continentes, reservou para a África a borra que restou no fundo de sua retorta divina..." Após 165 páginas, na 182, como todos os outros autores, se mostra convencido da grandeza que foi o Projeto Palmares e destaca o  modo de vida e organização - constata, "os reis negros - reis negros e os generais dos quilombos tratavam-se com certo capricho e ostentação",  "usando espadas finas e artefatos de ouro, panos caros, no dizer de um historiador. Era um Estado independente dentro da colônia! ". De onde procediam os artefatos de ouro? Quem lhes vendiam os panos caros? - Os mercadores judeus, ou cristão novos. Muitos  viveram por duas oportunidades exilados em Palmares: a) na anexação de Portugal pela Espanha; b) na retirada da Holanda. Dos que não partiram juntos, de volta a Amsterdan, se refugiaram em Palmares, tantos foram saindo aos poucos via São Francisco, muitos voltaram e ficaram em Recife, sob o regime "de comprar facilidade dos que criavam dificuldades". Eduardo Fonseca Jr. pag. 83

 

1. AS  DUAS  ÚNICAS  EXPEDIÇÕES  HOLANDESAS.

 

            O livro de Barleus foi acima de tudo uma defesa para o amigo Maurício de Nassau: Barleus conhecia os Palmares, das suas estadas dos estudos de  - História Natural; urde os diários de guerra para os "dois comandantes". Dentre os holandeses, ou mesmo dos naturais, só ele sabia os nomes dos tantos rios,  riachos, morros e localidades citados, tantos por ele mesmo batizados, outros inventados; tantos nem mesmo existem). (MM de Freitas, pag. 184. Relatório pormenorizado)

a)      Expedição João Blaer,  se dera em 1645, enquanto Nassau partiu em maio de 1644. (Convém observar um tempo entre o comunicar à Holanda do propósito da renúncia, a chegada e a posse do substituto. A travessia marítima demandava tempo considerável).

b)      "somente em janeiro de 1644 Nassau ante as denúncias e os clamores..." cita M.M. de Freitas, pág. 182 "... a ameaça à raça branca inquietava a todos... O novo Gov. Henrique Hous, substituto do príncipe João Maurício de Nassau, subestimando as informações provindas das populações... determinou a organização de uma expedição mista... sob o comando de Rodolfo Bareo". Portanto não foi sob Nassau, a partida da Expedição. Para Mestre BENÍCIO,  garimpeiro negro, corrido das margens baiana do São Francisco, início da década de 1940, "a Expedição Bareo  foi a ida de uma comitiva para preparar a última visita  de Nassau,  a Palmares, para se despedir do amigo Zumba".

c)      Para Edson Carneiro, "A expedição de Rodolfo Baro, (1644), não passou de uma escaramuça e a do Cap. Blaer, (1645), foi somente uma operação de patrulha... De nada valeu, entretanto a experiência aos holandeses, que não mais tentaram contra os Palmares". Pag. 5.

d)      Para Décio de Freitas, "pouco se sabe desta expedição", Rodolfo Bareo.

 

2. TORTURAS E HORRORES, ONTEM COMO HOJE.

 

            1910 a 1913 - Belmiro Gouveia se mete a fazer energia das água do São Francisco e implanta seu parque fabril. Em seguida iniciam os estudos de viabilidade técnica-econômica para construção da Hidroelétrica de Paulo Afonso. Outros Palmares, (terras), são vislumbradas. Por mais de 20 anos se estendem os tais estudos. Por que,  para que? Para os novos latifundiários "levantarem" as terras que seriam valorizadas, com tais obras. Matança enorme se deu naquelas localidades.  No inícios dos anos 1940 de "um piscar de olho", a cada dia,  o meu lugar  "qualhava de negros",  os que escapavam, fugindo  - uns como nas "trazidas" da África, misturados; tantos, perdidos,  para nunca mais se verem... 300 anos, para mais, ainda assim, muitos guardavam informações na oralidade  - dos fatos em Palmares.  Alguns  desenhavam Gamga Zumba - General; retratavam a Zumbi dando aula - nos terreiros, nas roças, nas igrejas, nas oficinas do ferro e eram muitas (D.F). Poesias, Castro Alves, vivendo em Palmares.  ... "São duas flores unidas, # São duas raças nascidas.. (raças que o Inst. Nac. do Livro trocou por rosas).  Histórias repetidas, contadas, como toda História Oral no desejo e no clamor - que tivesse sido assim! Por que foi daquele jeito?!... Sem descaracterizar a verdade. Todo menino do meu tempo, no meu lugar,  ouviu aquelas Histórias - invejou do menino Zumbi: 15 anos general; general de verdade, galões e botões dourados, como a farda do Cel. Fausto, já falecido; farda exposta à visitação-mirim.

 

3. E, HOUVE  "TORTURA" DOS DOIS REINOS, O TEMPORAL E O CRISTÃO.

 

            Na América, houve uma competição pelos piores maus tratos: 1580, a Espanha traz de volta a "tortura" de toda ordem; Portugal quer superá-la; a Holanda re-introduz  a morte por crucifixão, (DF, 62). Inauguração de muitas igrejas protestantes tiveram, como ponto alto das festividades, a morte de negros na cruz -  "o máximo"!

            Com Nassau a Holanda não atacou porque não "quis" No pós Nassau não atacou porque não "pode": A nobreza empobrecida com a "devastadora política do "Brasil  Holandês", já se rebelava. Naqueles 10 anos seguintes. Nem um lado nem o outro podia desviar recursos ou atenção contra Palmares. Assim que a Holanda vendeu a derrota e Portugal comprou a vitória os tres, Portugal, Espanha e Holanda se uniram contra Palmares sem sucesso até que  após a trégua do mal de bicho, junta a Inglaterra.

            Palmares, por sua vez,  nunca atacou porque sabia, em qualquer circunstância todos se uniriam contra ele, a exemplo do que se passava na África.

             

                                                                         André Pêssego - Berimbau Brasil - SP/SP

 

Referência:

Edson Carneiro, (E.C) - Quilombo de Palmares;

Décio Freitas, (DF) Palmares a Guerra dos Escravos;

Mario Martins de Freitas, (MMF) Reino Negro de Palmares;

Eduardo Fonseca Jr. (EFJ), Zumbi dos Palmares, Herói da Nova Consciência Nacional.

Dr. Carlos M.H. Serrano, (diversos), artigo publicado na Revista USP no. 28 - Dossiê do Povo Negro.

 

Do Dr. Serrano há outras publicações sobre o conceito da entidade Quilombo. Serrano é, atualmente Prof. de Antropologia na USP. É de nacionalidade Angolana.

 

Nota: Todas as expressões grafadas, o grifo é nosso.                            

                                                                                 

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