Por LEOPOLDO GIL DULCIO VAZ
Jornal do Capoeira - Edição 42: 8 à 14 de Agosto
de 2005
Por
LEOPOLDO GIL DULCIO VAZ
Professor de
Educação Física do CEFET-MA
Mestre em Ciência da
Informação
Ao reler o
artigo publicado em seis capítulos no Jornal do Capoeira abortando o tema
"Capoeiragem em São Luís do Maranhão", vejo-me obrigado a rever
alguns pontos ali apresentados. É o que faço a seguir, uma vez que novas
informações vão surgindo sobre este encantador fenômeno da Capoeiragem, que
desde há muito tempo, tem percorrido e participado da história do Brasil.
Fenômeno este que, diga-se de passagem, jamais foi regional, mas sim Nacional.
- Sobre o Livro-Album dos
Mestres de Capoeira: já foram cadastrados mais de 80 (oitenta) Mestres que
atuam em São Luis do Maranhão; em reunião com o contramestre Baé " Florisvaldo
Costa -, presidente da Federação de Capoeira do Estado do Maranhão -
baecapoeira@ibest.com.br " solicitei que desse uma olhada nos cadastrados
e identificasse quem efetivamente era graduado como "mestre" ou "contramestre"
dentre aqueles que se identificaram como tal; tinha a informação de que, na
Federação, apenas 16 (dezesseis) pessoas eram registradas como essas
graduações. Junto com Contramestre Baé, outros mestres, contramestres, e
formados, e passaram a identificação/reconhecimento. Sem surpresas, a grande
maioria não possuía esse titulo. Talvez identificaram-se como mestres porque
ensinavam a arte da Capoeiragem.
- "A existência da capoeira
parece remontar aos quilombos brasileiros da época colonial, quando os
escravos fugitivos, para se defenderem, fazem do próprio corpo uma arma. Não
há indicações seguras de que a capoeira, tal qual a conhecemos hoje no Brasil,
tenha se desenvolvido em qualquer outra parte do mundo (REIS, 2005)"
" em conversa com Mestre Bamba - Kleber Umbelino
Lopes Filho (divulgada na edição 41 - 1º. A 7 de agosto do Jornal do Capoeira)
" este confirmou a existência de movimentos semelhantes aos da capoeira em
remanescentes quilombolas do Maranhão, da região do Rio Itapecuru-Mirim.
Essa região é ocupada desde o tempo dos franceses (1612-1615) e depois
holandeses (1640-1643) e portugueses - desde o início da colonização, quando
da reconquista do território aos franceses, em 1615, e a retomada aos
holandeses, em 1643. E a partir dos meados
dos 1700, receberam os primeiros escravos negros e, conseqüentemente, com suas
fugas, a formação dos primeiros quilombos, naquela região. Mestre Bamba chegou
a filmar esses movimentos, que aparecem dentro do Tambor-de-Crioula,
denominado "Pungada dos Homens", com a identificação dos
"golpes" pelos "da terra" e a sua correlação com a capoeira de Bimba.
-
Ainda dentro da assertiva de Reis: "Como não existem pesquisa
históricas a respeito da capoeira para os séculos XVI a XVIII, não é possível
reconstruirmos o processo que levou ao deslocamento da capoeira do campo à
cidade, o que deve ter ocorrido por volta do começo do século XIX, posto
que datam desse período as primeiras referências históricas (até agora
conhecidas) referentes aos capoeiras urbanos". (REIS, 2005). Pois bem, em
São Luís há uma referência de quando aparecem na cidade: em 1829, conforme
registro de certas atividades lúdicas dos negros
no jornal "A Estrela do Norte"
,
onde aparece a seguinte reclamação de um morador da cidade: "Há muito tempo
a esta parte tenho notado um novo costume no Maranhão; propriamente novo não
é, porém em alguma coisa disso; é um certo Batuque que, nas tardes de Domingo,
há ali pelas ruas, e é infalível no largo da Sé, defronte do palácio do Sr.
Presidente; estes batuques não são novos porque os havia, há muito, nas
fábricas de arroz, roça, etc.; porém é novo o uso d"elles no centro da cidade;
indaguem isto: um batuque de oitenta a cem pretos, encaxaçados, póde recrear
alguém ? um batuque de danças deshonestas pode ser útil a alguém ? ".
- Depois disso,
aparece em crônicas policias nos anos de 1835: "A esse respeito em 1855
(sic) um morador das imediações do Apicum da Quinta reclamava pelas colunas do
'Eco do Norte"
contra a folgança dos negros que, dizia, 'ali fazem certas brincadeiras ao
costume de suas nações, concorrendo igualmente para semelhante fim todos
pretos que podem escapar ao serviço doméstico de seus senhores, de maneira tal
que com este entretenimento faltam ao seu dever...' (ed. de 6 de junho de
1835, S. Luís." (VIEIRA FILHO, 1971, p. 36).
- Mais, Josué Montello, em seu
romance "Os Degraus do Paraíso",
em que trata da vida social e dos costumes de São Luiz do Maranhão, na
passagem do século XIX para o século XX, fala-nos de prática da capoeira no
ano de 1863, conforme relato de Mestre Eli Pimenta.
- O que é confirmado por
VIEIRA FILHO (1971) quando relata que no famoso Canto-Pequeno, situado na rua
Afonso Pena, esquina com José Augusto Correia, era local preferido dos negros
de canga ou de ganho em dias de semana, com suas rodilhas caprichosamente
feitas, falastrões e ruidosos. Afirma esse autor que ali, alguns domingos
antes do carnaval, costumavam um magote de pretos se reunir em atordoada
medonha, a ponto de, em 1863, um assinante do "Publicador Maranhense" reclamar
a atenção das autoridades para esse fato.
- E ainda, MARTINS (1989)
aceita a capoeira como o primeiro "esporte" praticado em Maranhão tendo
encontrado referência à sua prática com cunho competitivo por volta de 1877:
"JOGO DA CAPOEIRA - "Tem sido visto, por noites sucessivas, um grupo que,
no canto escuro da rua das Hortas sair para o largo da cadeia, se entretém em
experiências de força, quem melhor dá cabeçada, e de mais fortes músculos,
acompanhando sua inocente brincadeira de vozarios e bonitos nomes que o tornam
recomendável à ação dos encarregados do cumprimento da disposição legal, que
proíbe o incômodo dos moradores e transeuntes". (MARTINS, 1989, p. 179).
- Por fim, e mais emblemático,
em Turiaçú, no ano de 1884, é proclamada uma Lei " de no. 1.341, de 17 de maio
" em que constava: "Artigo 42 " é proibido o brinquedo denominado Jogo
Capoeira ou Carioca. Multa de 5$000 aos contraventores e se
reincidente o dobro e 4 dias de prisão". (Grifos nossos).
- Finalmente, NASCIMENTO DE
MORAES, em uma crônica que retrata os costumes e ambientes de São Luís em fins
do século XIX e início do XX, publicada em 1915, utiliza o termo capoeiragem:
"A polícia é mal vista por lá, a cabroiera dos outros também não é bem
recebida e, assim, quando menos se espera, por causa de uma raparigota
qualquer, que se faceira e requebra com indivíduo estranho ali, o rolo fecha,
a capoeiragem se desenfreia e quem puder que se salve". (2000, p. 95,
citado por MARTINS, 2005, p. 29).
- Outros autores nascidos no
Maranhão abordam a Capoeira " inclusive um é referencia obrigatória para quem
a estuda -, descrevendo-a, mas em outras terras " Rio de Janeiro. Artur
Azevedo, refere-se a Capoeira, em uma de suas obras, embora o fato não se
passe em São Luís do Maranhão. Na opereta "O Barão
de Pituaçu", narra a conversa de um capoeira. (Azevedo, Artur. O Barão
de Pituaçu. Opereta em quatro atos, 1887, in CAVALHEIRO, 2005.)
.
Não há necessidade de transcrever os artigos de Coelho Neto: veja em
nosso Jornal
do CAPOEIRA a seção Clássicos da
Literatura. A crônica O Nosso Jogo,escrita por Coelho
Neto, em 1922 e publicada no livro Bazar.
- REIS
(2005)
identifica que a Capoeira passa a ser aceita como uma atividade física, de
origem nacional, a partir dos anos 30 e 40 do século passado, em Salvador, com
as primeiras "academias" com licença oficial para o ensino da capoeira como
uma prática esportiva. O ressurgimento da crônica sobre a capoeiragem
maranhense ocorre também por essa época, quando Dilvan de Jesus Fonseca
Oliveira
informa que seu avô, falecido aos 92 anos, estivador do Porto de São Luís se
referia á "capoeira" como "carioca", luta praticada em sua juventude. E Mestre
Diniz lembra que "ali, na rampa Campos Melo, quando eu era garoto, meu pai
ia comprar na cidade e eu ficava no barco. Eu via de lá os estivadores jogando
capoeira".
Mestre Firmino Diniz " nascido em 1929 " que é considerado o mestre mais
antigo de São Luís, teve os primeiros contatos com a capoeira na infância,
através de seus tios Zé Baianinho e Mané. Lembra ainda de outro capoeirista da
época de sua infância, Caranguejo, apelido vindo de seu trabalho de vendedor
dessa iguaria, que costuma tocar berimbau na "venda" de propriedade de sua
mãe, localizada no bairro do Tirirical. Viu, algumas vezes, brigas desse
capoeirista com policiais. (SOUZA, 2002, citado por MARTINS, 2005, p. 30).
- Reis (2005) observa que há
uma crescente "baianização" da capoeira brasileira, que produzirá uma
"impureza" das capoeiras de outros lugares. Esse fenômeno aparece
também em São Luis do Maranhão, a partir dos anos 60/70, quando da chegada de
Roberval Serejo e da passagem de Mestre Canjiquinha (1966), com seu grupo
Aberre, constituído pelo próprio Canjiquinha, Sapo, Brasília e Vitor Careca "
estes três últimos, ainda menores de idade e iniciantes na/da capoeira -;
Sapo, depois Mestre em 1973 por conta de Mestre Zumbi " é o "pai" da atual
capoeira maranhense, que se deixou "contaminar" num primeiro momento pela "da
Bahia". Aliás, a "capoeira baiana de Canjiquinha" já chegou contaminada por
aqui, e assim foi ensinada por Sapo, pois Mestre Canjiquinha tinha um estilo
próprio de praticar a capoeira Angola " a sua marca registrada - que
passava para seus alunos - pois saia do característico jogo amarrado, lento,
às vezes até monótono, para um jogo mais aberto, bonito, solto, com floreios,
quedas, jogando em cima e embaixo com muita malícia e desenvoltura, sem jamais
esquecer a filosofia e fundamentos da capoeira.
- Mas a capoeira praticada no
Maranhão reagiu, tanto que hoje, podemos falar de uma "Capoeira Maranhense" em
função da também "contaminação" das artes e danças e ritmos maranhenses:
tambor-de-crioula " a primitiva capoeira - ou melhor, uma capoeira primitiva
aparece em uma de suas versões, através da "pungada dos homens";
tambor-de-mina, das religiões afro-maranhenses; mesmo o cacuriá, o lelê, o
côco, o maculelê, o próprio bumba-meu-boi em seus diversos sotaques, conforme
informa Mestre Bamba (Angola), Mestre Índio Maranhão (Regional), Mestre Acinho
de Jesus (criação de novo método de ensino da capoeira através do jogo lógico,
pedagógico e didático; fundação do NIEC " Núcleo Internacional de Estudos da
Capoeira " sede no bairro da Cohab e Parque Shalon, onde ministra aulas já
utilizando o jogo pedagógico); ou Mestre Patinho, que praticava um estilo que
chama de "Capoeiragem da Remanecença", fundamentada, e hoje utiliza-se de "capoeiragem";
e por aí afora... sem contar a "Onça Pintada", mistura de Regional com
"Agarrada marajoara", praticada na região do rio Turiaçú " na fronteira com o
Pará.
LEOPOLDO GIL DULCIO VAZ
São Luis do Maranhão, Agosto de 2005

ESTRELLA DO NORTE DO BRASIL, n. 6, 08 de agosto de 1829, p. 46
MARTINS, Dejard. ESPORTES: UM MERGULHO NO
TEMPO. São Luís : (s.n.), 1989.
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