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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS

  19/03/2006
  2 comentário(s)


O Filho Único, o Gato, os Pais, a Capoeira

"A Capoeira é um dos últimos lugares da Terra em que criança não atrapalha"

O Filho Único, o Gato, os Pais, a Capoeira Coquinho Baiano

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br

Edição 65 - de 19 a 26/Mar de 2006

 

André Pêssego

São Paulo, capital

Março de 2006

 

No Brasil, de todas as épocas, o gato como o cachorro são dos animais domésticos os mais comuns. Quase obrigatórios. Antes, porém - as duas coisas que mais pegaram no Brasil - a) catar latinha de alumínio b) a idéia do filho único, ou quase único. E ai o gato tem a importância do seu papel aumentado: Brincar com o Jr. Fazer-lhe companhia. Quase que cuidar mesmo, literalmente. Mas, é da gata o fio de comparação.

Você já prestou atenção quando a gata pare, (pare de parir), e os gatinhos vão crescendo, o quanto judiam da mãe? A cada dia aumenta a tortura à "pobre" mãe gata: sobem-lhe nas costelas, na barriga, na cabeça. Se ela levanta, mordem-lhe nas pernas, nas coxas, nas orelhas. Uma hora ela não agüenta, dá-lhes um safanão, uma patada - um mio, um chorinho, e daqui a pouco começa tudo outra, vez. "Pobre mãe gata" (?)

            Vamos nos fixar na gata e seus filhotes. Mas vamos lembrar que o leão, ou melhor, a leoa é uma gata pequena, e só. O que acontece, em termos de tortura filial, com a gata acontece com a leoa, a onça e familiares. Mas, vamos nos fixar na mamãe gata.

            A mãe vaca, tem mais sorte, filhos comportados, educados: nenhum lhe sobe; nenhum lhe morde. Uma brincadeirinha ou outra, quase sempre de correr. A mãe deita aqui o bezerro ali, a uns 20 ou 30 metros. Um sono só! Que crianças... ah, quem me dera!

            E a égua, mais sorte? Não igual. Seus filhos também são uns anjos. Uma corridinha ou outra, se não tiver colegas por perto, raramente. Um ensaio de luta, mordida na canela...só.

            E os pássaros? Ah, quem dera às mães da era do filho único, sorte igual à da mãe pássaro. Os filhotes uns comem-dorme. Quando levantam já é para voar e partir...

            Vamos pensar na mãe com 5 filhos e mais - cortar lenha, pilar arroz, buscar água na fonte; colher arroz, milho, feijão, tecer os panos de nossas roupas, redes, lençóis?

            Toda mãe de filho único, ou quase único, garra a imaginar: se não tivesse água encanada; fogão a gás, luz elétrica... ah! a "perua" pra levar o filho pra escola; a televisão; o jogo eletrônico e o gatinho com quem o Jr. brinca de sobre modo, a maior parte do dia....! Sei não! Ficava doida! você não conhece essa criança - parece elétrica... desabafa!

            Há dois enganos nesta história: o primeiro é o de imaginar que aquela mãe trabalhava cinco vezes mais. Pelo contrário, trabalhava cinco vezes menos: quem cuidava dos filhos mais novos eram os mais velhos. E, "eram todos elétricos" só que ela não via; e tinham boca-porca, sim, só que ela não estava por perto para escutar.

            Sabe por que o gatinho, filhote, judia da mãe? Porque ele está se preparando para a vida. É da natureza do gato, do leão - para viver terão de enfrentar outros animais: matar pra comer. O gato e o leão não comem capim. Sua vida é difícil, perigosa. A mãe sabe disto.

            Sabe por que o cavalo e o boi judiam menos da mãe? Porque eles comem capim, não terá de matar outro animal para viver. A vida é mais fácil, menos perigosa.

            De todos os animais o que tem a vida mais difícil é o homem. (O homem é lobo do homem). A criança tem uma percepção das dificuldades futuras. Cabe aos pais perceber, para poder compreender e ensinar aos filhos. Tolerar, reagir, ensinar, estar presente, fazer-se presente, dá-lhe confiança, minorar no filho o medo da vida.

            O segundo engano? Ah!, chama-se dinheiro, money mesmo, tutu, bufunfa...

            Os pais do advento do filho único só raciocinaram em proveito próprio: "com menos filho vou gastar menos; vou trabalhar menos; vou ter mais tempo pra mim: isto pra mim; aquilo pra mim". O raciocínio "Eu"; o raciocínio "gastar menos, dinheiro", teve como resultado o "menor abandonado". O menor abandonado é um ser que não teve em quem confiar. Pai ausente, ocupado, ou conversando com os colegas, no barzinho...; mãe zangada, impaciente, cansada...; avó, beneficiária da reposição hormonal, procurando namorado "cuidar de mim, eu", viuvez ou separação precoce, como a filha, não raro. O advento "menor abandonado" fez o Estado parir um mal maior - o ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente. O ECA é resultado da incúria dos pais. O ECA nos coloca numa situação pior que na Idade Média. Na Idade Média não houve uma lei para prender crianças. De bem ou de mal os responsáveis são os pais. Não são as tais "más companhias".

 

A CRIANÇA NA CAPOEIRA

 

            A Capoeira é dos últimos lugares da terra onde criança não atrapalha. Todos os mais velhos são irmãos do mais novo, e vice versa. Todos os adultos são tios do sobrinho que nunca vira antes - cada um abraça a obrigação de cuidar do Jr. ou da Luiza enquanto a mãe entra na Roda. Nunca escutei um Mestre reclamar do choro de um bebe. Todo Mestre é cioso da "importância de sua fala": silêncio(!), reclama sempre. "Estou falando", lembra... Na Capoeira está o menor índice de riqueza acumulada por metro quadrado. Os pais "capoeira", por isto mesmo, não tem "babá". E não sentem a necessidade de deixar o filho com a sogra, ou a tia, e não aborrecem a vizinha. Realizam-se ali, todos juntos... Juntos a penca, ou melhor, a árvore e o cacho na Roda, nos treinos, nas palestras... Depois da Roda, quando tem um dinheirinho, uma horinha a mais, pra uma cervejinha, conversa fora - o Jr. ali, olhinho arregalado, um gritinho pro tio pegar... Confesso, uma lição e tanta...

 AH! Antes que me esqueça - estão no Plenário do III Congresso Estadual de Capoeira. Sim, senhor - 25%, em torno de, das pessoas presentes ao III Congresso, eram crianças, claro que de todas as idades, mas bebês, também. E olhe que os ilustres (de verdade) palestrantes tiveram de falar com fundo de brincadeiras de crianças. E ninguém teve a ousadia de pedir para "tirarem seus filhos".

            Só a título de curiosidade, na maioria dos países de primeiro mundo, há lugares como hotéis, restaurantes e até igrejas que não pode "entrar criança". E já há hotéis no Brasil, que desconversam.

 

            André Pêssego - PROJETO ZUMBI NA RODA

 

Ilustrações: 1) a "jovem" angoleira Cecí; 2) Roda na Lapa - Rui Takeguma (fotos Arquivo Soma-IÊ)


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