| Login | Crie o seu Jornal Online FREE!

Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

Capa |  CAPOEIRA VIRTUAL  |  CRÔNICAS  |  EVENTOS  |  LIT.CLÁSSICA  |  NOTÍCIAS


 CRÔNICAS

  14/05/2006
  0 comentário(s)


O INÍCIO DE PALMARES.... O SONHO (I), os antecedentes

O INÍCIO DE PALMARES.... O SONHO (I), os antecedentes Coquinho Baiano

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br

Edição 73 - de 14 a  20 de Maio de 2006

 

André Pêssego

projetozumbi@uol.com.br

São Paulo, Capital

 - 14 de Maio de 2006

 

PALMARES, UM PROJETO DE NAÇÃO

O INÍCIO DE PALMARES.... O SONHO (I), os antecedentes

 

"A escravidão africana é a História mais pungente da vida 

humana. Palmares é o capítulo mais sublime desta História"

Vários autores.

 

-          7/10/1462, Bula Papal, Pio II, condenando a "redução dos neófitos africanos a escravidão";

-          1501 - Primeira Expedição Exploradora, Gaspar de Lemos e André Gonçalves;

-          1502 - Segunda Expedição Exploradora, Gonçalo Coelho, com Américo Vespúcio;

-          1502 - Primeira Expedição Arrendatária ao judeu Fernão de Loronha; (ou Noronha)

-          1502/1503, Espanha autoriza a importação dos africanos para a América Espanhola;

-          1511 e  1514 - Portugal leva para Lisboa os primeiros carregamentos de índios brasileiros.

-          1580 - domínio espanhol sobre Portugal, o Brasil é anexado à Espanha.

-          1502 - Primeira Expedição contra Palmares, Expedição Bartolomeu Bezerra.

 

 

.....................................................................

 

A ESCRAVIDÃO NEGRA  X  A ESCRAVIDÃO AFRICANA

 

Este é o viés por onde o Brasil, e a América (não negra) e a Europa se esguiam, se defendem, se acobertam mutuamente. Este trocadilho tem passado pela mesma coisa, não é.

Se em 1462 Pio II intervém com uma Bula (contra a escravidão negra) o "negócio" era bem anterior. Naquele ano atingia proporções e horrores tal que doeu ao Papa. Vejamos, por quase quatro séculos a escravidão negra, nas Américas, atingiu horrores em número de escravos e de maus tratos infligidos inimagináveis, mesmo assim não chegou ao Papa, ou pelo menos não lhe mereceu a atenção de uma Bula Papal.

          Ora se a América ainda não estava descoberta, onde havia a escravidão africana em 1462? - Na Europa! Todos os autores indistintamente que tratam do início da Escravidão Africana reconhecem já haver em Portugal, em 1500, cerca de 150 mil negros escravizados. Em escritos de capa e contra-capa há uma sem número de referência. Há dois livros de fôlego - um de José Ramos Tinhorão, escritor brasileiro, "Negros em Portugal, uma Presença Silenciosa"; e outro do Português, Ramalho  Ennes, "As Guerras Africanas no Séc. XVIII e XIX" -  que a constatam mesmo com variações de número. Este raciocínio vale para Espanha, Inglaterra e Holanda. Mais tarde a França.

 

            No Brasil há, ainda hoje, uma "investigação dita semântica", sobre se a escravidão africana começou em 1530 ou 1535, como se isto tivesse alguma importância. Vejamos bem: escravidão africana. E a escravidão negra? Por que não é falada na escravidão negra? - Porque a escravidão negra chegara aqui com os navegadores. Ora, quem limpava os navios? Quem fazia as tarefas domésticas e ou pesadas? Quem puxava as cordas para atracar as embarcações em paradas a esmo? Quem? - (se a terra não era conhecida, não havia porto, o atracar era penoso e perigoso).  Em 1501 e 1502 vieram a Primeira e a Segunda Expedição Exploradoras, (Gaspar de Lemos e Gonçalo Coelho). Se em 1500 já havia cerca de 150 mil escravos negros em Portugal - "sendo ocupados desde trabalhos domésticos a tratos culturais, notadamente nas terras encharcadas, e como serviçais de embarcação..." se torna razoável,  tanto a um quanto a outro trazer negros para os trabalhos pesados e perigosos; tanto Gaspar de Lemos como os demais trouxeram um número razoável daqueles negros, até porque aqui iam explorar o que? - Claro, a terra. E "a terra era inóspita", tinha de o ser. Os africanos já em Portugal conheciam as terras tropicais e estavam "acostumados" ao trato com "as terras encharcadas", é impensável que trouxessem apenas suas famílias, comitiva de fidalgos, e tecidos de veludo.

.....................................................................

 

O DESTINO DOS NEGROS EM PORTUGAL DE ANTES DO 1500?

 

           Por que não se fala no Mundo Inteiro do início da escravidão negra no Brasil, (ou nas Américas)? Pois bem, há uma razão presente e um motivo futuro imediato - a) a razão presente, o Cristianismo - Portugal, e Espanha, principalmente as duas, tem dificuldade para explicar o destino dos milhares de negros escravos que lá estavam em 1500. Será, aqueles negros não pariram? E por que não pariram? Vieram todos para as Américas, quando? Por que meios? - Esta resposta abalará o Cristianismo. Vejamos o que diz o Prof. Eduardo Fonseca Jr. "O erro dos estudos afro-brasileiros tem sido a análise a partir da conseqüência afro-brasileira e não da causa afro-negra".. Quem sustentou a escravidão africana? - Os Reis Católicos.  E por aí vai. b) futuro - mercado:  Vamos dar um salto para o Séc. XX. # XXI... O que fez os Estados Unidos entregar o comando da Política de Estado a pessoas negras por tanto tempo seguido? - a cobiça pelo  o último mercado do Mundo - o negro... Como o Mundo precisa saber o destino dos negros que estavam na Europa em 1500, o Mundo precisa saber o que foi feito dos petrodólares do Oriente Médio. Como   o iraquiano ficou fora do mercado do dinheiro do petróleo;  o negro brasileiro ficou fora dos mercados  brasileiro, em suas diversas fases.

 O que faz a Profa. "Conde" no Iraque, na iminência do fim do petróleo?  - Descobrir mecanismos para manter o mercado... Condolezza Rice, não está lá apenas pela competência e civilidade, (além de gostosa diríamos nós, avacalhados e propositadamente displicentes): Ela, (sua política), acena - "perderá para sempre o bonde da prosperidade quem perder o último mercado da Terra..., o negro.

 

           O Brasil é a parte da Terra que tem o maior contingente habitacional de negros, fora da África, e é enquanto País o maior deles. Nós, o Brasil, está para o Mundo como Iraque. Do pau brasil; da mineração; das madeireiras; das fronteiras agrícolas; da industrialização sem motor, sem química fina, sem eletrônica, etc. etc. estamos como Iraque sem petróleo, por que? - Fizemos tudo isto sem o negro; como o Iraque "queimou petróleo" sem o iraquiano. (A referência Iraque é apenas exemplo, por ser a bola da vez). Somente o negro brasileiro poderá intervir positivamente, para que não se repita o desastre terra.

 

.....................................................................

 

E ENTRA EM CENA A CAPOEIRA

 

           Este negro somos nós da Capoeira. O outro contingente negro está dividido - parte considerável atolada entre a pobreza e a miséria material; a parte menor atolada nas diretrizes do Estado, que por tratados, ou ilusão, sem voz, são obrigados a silenciar-se.

          Sem se ater a estes e outros fatos, apenas pelo instinto, pelo sentimento da caracterização racial, ou étnica, a Capoeira foi sobrevivendo: submergindo aqui, boiando ali, descansando acolá, parindo mais na frente... É preciso que outros agrupamentos, notadamente os das crenças naturais, tão cara ao negro, tão peculiar à sobrevida do negro, e tão entranhada no povo brasileiro, (ao ponto de que entre os católicos quase 90% professam sua fezinha no caboclo, no preto-velho, Iemanjá, minha mãe...!) encontrem seus próprios meios, reabram seus próprios caminhos e possam somar. Axé, irmãos do Mundo.

(continuará, nas partes II e III, me permitam um pouco de lembranças)

 

.....................................................................

 

UM POUCO DO MEU LUGAR, GILBUÉS

Lá no Piauí, cabeceiras do Parnaíba.

 

           Conversando com Mestre João Coquinho, meu mestre e a Profa. Tuca, sua esposa, os dois "lidos e corridos", estudantes universitários,  de muito esforço e sacrifício - casa, filha pequena, Capoeira, aulas, trabalho, ônibus,  faculdade... me garrei a lembrar...

           Gilbués, com certeza, foi uma das primeiras localidades de criadores de gado, foi um dos primeiros lugares a receber negros fugidos; os locais de criadores de gado não comportavam senzala - se quer senzala - claro: todos o dias os negros tinham de sair a campo...; todo criador de gado "acoitava negros fugidos, assim aumentava sua mão de obra sem precisar de comprá-la"... O "ermo" das terras, a solidão pelas "lonjuras" entre fazendas, (tinha de ser distante pela necessidade de terra para o criatório extensivo), fizeram-se mutuamente necessário - nobres e escravos, depois agregados - todos compadres. Ainda vi Dona Antonia Corado zangada com Da. Joaninha por não ter sido convidada para o batizado do primeiro neto: Que males fiz à comadre Joaninha? Matutava:

 

- Nem botei reparos, comadre Tonha;

- Pois eu botei, e muito - replicava Dona Antonia Corado Lustosa, lágrimas nos olhos...

- É que tou lhe guardando para o casamento de fulana. Madrinha, duas vezes, comadre....

 

E, assim,   EM GILBUÉS UM CAVALO PRETO NÃO VALIA MENOS QUE UM

CAVALO BRANCO; ASSIM COMO UM HOMEM BRANCO NÃO VALIA

MAIS QUE UM HOMEM NEGRO.

 

André Pêssego, Berimbau Brasil - SP/SP

 


2006 - Ano Internacional da Mulher Capoeirista no Jornal do Capoeira




  Mais notícias da seção Na Roda com Zumbi no caderno CRÔNICAS
30/04/2006 - Na Roda com Zumbi - Nota do Leitor
Sobre a crônica "Por que Nassau Não Atacou a Palmares?"...
01/04/2006 - Na Roda com Zumbi - Quilombo, O Estado Já o Reconhece
Este artigo faz parte do projeto "Palmares, Um Projeto de Nação" ...
19/03/2006 - Na Roda com Zumbi - O Filho Único, o Gato, os Pais, a Capoeira
"A Capoeira é um dos últimos lugares da Terra em que criança não atrapalha"...
12/03/2006 - Na Roda com Zumbi - POR QUE ZUMBI VAI PARA PALMARES?
Crônica por André Pêssego sobre o Zumbi dos Palmares, Abdias Nascimento, Capoeira e Teatro...
26/02/2006 - Na Roda com Zumbi - Rainha Nzinga e a Primeira Dama
Nesta crônica o autor faz breve introdução sobre questões pertinentes à definição de Quilombos, e arremata a crônica sobre "Os Silvas, As Silvas", homenageando duas Mulheres Lindas: NZINGA MBANDI & MARISA LETÍCIA DA SILVA ...



Capa |  CAPOEIRA VIRTUAL  |  CRÔNICAS  |  EVENTOS  |  LIT.CLÁSSICA  |  NOTÍCIAS