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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS
  14/08/2005
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O Poder da Negritude
Capoeira & Negritude: da Revolta dos Malês aos Terreiros de Angola, Oludum , Ilê Aiyê e outras africanidades dos tempos atuais
O Poder da Negritude Nova pagina 2

Jornal do Capoeira - Edição 43: 15 a 21 de Agosto de 2005

EDIÇÃO ESPECIAL- CAPOEIRA & NEGRITUDE

 

Mestre Tonho Matéria

Ass. Besouro Mangangá

Salvador, Bahia

 

A capoeira como fonte de uma ancestralidade onde o negro sempre buscou a fuga na ânsia de uma razão libertária, nos proporcionou a construção de um cenário vivo de homens que lutaram ainda na África. E até hoje, não conseguiram apagar da memória o temor do desespero e nem se livrar do preconceito que foi estabelecido como símbolo do poder do branco para desqualificar a qualidade do homem africanista.

   Creiamos que ainda haverá uma razão mais igualitária para que o homem negro busque em si a luz do poder da liberdade e diga não à apartheid da dor que tanto percorre no sangue da alma dos inocentes. Nossos filhos, nossos netos, bisnetos e outros que virão, possam viver dignamente em qualquer parte do universo, sem se preocuparem que a simples cor que carregam sofra reações de olhos de brancos gritantes e desesperadores que cruzam os seus caminhos.

Num dos dias de agosto de 1798, em dez locais diferentes da cidade de Salvador, surgiu um manifesto colado nas paredes, que dizia o seguinte: "está pra chegar o tempo feliz da nossa liberdade; o tempo em que seremos irmãos; o tempo em que todos seremos iguais". Na verdade, era mais um começo de uma revolução igualitária desejada pelos homens negros que ali estavam lutando em busca de uma vida mais digna. João de Deus, Luiz Gonzaga das Virgens e Veiga, Lucas Dantas e Manuel Faustino simplesmente pediam liberdade, igualdade e fraternidade para todos os negros, todos os irmãos de cor, que nada mais eram pessoas simples.

   A Revolta dos Búzios ou Revolta dos Alfaiates ou Revolta das Argolinhas e que foi conhecido mesmo como Conjuração Baiana, foi um levante em que a negritude daquela época desenhou como cenário pacifista, o desejo de homens livres e com direitos iguais, mas que não foi bem aceito pela sociedade baiana escravocrata. Foram mortos em plena Praça da Piedade servindo de lição para qualquer outro negro que fosse contra aos regimes brutais de Portugal.

   Ainda continuamos a lutar por esses direitos que são negados a toda hora. A capoeira como parte inteira desse processo de integração social, nos dá a liberdade de que através do jogo possamos falar para qualquer indivíduo como podemos construir um mundo harmônico e sensato. A música da capoeira risca o coração dos homens sensíveis, e, o levam ao um outro caminho mais puro e mais humano. Foi assim que Traíra, Noronha, Besouro de Mangangá, Bimba, Pastinha, Caiçara e tantos outros mestres da arte, nos fez acreditar na magia, no mistério, na força lingüística que a capoeira por si só tem. O que basta agora é que a nova safra de capoeiristas estabeleça esse poder de negritude que foi esculpido das mãos dos escravos.

     Quando os negros Bantus de Angola atravessaram o oceano da dor pra chegarem aqui no Brasil, eles não sabiam que sua cultura iria atravessar séculos. Aqui, temos como parte de um todo, o Candomblé, onde em um único Ilê se concentram vários inkices, coisas que só se ver em regiões diferenciadas da África. Temos também a Capoeira como símbolo da resistência do negro e que até hoje é mostrada como parte folclórica. A maneira dessa visão que é dada à capoeira, exige uma mudança mais ampla, mais ousada que possa servir de um constitucionalismo educacional e cultural na maneira mais relevante do sentido da palavra inclusão.

Tivemos uma negritude de gestos diferentes mais com pensamentos iguais, que mesmo falando em umbundo, quimbundo, quicongo, ovimbundo, bacongo não deixaram de nos ensinar como lutar pelos direitos iguais. O Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão e o penúltimo a interromper o tráfico de seres humanos, como também, o que mais recebeu escravos. Assim nascemos com gunzo para lutar pelos direitos que nos foi tirados desde quando eramos parte inteira de África e nos cortaram pelo meio nos impondo uma outra cultura, uma outra língua, uma outra maneira de agir, uma outra maneira de ser cidadão sórdido fugitivo pelos caminhos do mato rasteiro denominado como capoeira.

Encontramos as encruzilhadas de Exu para nos esconder dos navios tumbeiros. Encontramos então, a espada de Ogun, para cortar o ar do céu do mal feitor e nos livrar das suas malditas catetizações. Coisa que Nzinga não conseguiu evitar. Mais agora como nunca, seremos parte dos Guerreiros Jagas e construiremos uma nação mais igualitária e sem preconceito. Uma nação onde todos tenhamos direitos de ir e vir pela única mão.

   Zambiapongo o nosso deus maior, nos concebeu a eternidade e através dos sonhos travados nas noites de agonia,  buscamos a gloria e agora com ela alcançada, nos driblaremos do racismo que ainda é vivo em nossos caminhos. Somos independentes e livres, mais ainda não somos donos dos nossos próprios empregos. Somos operários do preconceito e da discriminação social. Somos operários que limpa a sujeira do branco , somos operários do mercado informal porque não temos o padrão adequado que a sociedade branca exige. Somos inocentes assim como aqueles negros que nasciam após a Lei do Ventre Livre, mais não somos dementes, temos que lutar para conseguir mais avanços de real poder .

No Brasil temos uma gama de políticos brancos mandando em nossas vidas. O que se precisa fazer de verdade é uma reitegração conscientizadora para que os negros acreditem nos negros e deem a eles mesmos o direito de representação na câmara dos vereadores ou deputados, aonde possam discultir e defender os direitos de uma classe social sofrida e massacrada pelo poder autoritário do homem branco. O Brasil foi a primeira nação a reconhecer a independencia de angola, em 1975 e foi destacado pelo Presidente de Angola, José Eduardo, como importante parceiro  no processo de recontrução do seu país. Agora só falta o negro brasileiro também enxergar a importancia dos líderes de comunidades carentes do nosso país, a um cargo mais elevado, quem sabe, como Presidente da República para nos fortalecer de esperança.

    O presidente Luis Inácio Lula da Silva, a pouco tempo esteve na África (Senegal), e se retrator para os negros de lá como se fosse ele o colono culpado e sanguinário a escravisá-los. Foi uma vergonha para a população negra que acreditou num homem negro nortestino como representante de uma raça sofrida, é uma pena que tais comportamentos devem ser mudados e visto como padrão para uma sociedade a qual sempre nos negou. Podemos então gritar para quem tenha condições de ouvi a voz dos direitos humanos. Quando os estampidos rufar dos tambores do Olodum nos alerta para mais uma história é porque está chegando a hora em que os sonhos se desfazem contra uma muralha de baionetas. Assim como a poesia de António Agostinho Neto nos alerta e nos centraliza afirmando que havemos de voltar á Angola libertada, Angola independente.

   Somos a negritude dos anos 2005, e agora só nos resta acreditar na palavra dita pela voz da consciencia que somos capazes de mudar o mundo. Não há Brasil sem a África, não há Bahia sem Angola, não há capoeira sem a roda do jogo. E esse jogo tem que ser bem discutido pelos diálogos dos corpos que bailam para encontrar a liberdade através da fuga e da negaça.

   Somos os donos dos direitos que nos são negados mais não nos curvamos e não somos culpados da dor que foi gerada no ventre da mãe de Zumbi. Somos a força das maltas de capoeira que mesmo sendo tidos como desordeiros, ajudaram a construir um cenário de homens valentes. Com isso a capoeira vive oculpando os mais elevados lugares embranquecedores, e emprestando aos seus descendentes a magnitude da sua sagacidade. Os capoeiristas como escultores da veracidade, submergem a dor que sofreram na senzala e nos combates que enfrentaram na travada batalha da serra da barriga, na guerra da Farropilha, na guerra do Paraguai.

E como fuga, escrevem na roda de capoeira o  desespero sofrido nos engenhos das suas solitudes e travam um combate de paz e harmonia assim como as idéias libertárias de Mohandas Karamchand (Mahatma: grande alma) Gandhi, Samoura Marchel, Nelson Mandela, Malcon X, Stive Biko, Martin Luther King que lutaram por um tratamento igualitário e contribuíram para a melhoria da situação da comunidade negra, mediante protestos pacíficos e discursos enérgicos sobre a necessidade do fim da desigualdade racial. Martin Luther King em 1963 dirigiu uma marcha pacífica do monumento a Washington até o Lincoln Memorial, onde pronunciou seu discurso mais famoso: "Eu Tenho Um Sonho"

"Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença - nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais". "Eu tenho um sonho que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos desdentes dos donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade". (www.portalafro.com.br).

   É assim que teremos que agir sempre, com pensamento de que todos possam conviver no mesmo espaço e com uma infra-estrutura digna, sem questionamento dubitável. Temos que ter autoridade e poder e fazer desse poder a unicidade dos negros que pretendem construir uma nação livre de preconceito e de discriminação.

   Para o índio, a floresta lhe servia como fonte de inspiração e aconchego. Para o homem branco ela era vista como fonte de energia para ganhos econômicos. Para o negro restou apenas o canavial como labirinto de ódios gerados pelo sol escaldante que ajudava o caminho às sepulturas. Então, é chegada a hora de construir uma história mais saudável dentro das nossas comunidades. É preciso dá um basta na violência e ter atitude, porque atitude não é uma questão de segregação e sim, uma luta partidária entre líderes revolucionários que buscam sem conflitos, uma solução com lenidade. Temos no nosso meio: homens e mulheres que fazem das suas histórias uma luta constante.

É assim que Gilberto Gil como ministro, João Jorge no Olodum,  Antonio Carlos Vovô no Ilê Aiyê, Geraldão no Muzenza, Lazzo, Guiguio, Tonho Matéria, Carlinhos Brown, Aloísio Menezes, Netinho di Paula e Alexandre Pires como cantores, Gilson Nascimento como escultor, Mestres King Kong, Um por Um, Máximo, Reginaldo, Boca, Dendê e Ferreirinha, como capoeiristas, Jorge Washington, Luiz Bandeira e Luiz Miranda como atores, Neguinho do Samba e Prego, como regentes de percussão, Gloria Maria como apresentadora do Fantástico, Valeria Vanessa como a globeleza, Taís Araújo, Ruth de Souza e  Zezé Mota como atrizes, Margareth Menezes, Wil Carvalho, Virginia Rodrigues, Leci Brandão, Márcia Short e Graça Onasilê como cantoras, Mãe Hilda Jitolu como ialorixá, Benedita da Silva, Arany Santana e Olívia Santana na política e Negra Jhô como cabeleireira acreditam que sem luta não há vitória e que essa vitória servirá de espelho para os futuros astros de suas artes.

Sabemos que os meios de comunicação não nos divulgam, mais acreditamos numa negrura pluralidade de avanços idealizadores da resistência Malê, para salvar o território negro marcado pela impunidade. A música negra como o Reggae, o Hip Hop, o Samba Reggae são ações afirmativas que através de mensagens, invadem a alma dos desvalidos e concentra em cada um a descoberta de liberdade. A música é um instrumento que transita no consciente e devolve a paz interior. É uma atitude clara que provoca revolução entre as raças, das mais simples e sensíveis às doutrinadas no universo do mundo globalizado.

   Isso remete o regresso à África e nos tornam seres humanos vivos, capazes de lutar mais uma vez por uma boa moradia, um bom emprego, uma boa infra-estrutura, uma boa educação, mais pra isso é preciso dá um basta no racismo. Somos negros oriundos da Costa do Marfim, do Senegal, de Angola, da Zâmbia, de Moçambique e tantos outros lugares negros e não temos mais vergonha de caminhar pelas ruas e nem de entrar em lugares que foram feitos para brancos.

Hoje fazemos parte de uma negritude moderna onde à mulher negra não precisa mais fritar os cabelos e o homem negro não sente mais necessidades de passar brilhantina. Agradecemos aos blocos afros: Ilê Aiyê, Olodum, Afreketê, Ara ketu, Muzenza, Malê de Balê e aos afoxés: Embaixada Africana, Pândegos da África, Filhos de Gandhy, Omolu Ilê, Badauê, Okambi pela existência, insistência e resistência em nosso mundo carnavalizado. Agradecemos a todos os grupos de capoeira pela permanência de ainda acreditar que não há Angola sem os angolanos e nem capoeira sem os angoleiros. Todos os homens e mulheres que lutaram para criar suas famas lendárias como foi: Zumbi, Siriaco, Nascimento Grande, Manduca da Praia, Besouro de Mangangá, Macaco Beleza, Maria doze homens, Nzinga, Winnie Madikizela-Mandela e tantos.  

   Podemos seguir sem conflitos ideológicos e nem calabouços no infinito da memória. Devemo-nos proteger do frio na costela sob a lembrança do chicote e nos organizarmos para atacar o mundo com idéias simples, porém firmes e conscientes. Porque só assim veremos de fato, em uma só ação, o poder da negritude na transformação através da ginga da capoeira e através de ações afirmativas servindo como inclusão no processo do parâmetro social.

 

Mestre:




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