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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS

  01/12/2004
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Capoeira & Atabaque

Augusto Mario Ferreira, conhecido como Mestre Guga, é formado por Mestre Bimba, o criador "Luta Regional Baiana". Neste artigo Mestre Guga apresenta seu depoimento e ponto de vista sobre a relação Atabaque-Capoeira

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Augusto Mario Ferreira

 

 

O atabaque integrou-se ao instrumental da Capoeira em épocas recentes, dentro do movimento de “renovação” que se desenvolve ainda hoje nos núcleos  de prática da luta. Na verdade, o atabaque nunca foi instrumento de Capoeira e os que o introduziram nas rodas basearam-se sobretudo numa gravura de Rugendas, do século passado, em que aparece um negro tocando atabaque e outro executando uma espécie de ginga. Provável que fosse apenas uma interpretação artística livre do pintor europeu e não o registro histórico fiel de uma manifestação popular do povo escravo.

Até há meio século atrás nenhum Mestre de renome na Bahia, permitia o uso do atabaque no instrumental da roda. Nem Vicente Ferreira Pastinha, o Mestre Angoleiro Pastinha, na sua escola da Ladeira do Pelourinho, em Salvador, praticava essa mistura de Candomblé com Capoeira.

Para Manoel dos Reis Machado, o Mestre Bimba parecia uma heresia. Ele,  que se propunha a cultivar a Capoeira original nas suas escolas, o Centro de Cultura Física Regional, da antiga Rua das Laranjeiras ou da Amaralina, jamais praticou esse sincretismo. Para ele, Candomblé era Candomblé e Capoeira era Capoeira, coisas distintas, embora da mesma origem da população negra. Não misturava canais, embora mantivesse um terreiro de Candomblé no Alto da Amaralina, no mesmo local onde ensinava a Capoeira.

No meu tempo, o Mestre Bimba jamais permitiu sequer o uso de dois berimbaus nas rodas que promovia  porque, conforme me explicou, o som dos toques deviam ser puros, audíveis e preponderantes. Além desse único berimbau, aceitava um ou dois pandeiros, tocados com moderação para não “abafar” o som límpido do berimbau.

Com isto, o Mestre Bimba transmitia aos seus alunos a função técnica dos instrumentos musicais na roda de Capoeira. Ele mesmo, nas nossas muitas conversas a sós, na Amaralina, criticava o que chamava de “banda de música” das rodas de Angoleiros, que utilizavam quatro ou mais berimbaus, em geral atravessando os toques, e quantos pandeiros houvesse à disposição.

Nas visitas que realizei (1955) à escola  do Mestre Pastinha, vi  tocar agogô na roda, em jogo de Angoleiros, que não se ligavam muito nessa questão do purismo da luta. Nunca vi porém o uso do atabaque. Não vi também atabaque nas rodas de Angoleiros, promovidas com freqüência na Cidade Baixa em especial na rampa do Mercado Modelo.

Não era por preconceito que esses mestres antigos evitavam o atabaque nas rodas de Capoeira. Para Mestre Bimba era por um motivo de ordem técnica, ou seja, o toque do berimbau, para ele, servia para orientar o ritmo e o tipo de jogo. Os praticantes precisavam ouvi-lo com clareza para não sair  do ritmo. Um toque de iúna, por exemplo, indicava que só “formados” podiam jogar na roda dali para a frente, pois só eles tinham experiência  suficiente para jogar ao som desse toque destoante dos demais. A iúna inclusive, pelo seu estilo, dispensava até os pandeiros. O  berimbau trabalhava solo, permitindo ao tocador demonstrar sua performance e seu virtuosismo musical, num toque tão despojado e tão límpido como é a iúna.

O atabaque é instrumento fundamental no Candomblé e nas atividades de terreiros, onde tem funções de muita influência nos cânticos aos orixás. O etnólogo Waldeloir Rego, no seu excelente trabalho Capoeira Angola Ensaio Sócio-Etnográfico[1], o melhor que já se produziu no Brasil até hoje, com profundidade de conhecimento, reforça a tese de Mestre Bimba, negando que o atabaque seja instrumento para a prática da Capoeira.

“O principal instrumento musical da Capoeira – ele afirma –  é o berimbau, o qual, numa roda de jogo de Capoeira, pode funcionar sozinho sem os demais instrumentos”.

Embora ele registre informações de “capoeiristas antigos”, incluindo o atabaque como instrumento de uso esporádico no acompanhamento musical do jogo de Capoeira, ele especifica logo a seguir:

“No presente (década de 60), só vi, até agora, acompanhamento com berimbau, caxixi, pandeiro e agogô” e cita, como exemplo, as academias de Vicente Ferreira Pastinha, Mestre Pastinha e Washington Bruno da Silva, Mestre Canjiquinha.

Waldeloir faz menção ainda a um instrumento de origem remota, citado até na Bíblia, o adufe utilizando durante algum tempo como instrumento musical da Capoeira. “O adufe é um pequeno pandeiro de formato quadrado e de proveniência mourisca” ele explica, depois de extensa pesquisa de sua origem, concluindo: “O adufe foi também aculturado e aproveitado pelos negros no Brasil”. Pelo que se deduz, este instrumento de percussão desprovido das soalhas (as placas metálicas presas ao seu aro) servia na roda para fazer a marcação, enquanto o pandeiro executava os repiques e outras variações pertinentes, sem contudo abafar o som básico do berimbau.  

Talvez por desconhecimento ou por se ter perdido essa memória dos tempos da Capoeira original, é hoje muito raro vê-se uma roda na qual o atabaque esteja ausente. É um contra-senso? Sem dúvida. É uma aculturação? Claro. É um erro técnico? Evidente. Mas, enfim, como diria por certo o Mestre Acordeon, no seu tom conciliador, “cada um joga sua Capoeira do modo que lhe convém”.

_________________________

Augusto Mario Ferreira, jornalista,

é formado  pelo mestre Bimba (1955)


 

[1] Editora Itapuã, Salvodor, BA., 1968.

  Autor:   Mestre Guga


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