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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS

  12/02/2006
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PALMARES, UM PROJETO DE NAÇÃO

PALMARES, UM PROJETO DE NAÇÃO Coquinho Baiano

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br

Edição 60 - de 12 a 18/Fev de 2006

 

Por Andre Pêssego

São Paulo, capital

Fevereiro, 2006

 

Nota do Editor:

            Na edição anterior André Pêssego enviou-nos sua primeira contribuição, a crônica "Dois Mestres Candidatos". O resultado foi imediato, sendo que recebemos, não somente do Estado de São Paulo, mas de diversas regiões do Brasil e do mundo afora, críticas elogiósas sobre a forma de abordagem adotada pelo autor.

            André Pêssego, envolvido com a capoeira e com a militância sócio-política da capital paulistana, incluindo-se aí as vertentes voltadas à questões afro-brasileiras, acabou por aceitar nosso convite de compor o quadro de colunistas deste Jornal do Capoeira.

            É com imensa satisfação que trazemos para nossos capoeiras-leitores mais esta contribuição do André, na certeza de que, aos poucos, ele conseguirá trazer um pouco mais de luz sobre os fatos e acontecimentos históricos envolvendo nossa arte mandingueira e histórias de luta do legado afro-brasileiro.

            Aproveitamos o momento para prestar homenagem ao intelectual gaúcho e historiador Décio Freitas (foto), a quem devemos o desvendar de diversos fatos importantes referente á historiografia de Palmares, por seu livro "Palmares, a guerra dos escravos", publicado em 1971 e que recomendo a todos!

 

Miltinho Astronauta

 


PALMARES, UM PROJETO DE NAÇÃO

 

"Creio que não há um único diário

escrito por mulher, publicado no Brasil"

Gilberto Freyre

 

            A este fato Mestre Gilberto debitava as incorreções nos estudos da historiografia brasileira, e,  mais ainda, admitia ser insanável em futuro  próximo. Para Décio Freitas, no  tocante a Palmares são maiores as barreiras, "pela inexistência de fontes diretas dos próprios palmarinos", e lamentou o escritor - "pelo que somos forçados a nos contentar com as informações provenientes dos seus encarniçados inimigos".

            Todos os fatos históricos, em todos os tempos e em todos os locais, são carentes de suas verdades. Nenhum fato foi mais lido e ainda  é mais lido que os fatos religiosos. Entre nós - o cristianismo; ainda assim, se lhes procuram a verdade.

            Palmares é um fato - virá um dia ser igual a todos os acontecimentos. Hoje - é o único fato na Humanidade, que no bojo de quatro séculos,  ou decorridos 311 anos, vem ele mesmo "escrafunchando" suas verdades; juntando seus cacos - espalhados pelos  munturos de homens de todas as etnias os quais abrigara - o negro que lhe formara; o mouro com quem comungara; o judeu,  (cristãos novos), que protegera para a fuga; o cigano companheiro de oficina; ..."  -   para juntos curarem as chagas  da outra metade da Nação e fazê-la a Nação dos seus ideais.  Nos últimos 100 anos, Palmares vem despindo-se de todos enfeites, penduricalhos, maquiagem que lhe foram emprestando homens idealistas - de Gaspar Barleus, 1644;  Rocha Pita, 1730; Alfredo Brandão, 1914;  Nina Rodrigues, 1932; -  para apresentar-se com as verdades dos seus feitos. E só. O próprio cristianismo lhe dói tantos dos seus feitos. Palmares não! ... Ora proibida; ora censurada: em vezes pela força; noutras pela opressão econômica.  Palmares  ressurge epicamente, emprestando seu brado a quantos se aventuraram a pesquisá-la, a estudá-la. Não conheço, um escrito sequer que não termine épico, um chamamento -  brado da sua continuidade.

            Convidado para integrar a coluna na "Roda com Zumbi", antes de agradecer a este nosso querido editor, agradeço a Capoeira, resistência da nacionalidade, do negro do Brasil; agradeço à "capoeira" (mulher) que como diz Mestre João Coquinho, em suas aulas - "cansada, nada - aqui mulher também é homem!",... razão de ser, da existência e do sucesso do jornal.  E, aproveitando - ao longo do que escrever entremearei as citações escritas, já levantadas por tantos historiadores, com informações da oralidade obtidas nos quilombos perdidos de Goiás; nos garimpos tardios do Sul do Piauí, lá no meu Gilbués;  nas comunidades do litoral de São Paulo; em territórios no vale médio, baiano, do Velho Chico, ao longo das minhas andanças, notamente na década de 1960.

           

           

Para Artur Ramos - "...do negro, o interesse normativo virá depois, quando houver uma elite negra, para traçarem normas, diretrizes para o seu povo de cor..." Esta elite negra, está na Capoeira - entre os etnicamente negros e os voluntariamente negros; entre os etnicamente brancos e os voluntariamente brancos. Está na Capoeira, o que resta do negro para o negro, e para "o negro". A esta elite que está na Capoeira, desejo pedir duas compreensões  a) apiede-se das minhas limitações; b) não se furte em me oferecer seus ensinamentos, suas contribuições. À parte da elite, negra ou não, fora da Capoeira,  que tomar ciência destes escritos, não se furte em nos ajudar a clarear tudo quanto precisar. Estamos cientes que fato desta grandeza não será nunca esgotado por uma única convicção. Tudo quanto dissermos em termos de proposta estaremos falando, explicita ou implicitamente - em iniciar-se a. Queremos iniciar a discutir Palmares, seu Projeto de Nação; queremos iniciar a fazer justiça ao Grande General, embaixador Ganga Zumba; queremos iniciar a

compreender-se a Zumbi; queremos iniciar a discutir as posições presentes das Forças Armadas e do Cristianismo - os maiores devedores do negro brasileiro e do negro africano...

            Para fazer jus à coluna:

-          Zumbi, o menino rei: General aos 15 anos. General de verdade, farda verde, galões dourados, cordões de ouro descendo-lhe até o "imbigo".

-          Pois é, os meninos do meu lugar, no meu tempo, uns moles tinham medo até de soldado. Do coronel Irineu, até se cagavam...

..............................................................

-          Que mula-sem-cabeça que nada, gostava mesmo da mãe de Zumbi - gostava sim, ali, desafiando a Santa Inquisição:

                                               "Porque eu pequei... e do pecado escuro:

                                                Tu foste o fruto cândido inocente,

          -  borboleta que sai do lodo impuro...

                               -   rosa,  que sai de - pútrida semente!" 

                                                "Mãe Penitente, Castro Alves.

Escreveu Castro Alves para a mãe de Zumbi, arremessando-se ele próprio, na sua dor, (dela) ao entregar o filho ao Pe. Antônio Melo, pai de Zumbi, ( daí o conflito e a dor na poesia), para preservar-lhe a vida ante a iminência dos ataques a Palmares, nos anos pós  partida de Nassau.

(este último parágrafo é trecho de Zumbi na Roda, um ABC para Jorge Amado).

                                 

André Pessego

     

Ilustração coletada em http://www.paginadogaucho.com.br/pers/df.htm        


2006 - Ano Internacional da Mulher Capoeirista no Jornal do Capoeira




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