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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS

  16/04/2006
  2 comentário(s)


Por que Nassau Não Atacou a Palmares?

Por que Nassau Não Atacou a Palmares? Coquinho Baiano

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br

Edição 69 - de 16 a 22 de Abril de 2006

 

André Pêssego

São Paulo, Capital

16-04-2006

PALMARES, UM PROJETO DE NAÇÃO

POR QUE  NASSAU NÃO ATACOU A PALMARES?

 

"Estabelecerei comércio com  os redutos chamados quilombos..."

Nassau em carta  para a Holanda, 3/02/1637

 

-          1580 a 1640 domínio espanhol sobre Portugal, portanto o Brasil é anexado à Espanha.

-          1630 a 1654 Período da permanência holandesa em Pernambuco; 24 anos.

-          1640 na África, a Rainha Nzinga faz as grandes ofensivas, retomando territórios.

-          1640 a nobreza, em Pernambuco alia-se à Holanda; Portugal rende-se.

-          1637 a 1644 Período do Conde Nassau, portanto 7 anos.

             

            A Holanda invade Pernambuco em 1630 e Nassau chega a Pernambuco, em janeiro de 1637, já em fevereiro/37, ao fazer seu relatório de posse e plano de atuação  reconhece a importância de Palmares -  do contrário anunciaria planos para atacá-los, destruí-los. Na mesma carta: "estabelecerei negócios com os quilombos, pois estes mais que todos, repudiam os portugueses, podendo ser nossos aliados..." A Holanda já  havia enviado uma delegação a Palmares, chefiada por "um pernambucano conhecedor dos Quilombos". Em seguida, Bartolomeu Lintz,  é feito embaixador holandês residente até o advento de 1640. (Tem sido dito de Lintz, um espião em Palmares. Bestagem, um holandês disfarçando-se  junto a milhares de negros, em mocambos).

 Nassau reina absoluto. Não houve poder mais absoluto, no Brasil, que o de Nassau. Nassau era um homem de cultura e de saber, mas  "preparado" para a guerra. Nassau foi mais comerciante que guerreiro; mais homem de cultura e de saber, que comerciante. Homem absolutamente ético, sincero, dos portugueses observa: " nossa administração é mansa e pacífica e eventualmente óbvia pelo esbulho compulsório, com preços que variam desde um alto cargo no governo flamengo, até alguns florins para gastos em tabernas".          

            O reinado de Nassau passa obrigatoriamente por Ana Paes. O nome Ana batizou a muitas meninas da nobreza no nordeste, talvez pela fama de Ana Bolena. Zumbi teve a sua Ana - Ana Vitória. Foi por Ana Paes que Nassau se aproxima de Palmares em busca de beberagens inférteis, das quais Ana fazia uso.  Das muitas mulheres que amou Nassau não deixou filho algum. Nem mesmo com Ana Paes.

            Fins da década 1630, primeiros anos  de 1640 marca também as ofensivas da Rainha Nzinga na África, retomando territórios sob domínio tanto  Português quanto  Holandês. Pode-se dizer, Nzinga quanto Gamga Zumba,  poderiam no momento ter sido  o fiel da balança. No Brasil, em  1639, houve a grande batalha dos Mares de Fogo, quando a Holanda impõe severas perdas e grande derrota a Espanha/Portugal,   destruiu a maior esquadra luso-espanhola, 85 navios, numa única batalha. No Brasil - as dificuldades econômicas de toda ordem; a  monocultura da cana de açúcar  causando falta constante de gêneros alimentícios; o aparecimento das doenças da subnutrição, a que chamavam de "doenças tropicais"; as fintas ("CPMFs, então") intermináveis para suprir a coroa... formam o caldo para a calabarização: - a nobreza, de Pernambuco  prefere o Reino Holandês ao Português.

            Com a chagada de Nassau  a lama sócio-moral contra a mulher, já vivida em 1580, atinge proporções inimagináveis, homens da nobreza "vendem" suas mulheres e filhas ao contingente flamengo. Nassau, moço e belo, tirou proveito como ninguém do clima tropical - usou e abusou das roupas de renda, entre o branco e azul. Nos colarinhos o azul como matizando aos olhos verdes. Vaidoso porém profundamente ético -  acena a Ana Paes Daltro, mestiça de segunda geração, roupas de rendas, como ele,   a mais bela jovem senhora,  esposa do guerreiro André Vidal, é correspondido, na mesma noite a leva para casa, com quem vive, entre algumas separações, até sua partida e para quem deixa um salvo conduto ad-perpetum. De Ana Paes algo já foi escrito, ora condenando-a; ora enaltecendo-lhe;  ora em defesa de Nassau; dão lhe muitas viuvez. Faltou quem a tempo descesse o Velho Chico catando lembranças. O certo é que Ana aprendeu as nuances do poder, - pecados e virtudes; das artes do comércio, idem;  como ninguém - com Nassau aprendeu e ensinou. E sobretudo a gozar da vida o ensinou. Ensinou-lhe a mostrar-se e a beleza - com pudor. A Nassau dão-lhe feitos que não realizou, por não ter tempo - dos seus sete anos, três foi em guerra; não fez por não ter recursos, dos recursos pedidos por dezenas de vezes, ao Clube dos XIX, espécie de FMI, 90% foram negados. Tiram-lhe qualidades - como a de perseguir com mãos de ferro a prostituição infantil, gerada e morada nos palácios.

           Holanda logo que aportara em Recife designou emissários em duas oportunidades,  com o desejo de ter Palmares (e/ou)  a Rainha Nzinga Mbandi como aliados. Nassau manda como seu embaixador, à África,  talvez o próprio Gamga Zumba, para facilitar  conversas com a Rainha Nzinga. Na África como no Brasil o emissário depara com o mesmo quadro: A  escravidão. Para Ganga Zumba tudo teria de passar pelo fim da escravidão africana. O fim da escravidão foi sempre o outro nome do "acordo".

            Nassau não conheceu a África, conheceu uma comunidade negra em Palmares, que o prendeu fundamente a amizade e admiração.  Teve contato com a escravidão africana no Brasil., que lhe maltratou profundamente. "Mas não sou a Holanda", repetiu sempre a Ganga Zumba.

            A monocultura do açúcar empanzinava toda a população fora de Palmares. Pernambuco  viveu sempre com os mares sitiados, sem condições de receber alimentos das outras localidades. Palmares em mais de uma ocasião foi o único fornecedor de gêneros alimentícios para todo o Pernambuco, principalmente para a "ilha" holandesa.

            Nassau, ainda jovem, sofre um principio de "ataque cardiovascular" a que chamavam de "mal de gota". Um dos médicos da comitiva em visita a Palmares, para  "assistir-lhes", trouxe a Nassau informações de "mezinhas compostas por ervas nativas, preparadas pelos africanos,  que a muitos males curavam". ... "Com as quais Nassau  restabelece a saúde". Do interesse por aquelas ervas e seus preparos o médico Piso e o botânico MarGrav, integrantes da comitiva de Nassau escrevem "História Naturalis Brasiliae". O mais notável compêndio de História Natural, talvez da História. Como se ver os cientistas voltaram e permaneceram em Palmares muitas vezes e por longos períodos... Palmares era um território, acessível, com comércio e trânsito abertos, livres portanto.

            1643, Nassau recebe ordens para "atacar seriamente a Palmares..." Homem de alto caráter, Nassau se tornara amigo de Ganga Zumba, recusa. Renuncia, volta para a Holanda.

            "Nassau não é a Holanda", reconhece os palmarinos.

            Pode-se citar estas  razões para a Holanda de Nassau não atacar a Palmares:

a)     o reconhecimento da instituição Quilombo, como tal. O Quilombo cumpre os ítens do acordo: Não planta cana para produzir açúcar; não cria gado vacum, alem do necessário para produzir leite para consumo interno; não ataca; tem as oficinas do ferro, mas não vende armas.

b)      A possibilidade de trazer  Gamga Zumba, para aliar-se à Holanda contra Portugal; o estilo de vida no Quilombo.

c)      O interesse pelo conhecimento científico da flora e do conhecimento extrativo dos Palmarinos. Empresa que a Holanda traz até nossos dias. Em 2002 uma equipe de Professores da USP constata "missionários holandeses levando resultado de pesquisas da flora amazônica para a Holanda". "Descoberto", a Holanda compra um satélite que recebe estas informações fora do alcance das provas". A Holanda detém o maior volume destas informações entre todos os países. O Brasil detém a menor.

 

-    Este foi o fator mais importante.

-         Tu vais embora? Vais me deixar, meu Almirante? Interroga-lhe Ana Paes.

-         Tive tanto asco da escravidão que quero me libertar até de ti, Ana: Diz-lhe Nassau.... Assim contava Ana Paes da curta despedida.

 

André Pêssego - Berimbau Brasil - São Paulo, SP

projetozumbi@uol.com.br


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