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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS
  01/04/2006
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Quilombo, O Estado Já o Reconhece
Este artigo faz parte do projeto "Palmares, Um Projeto de Nação"
Quilombo, O Estado Já o Reconhece Coquinho Baiano

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br

Edição 67 - de 02 a 08 de Abril de 2006

 

André Pêssego

São Paulo, Capital

Abril de 2006

       

"... E haviam os Quilombos, lugar de resistência do negro..."

Historiador Boris Fausto na TV Câmara.

      

            Em artigo anterior, fizemos breve referência à conceituação dos Quilombos para o homem africano, ou melhor, para a pessoa negra de qualquer parte do Mundo. No programa, ia voltar a falar de Quilombos após  considerações do período holandês no Brasil, tão caro à aristocracia pátria. Aquele período e seus acontecimentos vai trazer  subsídios ao entendimento, no entanto o fato seguinte nos fez precipitar. (Falaremos de Holanda, logo..)

 

a)   QUILOMBO, o Historiador Bóris Fausto, em trabalho narrativo de História para a Câmara dos Deputados, via TV Câmara, não se lhe refere como "lugar de negro fugido".  Define-o como "lugar de resistência". Ainda está dito de modo errado, e o professor Bóris Fausto sabe que está errado. A Câmara dos Deputados também sabe. A Câmara adota a posição de acender uma vela pra Deus e outra pro Diabo. Não desagrada ao negro e não contraria a Doutrina do Estado Brasileiro. Quilombo, numa linguagem corriqueira,  é como que um "Governo no Exílio", tão ocorrente no Século XX.

b)   Uma conceituação de cunho econômico - hoje o pensamento da ciência conômica brasileira (conselhos, sindicatos, institutos) aceita integralmente a tese de que "o mal foi a escravidão e não o escravo". O Pensamento Universitário também a incorporou.

 

           O que diferencia a conceituação de Quilombo para o conceito de Governo no Exílio é que o Quilombo incorpora  mais o sentimento de Nação; enquanto o Governo no Exílio prende-se ao conceito de Estado, de autoridade. O conceituar de Quilombo abrange as tradições, a cultura, os princípios morais e éticos de um povo em todas as épocas. A concepção de Governo no Exílio atem-se a um gabinete provisório, a "um grupo de pessoas". O Quilombo é permanente; o Governo no Exílio é breve, muito breve.

           O carnaval entre nós incorpora o sentimento de Quilombo, é uma resistência; uma luta para salvar a tradição e na tradição promover-se o encontro. Como de resto todo o teatro de céu aberto, do negro, é um Quilombo. Sem estas manifestações o negro brasileiro teria desaparecido. Contra este sentimento os governos vêm inserindo no carnaval o princípio do massacre, embrutecendo-se-lhe com as classificações 1º, 2o, 3o, etc. até ao desclassificado, nos carnavais de São Paulo e Rio de Janeiro. Felizmente nos demais estados o carnaval continua evoluindo sem corromper-se.

 

          O princípio do massacre vem substituindo a velha técnica de jogar-o-negro-contra-o-negro. E o princípio do massacre vem rondando a Capoeira.

 

 

Roda semanal, de 6a feira. no Berimbau Brasil, Mestre João Coquinho
e Mestre Guará, uma das entradas mais elegantes ...

 

          O princípio do massacre é tão avassalador, é de uma crueza tão grande  que o Mundo Inteiro assistiu a cabeça de uma negra pegar fogo na avenida, no carnaval deste ano de 2006, na cidade de São Paulo, diante de todos - populares e autoridades - e ela ser aplaudida por continuar sambando. ("sambou" todos seus antepassados). O Ministério Público, delegados, todos silenciaram-se. Aquela moça não é profissional de pirotecnia;  de fogos e afins, não tem conhecimento algum. Treinamento nenhum. Antes o negro brasileiro era queimado à força; hoje é induzido a queimar-se. Queimar-se na miséria - entre a bala e o fogo. Meu Deus, que diferença faz? - Nenhuma: ontem "tinha por taba de salvação a alforria"! Hoje tem por taba de enganação o "direito a".  Na "alforria" podia lutar; no "direito a" só pode obedecer. E, se tivesse acontecido com alguma moça da família do Sr. Ministro da Justiça, Prof. Márcio Thomás Bastos? Aí era Crime de Alcance Público, com certeza. E é. Não há tolos entre os promotores do fogaréu - 1600...

           Será que os dicionaristas como Aurélio e tantos outros não sabiam do significado de Quilombos? Sabiam, sabem todos. Mas por que escreveram errado? Para que perante o Estado, no alcance do Direito, o negro seja tratado como coisa. Para não haver reparação. Mas, que diferença faz?  Toda guerra tem normas, tem regras. Toda guerra obedece a princípios acordados. Quando não os há é obedecido a um mínimo "do natural". Pois bem, existe alguém capaz de imaginar os horrores das batalhas finais contra Palmares? E os horrores praticados contra os negros de Quilombos menores, tantos? Guernica seria uma festa se, se pudesse imaginar, se houvesse crueza capaz.

           Cada vírgula é importante. Desta conceituação o negro saíra da condição de coisa, para ingressar na História como pessoa. Este vocábulo fará o ingresso do negro, como pessoa na História do Brasil. Este vocábulo iniciará o encontro do negro com a outra parte da Nação. E a Nação há de ser responsabilizada.

 

           Vejamos: a HOLANDA respeitou os Quilombos de Palmares: conversou, fez embaixadas e embaixadores e não investiu para dizimar seus integrantes. A Holanda, de tantos horrores contra o negro, respeitou a instituição Quilombo!

           A segunda metade da década de 1960 parte considerável das pessoas da minha geração e das gerações próximas (posterior ou anterior) passou discutindo como conduzir o Brasil à condição de um País mais justo. Neste mais justo a figura central para a maioria era o NEGRO: a integração para uns; a indenização (sem meias palavras) para outros. Admitiam-se todos que o gargalo do Brasil era o negro; admitia-se que sem o negro não haverá solução alguma para o Brasil como um todo. Nenhum remédio, nunca!

A década inteira de 1980 outra parte das mesmas pessoas passou discutindo e aprovando sua própria indenização. E eu me pergunto sempre, indenização de que? Este biênio 2005/06 o Brasil passou discutindo o sexo dos anjos -  "mensalão e afins". Como se houvesse alguém - investigados e investigadores - que não soubesse de tudo, tim-tim-por-tim, como se dizia no meu Gilbués, lá no Piauí. Enquanto isto o Exército sobe os morros e o fogo da grilagem (sem o negro) sobe às matas. Este mesmo Exército, a instituição de maior dívida para com o negro brasileiro, afogado na mesma doutrina: compraz-se com a miséria e investe contra o miserável.

            A poucos dias uma das instituições Diretivas da Capoeira, a Organização do III Congresso Nacional, fez menção à indenização do negro.  Um alento -

Cai,  orvalho de sangue do escravo,             

Cai, orvalho, da face do algoz,                  

Cresce, cresce, seara vermelha,                    

Cresce, cresce vingança feroz.        

            .........                                              

"Que demônios são estes medonhos..."?         

Somos nós meu Senhor, mas não tremas,

Nós quebramos as nossas algemas

Para pedir-te as esposas ou mães.

Este é o filho do ancião que mataste.

Este - irmão da mulher que manchastes...

 

 Oh! Não tremas, senhor, são teus cães...

        ........................

                          Castro Alves, Bandido Negro.

Andre Pessego - projetozumbi@uol.com.br

Capoeira Berimbau Brasil, São Paulo, SP


2006 - Ano Internacional da Mulher Capoeirista no Jornal do Capoeira




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