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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS
  26/02/2006
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Rainha Nzinga e a Primeira Dama
Nesta crônica o autor faz breve introdução sobre questões pertinentes à definição de Quilombos, e arremata a crônica sobre "Os Silvas, As Silvas", homenageando duas Mulheres Lindas: NZINGA MBANDI & MARISA LETÍCIA DA SILVA
Rainha Nzinga e a Primeira Dama Coquinho Baiano

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br

Edição 62 - de 26/Fev a 04/Mar de 2006

 

Andre Pessego

São Paulo, Fev.2006

Nota do Editor:

        A chegada de André Pêssego à nosso Jornal do Capoeira foi "um grande achado". Ele, como nossos amigos leitores perceberão, é profundo conhecedor das histórias e estórias de Palmares, e das lutas que o povo brasileiro - negro ou não - tem se empenhado ao longo de sua trajetória. Sobre a Saga de Palmares e sobre a Invasão Holandesa, André discorre como se fosse uma ladainha. Iêê é mandingueiro.

        O Projeto Zumbi na Roda é uma iniciativa que André e outros pares estão levando adiante na capital paulista. Ao longo das crônicas, o próprio autor lhe apresentará o escopo do projeto, bem como os anseios e conquistas do mesmo. André tem também sua história sócio-capoeirística, que tomarei a liberdade de não adiantar aos senhores para que ele mesmo o faça. Todavia, tomo a liberdade de confidenciar que André, atualmente, mantém-se na prática da mandinga junto ao Grupo de Capoeira Berimbau Brasil, de Mestre João Coquinho.

        Captando por completo o espírito deste Ano Internacional da Mulher Capoeirista - ao menos em nosso Jornal -, André Pêssego brinda-nos com informações valiosas sobre a presença feminina em momentos importantes de nossa história, homenageando a Rainha Nzinga Mbandi e nossa atual Primeira Dama Marisa Letícia Lula da Silva.

        Na foto primeira estão André Pêssego e Luiza, aos cinco anos (Batizado do Grupo de Capoeira Berimbau Brasil, Junho de 2005), segundo o próprio autor da foto (André): "depois do nascimento e antes da morte, um dos ratos momentos em que as pessoas se igualam (voluntariamente)". Na segunda ilustração apresentamos a capa da segunda edição da Revista Toques de Angola, do Grupo Nzinga Capoeira Angola - de Mestras Janja, Paulinha e Mestre Poloca. Nessa edição a revista traz matéria interessante sobre a Rainha Nzinga Mbandi. A terceira ilustração é de nossa Primeira Dama e foi capturada no site oficial do planalto.

 

            Cordialmente,

 

                Miltinho Astronauta

 


PALMARES, UM PROJETO DE NAÇÃO - II

"Capoeira é um hábito cortes que criamos dentro de nós"

Mestre Pastinha.

 

            Para facilitar o estudo e a compressão histórica de Palmares, vamos sugerir um roteiro com algumas perguntas, inicialmente:

a)      Que significado tem a instituição quilombo no contexto da História Africana? O quilombo foi uma instituição somente do povo africano?

b)      Zumbi fora criado, dentro do projeto de ser Padre ou Embaixador. Por que Zumbi desiste de tudo e vai para Palmares?

c)      Se Palmares tivesse se aliado à Holanda como seria o Brasil? Qual seria a géo-política do Mundo, hoje?  Por que não se aliou?

d)      Nassau, reinando absoluto, como reinou, não fez um único ataque a Palmares. Por que não o fez? 

e)      Palmares não fez um único ataque. Por que nunca atacou?

f)        Quem de nós já ouviu falar do Sermão o XIV de Padre Vieira, 1633, a Carta do Diabo? (Apenas uma professora mineira se lhe fez referência, em Tóquio, talvez por todo o SEC. XX).

 

No escrito anterior (Palmares, um Projeto de Nação) me referir a quatro historiadores - Barleux, Rocha Pita, Alfredo Brandão e Nina Rodrigues - sobre cujas posições farei considerações em artigo próprio. Neste, vou expor a conceituação de Quilombos, e contar uma passagem, dedicada a duas MULHERES, lindas.

           Quilombo, tal como a milenar estrutura do poder pelo consenso da idade, o consensual da bravura, (determinado pelas ações na guerra); pela riqueza advinda da boa colheita; pelos poderes da sabedoria, temporal ou celestial;  pela anterioridade familiar. O quilombo foi a forma emergencial da continuidade do poder: o poder rompido talvez por uma catástrofe, provavelmente já pelas pilhagens européias. O Quilombo representou, sempre, um projeto de nação. Sem a "concepção quilombo" tinha sido impossível se determinar em Palmares um comando - já que aqueles negros eram estrangeiros entre si. A emergência, e o projeto de Nação dentro da emergência: isto é Quilombo. As definições que estão nos dicionários, constituem uma ofensa a nós, o negro;  é uma barreira à nossa integração . Houve lugar de fuga? - houve e foram muitos;  houve revolta? - houve; houve batalha? - houve, muitas; porém como "apelos"  dentro do Poder estabelecido. Assim como tiveram outros Quilombos. Os Quilombos foram iniciativas apenas africana? Sim! Como Sierra Maestra, foi modelo de iniciativa apenas cubano; os kamikases, no Japão, etc.

 

OS SILVAS, AS SILVAS,

 

            Fins do Séc. XV,  a pilhagem material da África atinge proporções inimagináveis. Em Portugal, dentre muitos ricos, havia o sr. João Manuel, do "vale d'Ouro", reinando mais que o rei, bom cristão. Outro sr. João Manuel parte para os negócios em África, aventureiro; enriquece, fixa residência na "Costa d'Ouro", na África. Como o outro "manda e desmanda junto ao Rei". O rei pisando em brasas ao se reportar ora a um; ora ao outro. Isto irritava à Rainha. "Falsidade, fraqueza do marido, um decrépto", ...

            Um dia, o rei adoentado. Chega ao Palácio o Sr. João Manuel. 

 

-          Senhora, da parte do sr. João Manuel, d'Oro, vem dizer-lhe o oficial.

-          De qual dos dois?,  interroga a Rainha, senhora moça, bem moça.

-          Senhora, não, não é um emissário, desculpe-me, mas é o próprio.

 

          Com certeza não será o de África, avalia para si a Rainha; indo ela mesma até à sala. Tinha profundo asco ao "africano". - O próprio, lástima!

 

-          O senhor é o Sr. João Manuel daqui, ou o Sr. JOÃO MANUEL DA SELVA? Interroga, com gestos de pouco-caso, para ofender mesmo.

 

E ficou, em tom de zombaria nas cortes... "O da selva...."

 

O Rei tratou logo de "legalizar" a nova linhagem e para não magoar o sr. João Manuel, amenizou: trocou "E" pelo  "I" e criou o SILVA, com "brasão".

         Entremeio às décadas 30/40, do Séc. XVII, a Rainha Nzinga Mbandi, reina entre guerra, a mais renhida entre África e a Europa. Na tabulação dos acordos de paz, aquela que virá a ser integrante da Capoeira, a Ginga, aceita converte-se ao catolicismo. Em meio a cerimônia, já mais vista nalgum lugar da Terra, a Rainha vai ser batizada, renomeada. E o nome? - Rainha altiva, quase soberba, beleza ímpar,  ciosa de si... E o nome? ... "Viche!!" teria exclamado o conciliador Presidente Lula.

 

-          Nzinga Ngolo Mbandi, recebeu do Rei, com medo da sua reação, (medo do tal "Silva" desagradá-la...), o nome de Dona Anna de Souza.

-          Após alguns anos, Nzinga soube do arranjo, não gostou. Desconverteu-se. Dividiu seu nome, seus feitos, sua beleza, sua dor, sua memória com o seu povo mundo afora,  e principalmente, com o negro brasileiro. Queria ser - isto sim -  Silva! Silva, como o filho mais velho de Marisa e Lula.

 

         Esta crônica, se assim puder chamá-la, é para MARISA LETÍCIA DA SILVA, pelo negro brasileiro, em especial, pela "capoeira", mulher. Letícia,  a quem, com os olhares de Nzinga, Deus trocou-lhe o nome e botou-lhe o SILVA. Letícia: nenhuma mulher engrandeceu e encoraja seu povo, por todos os continentes, tantos séculos depois, como a Rainha Nzinga; nenhuma mulher no Brasil, fez jus ao título de Presidenta como você - você o conquistou, você foi eleita.  A inteligência ou é um bem ou é um mal - determina-o a capacidade de gerir a inteligência: A virtude é saber conduzir a inteligência, você é o símbolo deste saber. O Presidente não seria quem é sem você, Marisa. Assim, Deus fez as intervenções que fez, ao cabo de cada missão cumprida...

 

                                          Andre Pessego, Projeto Zumbi na Roda, São Paulo, capital.

 

Crédito Foto Primeira Dama: Secretaria de Imprensa e Divulgação - Por: Ricardo Stuckert - http://www.info.planalto.gov.br/exec/inf_fotografiacasal.cfm


2006 - Ano Internacional da Mulher Capoeirista no Jornal do Capoeira




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