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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS

  25/08/2005
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RODA DE CAPOEIRA NAS BIBLIOTECAS

Crônica capoeirística por André Luiz Lacé Lopes, mestre em Administração pela Syracuse University, Nova Iorque, e de Capoeira - estilo Sinhozinho. Nesta crônica o autor escreve sobre os lançamentos recentes de livros sobre Capoeira, passeando um pouco sobre a literatura clássica de nossa arte

RODA  DE  CAPOEIRA  NAS  BIBLIOTECAS Jornal do Capoeira

Jornal do Capoeira - Edição 44: 22 a 28 de Agosto de 2005

EDIÇÃO ESPECIAL estendida - CAPOEIRA & NEGRITUDE

 

André Luiz Lacé Lopes

Leblon, 22.08.2005

 

Entre a Teoria e a Prática da Capoeiragem, francamente, sou mais uma boa roda livre cheia de excelentes capoeiras.  Por outro lado, impossível negar, Prática e Teoria devem sempre andar lado a lado. Daí a crescente importância de livros e artigos sobre o assunto. Quem não gostaria de ter, por exemplo, um exemplar original da valiosa e misteriosa obra de ODC - "GUIA DO CAPOEIRA ou  GYMNASTICA BRASILEIRA", publicada em l907, no Rio de Janeiro?

Há até quem afirme  que o exemplar da Biblioteca Nacional foi afanado por um "pesquisador" que não queria e continua não querendo que a verdade apareça. "Verdade" que teria também servido de base para o surgimento de tipos de Capoeiras mais formalmente metodizadas.

Como o caso, indiscutível, da obra de Anníbal Burlamaqui, publicada em 1928 - "Gymnastica Nacional (Capoeiragem) Methodisada e Regrada",  que correu todo o Brasil, sendo disputada, sobretudo, por capoeiras pesquisadores.

E quanto às crônicas e artigos de antigamente?

Como negar a importância de um "22 da Marajó", de Monteiro Lobato, de um "O Nosso Jogo" (Bazar),  de Coelho Netto, de um "Capoeira", de Lima Campos e tantos outros?

Igualmente importantes são alguns romances antigos, como "Os Capoeiras", de Plácido de Abreu, "O Cortiço", de   Aluízio Azevedo, e "Numa e a Ninfa", de Lima Barreto (obra favorita de Luiz Sergio Dias, autor premiado com o trabalho "Quem tem medo da Capoeira?"),  para ficar apenas em três exemplos.

Como se sabe, também os romances, atualmente, são considerados importantes fontes de pesquisa dos costumes de época e até de episódios históricos.

 Tínhamos, no começo do século passado pouquíssimo livros, especificamente, sobre Capoeira.  Temos, agora, segundo alguns, livros até demais.

Não concordo com esta afirmação, mesmo tendo que admitir que boa parte dos livros, assim como  muitos cds de capoeira, não são bons;  não passando, tais livros,  de meras cópias distorcidas, fantasiadas e até mercantis. Basta dizer que tem autor que, a cada livro, contradiz o próprio livro anterior que fez (ou assinou), inventando sempre uma nova versão para o Passado que finge sempre narrar com fidelidade.

Mas o Tempo é Senhor da Razão, encarregar-se-á de filtrar e purificar tudo isto.

Processo de filtragem que, sintomaticamente, começa a se fazer mais forte de fora para dentro. Ou seja, alguns pesquisadores estrangeiros começam a escrever livros bastante razoáveis sobre a nossa Capoeiragem, bem melhor do que a maioria dos livros escritos por brasileiros, no Brasil ou no exterior.

A continuar esta tendência, a melhor interpretação do fenômeno da Capoeiragem acabará sendo feita por um estrangeiro competente e sem amarras dogmáticas ou regionalistas.

Este mês de agosto foi pródigo em lançamentos, tivemos três aqui no Rio: 1. O realizado pelo Sr. Jonas Rabelo, internacionalmente conhecido como Mestre Russo de Caxias (Baixada Fluminense, RJ); 2.  Um outro pelo Dr. Matthias  Rohrig Assunção (Inglaterra); 3.  E  um terceiro pelo jornalista Mano  Lima (Brasília, DF).

Até em termos quantitativos, como se vê, o balanço ainda tende para o Brasil (não sabemos até quando). Em teor capoeiristico também, como se pode facilmente concluir através da leitura do livro "Capoeiragem, Expressões da Roda Livre", de Mestre Russo de Caxias. Um livro corajoso que teve a ousadia de falar de capoeira sem partidarismos, sem bairrismos, sem engajamentos regionais ou comerciais. O livro de Russo é ecumênico, fraterno e generoso com a Capoeira e com os Capoeiras de toda parte do Brasil e do mundo. Com ênfase, é claro, na sua criativa Capoeira da Baixada Fluminense, Ponto de Encontro obrigatório e prazeroso de todo capoeira que viaja ao Rio de Janeiro.

Jonas, realmente, é mais do que mestre, é, como, aliás,  ele prefere, um verdadeiro Zelador da Capoeiragem.

Já o livro de Matthias Assunção - "Capoeira, the History of na Afro-Brazilian Martial Art" - é livro de phd feito ao longo de uma grande "vorta do mundo" (nasceu na Turquia, viveu na Alemanha, na França, no Brasil... ensina atualmente no Departamento de História e no Centro de Estudos Latino-Americanos, na Universidade de Essex, na Inglaterra). Trata-se de um   phd  estrangeiro, mas que joga capoeira, que correu e corre as rodas do mundo. Tem a seu favor a coragem de exercitar um pouco o Contraditório. Apenas um pouco, mas já é um bom começo. Até porque continua pesquisando e outras obras virão.

Que eu saiba, é o primeiro livro em língua estrangeira que ousa ponderar sobre algumas versões apaixonadas sobre este ou aquele mito e seus intrépidos e, por princípio, suspeitos mitônomos. Dr. Matthias ousa até mencionar meus livros, usando alguns trechos para demonstrar a existência de fortes controvérsias. O phd que se preza não tem medo de exercitar o Contraditório, até pelo contrário. 

Em muito tempo, tenham a certeza, livros ainda mais completos e realmente leais a História estarão vindo à tona em outros mares.

Finalmente temos o livro do jornalista Mano Lima - "Dicionário de Capoeira" - um livro quase ingênuo pela limitação de fontes,  mas que promete. Será aconselhável conversar com mais algumas pessoas e ler mais algumas obras como a Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana e o Novo Dicionário BANTO do Brasil, do Mestre Nei Lopes...

Isto para começo  de conversa...

Mesmo assim, o livro, que  já tem valor próprio,  promete muito mais.  É o que se pode concluir  por alguns bons trechos, pela própria conversa com o jornalista, mas, sobretudo, pela leitura de um segundo livro, de sua autoria em parceria com Francisco das Chagas Firmino do Nascimento - "Terceirização na Educação"! - que Mano Lima teve a  gentileza de me oferecer também.

Um trabalho que todos mestres de capoeira deveriam ler, especialmente aqueles que pensam entender de tudo. Livro realmente interessante, dependendo de mim, bateria ainda mais forte, especulando se o verdadeiro objetivo da "terceirização" não seria, pura e simplesmente, dar uma rasteira na Educação. Rasteira diabolicamente genial, pois, além de assegurar conveniente analfabetismo, ainda por cima, funcionaria como "queima de arquivos" (desestruturação do funcionalismo estável) e um senhor cabide de emprego, sem obrigação de concurso público. Tese que, certamente, nos levaria a clássica questão criminal:  a quem interessa  (cui prodest)?

Pergunta que, diga-se de passagem, em outro contexto, utilizei no meu livro "Capoeiragem no Rio de Janeiro - Sinhozinho e Rudolf Hermanny (pág. 36).

 Tenho certeza, pois,  que a segunda edição do Dicionário não tardará. E  virá enriquecida com informações que só agora começam a chegar ao jovem jornalista. Créditos, então, terão que ser dados a recente visita que Lima fez ao Rio de Janeiro, onde, só dos arquivos de Mestre Bogado, "xerocou" dezenas de raras informações.

Todos os três livros, entretanto, continuam a cometer uma grave injustiça com a própria História da Capoeira, pois continuam deixando de fora o episódio mais importante para quem entende que a capoeira também é luta. Refiro-me a heróica luta de Rudolf Hermanny com Guanair Vial, da Escola Gracie, na época, a mais poderosa de todas (continua muito forte como escola de jiu-jitsu, mas dividindo espaço, em termos de luta livre, com  o Mix Martial Arts (MMA), cuja raiz, diria eu, está no  Vale-Tudo de origem também brasileira.

A capoeira é multifacetada, ensinava a meus alunos e repito, em artigos, há longas décadas. Pode e deve ser praticada em qualquer uma de suas formas ou até em conjunta (onde apresenta  seus maiores feitiços; créditos para o extraordinário Mestre João Grande). Entretanto, seja a forma qual for, uma coisa é certa, toda a dinâmica é inspirada em movimentação de luta. E o que temos para dizer, para provar ao mundo, em matéria de Capoeira Luta?

Confrontos nebulosos, com regulamentos nebulosos, com resultados polêmicos? Confrontos de não mais de três minutos? Confrontos romantizados, em noite enluarada com faca de ticum encantada?

Temos registros sólidos sobre tudo isto ou grande parte deste passado está virando conversa de pescador?

Nas últimas décadas, que capoeira (refiro-me à chamada capoeira "contemporânea" ou similares) lutou de verdade, contra quem e  aonde?

Confrontos de rodas não valem, pois estão à mercê de versões fanatizadas, de variáveis do momento, de regras modificadas na hora, de diferença de peso, de diferença e ritual, de diferença de status socioeconômico.

Lutas do passado que, agora se sabe, foram combinadas no banheiro, também não servem.

O que, nós capoeiras, temos então para contar?

Como responder ao brilhante psicólogo João Alberto Barreto, campeão de jiu-jitsu e vale-tudo, que lutou inclusive contra capoeiras, quando afirma: "capoeira regional não ficaria 15 segundos na minha frente?".

Porque só agora os livros de capoeira começaram a mencionar e louvar um mestre (Sinhozinho) que realmente ensinou luta de capoeiras aos seus alunos?

Luta de verdade, como provam os jornais da época. Sem contradição, sem polêmica, sem "amarelamento" e  sem o surgimento de versões maquiadores da verdade!

"Mas capoeira não é luta de ringue", pateticamente afirmam alguns falsos "gurus" da Regional (existem, é claro, os lúcidos e bem intencionados). Ora, ora, e se um Vanderley Silva, apenas para dar um exemplo, aceitar lutar numa roda, qual seria o resultado?

Valendo lembrar, por muito oportuno, que a luta de Rudolf Hermanny com Guanair, foi numa quadra de Basquete cimentada, começando - vejam que interessante coincidência - na RODA central da quadra.

Felizmente, pelo menos Dr. Matthias já começou a resgatar esta importante parte da verdadeira parte da Capoeira Luta Brasileira.

Em boa hora, portanto, o livro "Capoeiragem no Rio de Janeiro, Sinhozinho e Rudolf Hermanny", acima mencionado será brevemente lançado em versão inglesa.

Pouco a pouco, finalmente, a História da Capoeiragem vai sendo reescrita, com mais acerto e com mais justiça.

Bom para todos, pois teremos uma história ainda mais fascinante do que a que por ai campeia  sustentada por paixão (meio mercantilizada) e marketing de primeira.

A Capoeira, então, tomará sua forma definitiva. Não querendo dizer com isto que não continue sua caminhada. Afinal, se a Sociedade é Dinâmica, e a Capoeira está dentro da Sociedade, nem será preciso (embora seja recomendável) dar uma segunda leitura na "Dinâmica do Folclore", do querido e saudoso Edison Carneiro.



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