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Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br
Edição 62 - de 26/Fev a 04/Mar de 2006
São Paulo, Fev.2006
"Lemba ê, lembá,
Lemba do Barro Vermelho,
Lemba ê, lembá,
Lemba do Vermelho Barro..."
"Você sabe o que é malungo?" Estava há algumas horas conversando, ouvindo histórias e até fazendo um som com um mestre conhecido da Capoeira Angola de Salvador quando ele me fez essa pergunta. Respondi que não sabia exatamente o significado e ele me disse: "malungo é o africano, vindo no tumbeiro, o cara que conseguia se comunicar com os outros, de outras línguas e nações, e de quem ficava camarada".
Nos dicionários e livros de vocabulários, malungo é descrita como uma palavra de origem banto, do quicongo e quimbundo nkwanlungu. Significa irmão, companheiro de barco. Aqui, no Brasil, virou tanto o africano com quem se dividiu a terrível viagem no navio negreiro quanto um irmão de criação, um camarada. Mas a definição do velho Mestre faz pensar.
Primeiro, abre a mente para uma coisa: ao contrário dele, a maioria dos capoeiristas nem tenta entender as palavras que estão nos nossos rituais, nas nossas músicas. Simplesmente repete o que ouve, compreendendo tanto o que está sendo dito quanto um finlandês, lá no meio da neve, entende os cantos em um CD do Ilê-Ayê.
A maioria dos capoeiristas não tem como aprender diretamente dos velhos mestres. Mas isso não é desculpa para que, em grande parte das academias daqui de São Paulo e de outros estados, as músicas de capoeira sirvam só como um fundo musical para as pessoas malharem (para isso, ouçam músicas dançantes e façam aeróbica, por favor).
Claro que o mistério e os segredos do nosso jogo não podem ser decifrados completamente e nem devem ser escancarados. Tudo deve ser entendido aos poucos, na hora certa. Mas uma coisa é o segredo, presente tanto na capoeira quanto nas religiões afro-brasileiras. Outra coisa é ignorar as tradições e nem tentar entendê-las. Não podemos nos desconectar dos nossos ancestrais, não podemos perder o fundamento, a ancestralidade da capoeira.
A tradição africana é oral. As palavras, quando saem da boca de um velho mestre, valem mais do que qualquer estudo. O corpo também tem sua própria fala, que deve ser ouvida. Mas, como muitas tradições acabaram se perdendo na distância e no tempo, não custa a gente procurar especialistas de outras áreas para relembrar seus significados. Claro que o capoeirista não precisa se tornar um estudioso de idiomas. Mas já que ultimamente fazem tantos seminários e encontros sobre capoeira e nossa herança africana, por que tão poucas vezes convidamos lingüistas e etnolingüistas? Perdendo a história da língua perdemos também a chance de ter mais um caminho que nos ajude a entender a história do povo brasileiro (e da capoeira).
Mas não foi só isso que saiu da fala do Mestre. Ali, naquelas palavras, estava também a influência BANTO. Entre os africanos que chegaram no Brasil, os povos que falavam línguas de origem banto foram os primeiros e a grande maioria. Aqui, receberam nomes como congo e angola, o que junta um número enorme de etnias e línguas. Os mais influentes no Brasil (por terem sido maioria) ficavam na costa e falavam o quicongo, quimbundo e umbundo.
A influência banto foi, durante muito tempo, deixada a segundo plano nos livros que analisam nossa história. Mais comentada foi a influência das línguas da família kwa (principalmente o iorubá, mas também ewe-fon). Até mesmo porque os terreiros mais famosos de Salvador usam essas línguas (muitas vezes modificada) nas suas cerimônias. Mas a África, continente gigantesco, rico em etnias, culturas e tradições diferentes, não pode ser vista como se fosse uma coisa só (ou com superioridade deste ou daquele grupo). Ninguém pode falar só de iorubá na África e no Brasil, assim como não dá para dizer que na América Latina todo mundo fala espanhol.
Os iorubás, os terreiros nagôs-queto, merecem mais do que nosso respeito. Merecem nossa mais profunda admiração (ou devoção), pela resistência, pela preservação dessa religião maravilhosa, dos costumes e até mesmo pela fundamental influência na "identidade afrobrasileira" atual. Mas temos que tomar cuidado com generalizações. Alguns estudiosos acabam até confundindo frases e palavras de origem banto e dizendo que são iorubá. Será que isso não aconteceu na interpretação dessa música de capoeira?
"Lemba ê, lembá,
Lemba do Barro Vermelho..."
Alguns estudiosos dizem Lemba ser uma corruptela de Legba, Elegbará, Elebá, o orixá Exu. Mas por que não seria Lemba mesmo? Lemba, banto, uma inquice do candomblé congo-angola, "equivalente" a Oxalá (nagô-queto) e Liça (jeje-mina).
De origem banto é a capoeira, o samba, nossa ginga. Mas mais do que isso. O banto é fundamental para o Brasil e está presente toda vez que algum brasileiro abre a boca. A língua portuguesa falada no nosso país é totalmente misturada às línguas de origem banto. Até o mais racista dos brasileiros não consegue fugir disso. Imaginem a seguinte frase:
"Meu filho caçula, que é meu xodó, veio zangado e xingando falar comigo, humm... tudo porque um marimbondo o picou na bunda."
Ou essa: "No meio da bagunça, vi a mulher com a mochila nas costas, me pedindo um dengo. Fiquei encabulado, mas tomei uma cachaça, me enchi de coragem e fui lá fazer um cafuné." Todas as palavras em negrito são de origem banto, inclusive o humm, esse som de negação, que foi trazido de terras africanas para a boca do brasileiro.
Quando a gente sabe o que está falando consegue ver o quanto nossa origem é mestiça. Aqui em São Paulo, muita gente acha que só se fala "africano" na Bahia, porque as palavras iorubá são mais reconhecíveis. Mas não é só quando dizemos axé, agogô, orixá, acarajé, Olodum, Araketu, Ilê-Ayê que devemos à África.
De novo, nem tudo deve ser explicado nos rituais e nas músicas. Devemos manter o mistério. Mas segredo não é ignorância. Ao contrário. Para fazer segredo, a pessoa precisa conhecer a fundo um assunto e só divulgá-lo a quem achar merecedor. Por isso, é importante que existam capoeiristas "malungos", na definição do Mestre. Gente que conheça sua língua e as dos outros, unindo diferentes "nações" sem perder a tradição. E, como ele costuma dizer: só não vá confundir malungo com maluco.
Luiz Cabeleira
Bibliografia:
1. Capoeira Angola - Rego, Waldeloir
2. Novo Dicionário Banto do Brasil - Lopes, Nei
3. Artigos e entrevistas da Professora/Doutora Yeda Castro
2006 - Ano Internacional da Mulher Capoeirista no Jornal do Capoeira
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