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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS

  07/08/2005
  1 comentário(s)


VALE-TUDO & CAPOEIRAGEM & RIO DE JANEIRO

Artigo sobre equipe francesa que está fazendo um curta-metragem sobre Capoeiragem, Vale-Tudo e Jiu-Jitsu no Rio de Janeiro. A equipe aproveitou para entrevistar os Mestres André Lacé, Rudolf Hermanny e João Alberto Barreto, além de fazer um "tour" pela Capoeira carioca.

VALE-TUDO & CAPOEIRAGEM  & RIO DE JANEIRO André Luiz Lacé Lopes

Jornal do Capoeira - Edição 42: 8 à 14 de Agosto de 2005

 

André Luiz Lacé Lopes

Leblon, RIO -  29 de julho de 2005

 

  Pelo telefone, recebo solicitação de entrevista para um "curta metragem" sobre Capoeiragem, Vale-Tudo e Jiu-Jitsu (sobretudo dos Gracie)  no Rio de Janeiro

Interessante projeto de uma equipe francesa. Aceitei, com uma condição, e adiantando que nenhum trabalho deste tipo estaria completo sem entrevistar os Professores Rudolf Hermanny e João Alberto Barreto, sendo, também, aconselhável filmar algumas boas rodas entrevistando os respectivos mestres.  O coordenador dos trabalhos aceitou prontamente minha sugestão e parte da condição que impus:  trazer uma boa garrafa de vinho da França e comprar um cohiba no free-shopping de um dos aeroportos, ou do Charles De Gaulle ou do Tom Jobim. A equipe, antitabagista, achou por bem trazer apenas um excelente vinho. O que foi feito, sendo devidamente incorporado à adega da Dra. Arly que, especialista, explicou que o momento pedia vinho branco.

 

 

Toda esta história nos proporcionou um final de semana absolutamente extraordinário. Começando na quinta-feira, numa tripla entrevista, comigo, com o Hermanny e com o João Alberto.  Hermanny, único capoeirista que lutou (luta de verdade) mais de uma hora com lutador de jiu-jitsu. João Alberto, que venceu todas as lutas de vale-tudo que fez, fazendo questão de só usar o jiu-jitsu, muito bem aprendido com a Família Gracie. João Alberto teve, também, um interessante confronto com Mestre Artur Emídio de Oliveira, foi árbitro de confrontos entre capoeira e jiu-jitsu e, como psicólogo, é autor de um extraordinário livro sobre Psicologia do Desporto (já fez palestras para mestres de capoeira).

Se quinta-feira foi marcante, sexta-feira não ficou atrás. Para começar havia roda de qualidade por todo Rio de Janeiro!  Só no histórico bairro da Lapa, duas grandes rodas, do Quilombo do Mestre Arerê e do Grupo Senzala, na Fundição Progresso. No Méier, Mestre Grilo fazia sua grande roda mensal, e, em Bonsucesso, Mestre Cabide promovia uma roda internacional, com presença do seu amigo Mestre Camaleão (Marseille). 

Vejam vocês, depois dos espetaculares lançamentos itinerantes do livro -   "Capoeiragem: Expressões de Uma Roda Livre   - que Mestre Russo de Caxias (Sr. Jonas Rabelo) promoveu na semana passada, temos uma semana dessa.

Optamos por visitar, até por falta de tempo, apenas duas rodas, a do Mestre Arerê e a do Mestre Grilo. Opção que se mostrou acertada, em que pese a dificuldade no trânsito, pois foi uma verdadeira e rara noite  de excelente capoeira. Sendo que, na Roda de Mestre Arerê, a equipe foi surpreendida com uma exuberante demonstração de Tambor-de-Crioula, parente, sem dúvida da capoeira, mas sem relação alguma com vale-tudo.  Mas, o fato é que os franceses ficaram absolutamente encantados e, conseqüentemente, com um grande problema nas mãos: como fazer um "curta" com tanta coisa boa gravada?

Guardando as proporções, sinto o mesmo problema neste momento, pois este fim de semana pediria um livro e não apenas uma crônica.

 

Entrevistas Iniciais

Voltei a defender o que sempre defendo, bem fundamentado e bem intencionado. O que falei está em meus artigos e nos meus livros (que a equipe já tinha lido).  Está também no meu site que, finalmente, está no ar.

 

            Professor Rudolf Hermanny. Ao contrário de alguns mestres muito falantes, quase falastrões, Hermanny não é de falar muito. Mas a equipe estava bem municiada, inclusive com o livro que a Universidade Estácio de Sá escreveu sobre ele.  O que os capoeiras do Brasil não estão fazendo,  os capoeiras de fora farão, ou seja, reconhecer a grande e fundamental importância de Hermanny  na verdadeira História da Capoeira (há muito marketing na história fantasiada que corre o mundo...).

           

Professor João Alberto Barreto tem muita, muita história, e sabe contá-la muito bem. Foi o que fez.

Acompanhou, fora e dentro do ringue a fase áurea da Saga Gracie (os grandes pioneiros dos atuais eventos de Mix Martial Art; já escrevi sobre isto quando visitei, anos atrás,  a Academia de Rorion e Royce em Los Angeles). O que significa que João Alberto vivenciou também a evolução da prática do vale-tudo do Subúrbio do Rio e do nordeste que sempre produziu grandes lutadores.  Tanto assim que, bem orientada, a equipe francesa, antes da entrevista em minha casa, praticamente na mesma rua (Leblon/Lagoa), entrevistou o campeão baiano Minotauro (Antônio Rodrigo Nogueira),  há algum tempo radicado no Rio, treinando na academia Brazilian Top Team).  Foi de João Alberto a frase "Capoeira  Regional não ficaria em pé na minha frente mais de dez segundos". Frase sem intenção de ofender, até porque não é o feitio do Professor Barreto, apenas um alerta sobre a ineficácia dos atuais movimentos e pulos rápidos. Com um opositor bem mais fraco, claro, dará certo, mas com um opositor de categoria, experimentado em outra luta, com resistência para lutar dez, quinze minutos, seria um desastre.

Que capoeirista da  regional ousaria enfrentar o "casca grossa" Minotauro ou o não menos extraordinário paranaense Vanderlei Silva (aliás, meu conterrâneo)?  Mesmo que a bolsa fosse de milhões de dólares ou euros? Neste momento sempre aparece a conversa que "capoeira é Amor e que mestre, agora, é um profissional, não vai ficar se machucando assim sem mais nem menos". Alguns ainda insistem "que não há luta porque o mestre pode matar seu oponente com alguns dos golpes fatais da capoeiragem". Este "folclore" é que precisa ser revisto com realismo, a bem da própria capoeira na sua porção Luta.

            Enfim, Professor João Alberto Barreto é um dos nomes que deve participar de todo reunião séria (seminário, congresso etc) sobre os destinos da capoeira-desportiva e da capoeira luta. E mesmo em reuniões sobre a especialíssima capoeira tradicional, também aí, o lutador e psicólogo João Alberto terá sempre muito a contribuir.

 

As Rodas e Entrevistas finais

 

            Quilombo do Mestre Arerê.  Excepcionalmente não foi realizado no Circo Voador, também na Lapa, e sim, na Casa de Teatro do Tá na Rua, (Avenida Mem de Sá nº 35), coordenada por Amir Haddad, com quem tive a honra de participar, em 1994,  de um seminário em Nova York, sobre cultura popular brasileira. Antes da capoeira, o  grupo Pé de Chinelo deu uma extraordinária demonstração de Tambor de Crioula do Maranhão.

Ou seja, no mesmo tempo que o Professor Leopoldo Vaz, professorava no Jornal do Capoeira (Miltinho Astronauta) sobre a pungada, o Pé de Chinelo pungava na Lapa. Não é a toa que muitos estudiosos entendem que o tambor de crioula no passado era, também, uma dança preparativa para a luta. Ou a punga não tem certa relação com o passo a dois?

            Arerê, ao contrário de muitos mestres que só fazem discursos vazios, alienados, fanatizados, comerciais, pseudo-filosóficos ou pseudo-religiosos, faz sempre exposição corajosa e bem fundamentada. A "falação" é uma tradição da Capoeira, deve, é claro, continuar, mas com a preocupação de não cansar os ouvintes e, sobretudo, não vender fantasias.

 

E se Mestre Arerê (Sr. Eraldo Teixeira da Silva) falou bem, melhor ainda comandou sua roda e, ao nela entrar, confirmou para todos, a máxima do querido e saudoso Mestre Caiçara: "roupa de homem não dá em menino". Nada de jogo truculento, nada de saltinhos circenses, capoeira pura, de mandinga, de sentido, de malandragem, bem humorada e, de repente, uma meia lua solta para decepar a capoeira de algum parceiro eventualmente desatento.  Há muito tempo não via  roda igual, incluindo-se aí uma saída ao pé do berimbau que, modesta a parte, eu costumava dar, longas décadas atrás. Incluindo-se, também, presenças ilustres, como a do Mestre Casquinha.

 

Grupo de Capoeira Arte Nobre

 

Da Lapa voamos para o Méier tendo que atravessar nuvens de trânsito pesado, pois, afinal, era sábado. E sábado, como dizem por aqui, metade do Rio sai de casa para se encontrar com a outra metade. Chegamos tarde, mas valeu a pena. Meu termômetro era a equipe francesa, crescentemente maravilhada. 

 

Mestre Grilo (Sr. Luiz Antônio de Abreu) nos recebeu tão bem quanto Mestre Arerê, embora lamentando que metade do seu numeroso grupo já tinha ido embora. De saída propôs e apresentou uma demonstração de ataque e defesa. Até Dona Arly, obrigada a viajar comigo em tantas rodas, exclamou: jamais tinha visto este tipo de preocupação, feita com tanta maestria!

Após esta demonstração veio uma grande roda de capoeira, com todos brilhando, da semente - crianças empolgadas entrando na roda - aos marmanjos, jogando pesado e com total objetividade (quesito exigido por Mestre Grilo). Coroando a noite, Mestre Grilo comandou um samba de roda.

Não sei professorar sobre o problema do mundo, muito menos sobre os segredos de Brasília, mas, uma coisa eu sei e vale repetir: o grande e único problema da equipe francesa (Label-Anim: Jérôme da Silva, Timothée Jansen e outros) neste momento, é como fazer um curta cortando grande parte de mais de cinco horas de gravação absolutamente indispensáveis.

Mas deixo aqui, terminando, uma sugestão simples: com todo respeito e admiração ao Jiu-Jisu e ao Vale-Tudo, por que não fazer um outro curta só sobre a Capoeira?



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