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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 CRÔNICAS

  27/11/2005
  2 comentário(s)


Vinicius e o Hino da Capoeira no Mundo

Inspirado no filme VINÍCIUS (de Moraes), o autor sugere a música Berimbau como o Hino da Capoeira

Vinicius e o Hino da Capoeira no Mundo Coquinho Baiano

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br

Edição 51 - de 27/nov a 3/dez de 2005

 

André Luiz Lacé Lopes

Leblon, 21.nov.2005

Em quase todas as seções, ao final do filme VINICIUS, a platéia bate palmas. Ora, sabe-se que o brasileiro não é muito de aplaudir. Nem em teatro, mesmo gostando muito. O fenômeno de se aplaudir uma tela, portanto, torna-se muito mais significativo. Parabéns ao diretor Miguel Faria Júnior e a todo extraordinário "elenco", com destaque especial aos depoimentos de Tônia Carreira, Edu Lobo, Chico Buarque, Toquinho e Maria Bethânia.

Não tive o prazer nem a honra de privar de sua amizade e de suas generosas rodas, mas esbarrei duas vezes com Vinicius de Moraes. A primeira, na Rádio Roquete Pinto, no Rio de Janeiro, onde era redator de jornal falado e produtor e apresentador do programa "Roda de Capoeira" (depois "Volta do Mundo"). Foi quando soube da canção Berimbau, razão maior dessa crônica. A segunda, como não poderia deixar de ser, foi na velha e fascinante Bahia, mais especificamente, num hotel modesto na Ladeira da Barra onde eu gostava de ficar com minha mulher e, acabei descobrindo, Vinicius de Moraes, gostava de ficar com a dele. Nas duas ocasiões a conversa foi rápida, mas suficientes para confirmar a genialidade do Poeta e, sobretudo, o seu imenso amor pela Vida e pelo Mundo.

Imagino os desafios enfrentados pelo diretor do filme, particularmente dois deles: 1. Selecionar o que seria filmado (tudo mereceria ser filmado, mas seria impossível, demoraria, simplesmente, uma vida inteira, inviável para uma seção de cinema); e 2. O que cortar, na fase final, do que tinha sido selecionado e filmado. Minha esperança, a esperança de todos, é que possamos assistir, mais adiante, a continuação desta obra.

De qualquer modo, mesmo reconhecendo o peso de tais desafios, particularmente lamentei a ausência do jornalista Carlos Alberto Afonso (Espaço Cultural Toca do Vinicius, em Ipanema. Cairia muito bem, também um breve registro sobre a CasaPueblo, em Punta Ballena, Uruguai, (Carlos Páez Vilaró!), que inspirou Vinicus a compor, com Toquinho, uma curiosa canção infantil (A Casa).

Carlos Alberto respondeu sobre o Poetinha no Programa o Céu é o Limite. Sabia tudo, como, agora, bem comprova seu Espaço Cultural, parada obrigatória de todo mundo, inclusive de pesquisadores de fora, quem vêm ao Rio pesquisar Vinicius, Bossa Nova, Jongo, Capoeira, Samba e outras bossas. Como editor, entre várias obras, produziu o livro Vinicius de Moraes, escrito por Geraldo Carneiro. Como animador cultural, entre várias promoções, idealizou e produziu uma Noite de Capoeira, onde fiz rápida palestra na calçada e o Professor Rudolf Hermanny teve suas mãos imortalizadas na Calçada da Fama.

Não é fácil surpreender Carlos Alberto com alguma coisa que ele não saiba sobre Vinicius de Moraes, com orgulho, portanto, coloco no meu currículo que eu consegui.

Justamente quando falei e expliquei para ele porque a canção BERIMBAU, de Vinicius deveria ser considerada , e um dia certamente será, o Hino da Capo-eira no Mundo.

Em resumo, esta foi a explicação:

1. Mesmo preferindo, em termos de luta, a Capoeira utilitária de Sinhozinho, não posso negar que o casamento da Capoeira com o Berimbau deu certo.

2. O que significa que a CANTORIA também faz parte da Capoeira que mais se pratica hoje no mundo inteiro.

3. Através da Cantoria da Capoeira, como se sabe, pode-se fazer interessantes análises sociológicas

4. Já escrevi alguns artigos mostrando e demonstrando como o Canto na Capoeira Tradicional, praticada mais pelo negro e mulatos pobres, continha mensagens sociais (r)evolucionárias. Criticavam a injustiça social, a discriminação racial, a hipocrisia dos ricos etc. Já o Canto da Capoeira estilizada ou contemporânea (ou lá o nome que se queira dar), talvez até com a ajuda eventual de serviços secretos, é nitidamente reacionário, profundamente alienado e alienante, procurando sempre inventar e cultuar super-homens, semideuses, louvando o poder individual, vendendo a idéia de um mundo mágico e venturoso, o Mundo do Capoeira.

4.1 Mesmo assim, quem tiver a paciência de ouvir centenas de canções de capoeira, antigas e modernas, conseguirá selecionar algumas até razoáveis. Muito embora, por razões óbvias, todas sejam muito ingênuas, salvo uma outra, que vai para o extremo oposto, por excesso de hermetismo, linguagem muito cifrada, quase sempre inspirada nos segredos da Umbanda ou do Candomblé.

4.2 Impossível negar, entretanto, grande sabedoria e teor poético em meia dúzia de chulas de capoeira, sobretudo nas letras mais antigas.

4.3 Da mesma forma que não se pode negar que parte dessa parte não nasceu dentro da Capoeira e sim foi aproveitada de alguma cantoria da literatura de cordel, do jongo e do folclore em geral.

4.4 Mas o mérito persiste, especialmente quando cantadas (as chulas) na hora certa, no momento apropriado, em função da dinâmica da Roda e em harmonia com o toque (outro "mensageiro") do berimbau. Harmonia esta que, infelizmente, nem sempre acontece. Cada vez mais, um número maior de novos mestres parece ignorar duas funções básicas da parte rítmica e cantada da capoeira: 1. Comandar a roda, alterando, se preciso, a sua dinâmica e o seu formato; e 2. Descrever o que se passa, de tal modo que " como registrei no meu primeiro livro " "até um cego pode ver o que se passa".

4.5 Por isto mesmo é que está mais do que na hora de o Capoeira perceber o presente iluminado que o Grande Mestre Vinicius de Moraes, dentre os diversos presentes que deu ao mundo, ofereceu especificamente à Capoeira.

5. Sugiro que todos capoeiras do mundo escutem a música, prestem atenção na letra e reflitam profundamente sobre seu significado. De maneira iluminada Vinicius conseguiu colocar todos elementos filosóficos que definem a magia da Capoeira. Senão vejamos (avaliação crítica da canção Berimbau, letra de Vinicius de Moraes, música de Baden Powell):

Quem é homem de bem não trai
O amor que lhe quer seu bem

Comentário: Vinicius teve nove casamentos, parece que alguns mestres de capoeira tiveram muito mais, só que, como o filme mostra muito bem, Vinicius amou todas as suas mulheres, crescendo mais com elas e as fazendo crescer também. Que me desculpem as feministas (muitas estão copiando o modelo machista), mas se é para ter mais de uma mulher, que se use a fórmula de Vinicius.

 

Quem diz muito que vai, não vai
Assim como não vai, não vem

Comentário: é a perplexidade de alguns capoeiras frente à Vida, escondendo-se por detrás de um desmedido amor pela Capoeira, fingindo viver intensamente, mas vivendo só pela metade. Egoística e pretensiosamente. As frases lembram também a ginga falsamente maliciosa de certos mestres; lembra, finalmente, certos eventos que são marcados e desmarcados continuamente.

Quem de dentro de si não sai
Vai morrer sem amar ninguém

Comentário; Um belo pensamento filosófico e, ao mesmo tempo, pragmático. Só esta parte deve-ria ser repetida em todas as rodas e cds de capoeira.


O dinheiro de quem não dá
É o trabalho de quem não tem

Comentário: talvez a frase mais importante em termos de engajamento social, uma das características históricas da Capoeiragem (que o aburguesamento tenta suprimir). Outra frase que deveria fazer parte obrigatória de todas as rodas do mundo. .


Capoeira que é bom não cai
Mas se um dia ele cai, cai bem

Comentário: outra grande tirada, aparentemente contraditória. Mas o fato é que não "há quem bata, que também não apanhe". O bom capoeira, realmente é difícil de cair, mas, nas poucas vezes que ocorre a queda, sabe cair, cai na negativa, escorrega pelos cantos, levanta e parte para cima sem ninguém perceber. Dá para fazer uma analogia com a própria Vida, onde todo mundo, em algum momento, leva uma rasteira, mas, ao invés de ficar no chão e não mais se levantar, deve, a exemplo do capoeira, sair na negativa, escorregar para os lados, levantar e partir para dentro da Vida. Isto é Capoeira, isto é Vida, isto é um hino à Capoeira e à Vida Isto é Vinicius de Moraes, um grande mestre de nós todos.

 

Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor
Tristeza câmara

Comentário: Segundo alguns psiquiatras, a capoeira é uma dança marcial e de sedução. Não é fácil discutir com psiquiatras, ainda mais quando o argumento merece respeito e profunda reflexão...

Alguns mestres da Capoeira Contemporânea (ou que nome se queira dar), aburguesada, contraditória, preparam seus alunos para "trocação" e "finalização" mas jurando que Capoeira é Paz e Amor, jamais admitirão a frase acima. Por alguma necessidade freudiana tem misteriosa necessidade de vender a Capoeira como luta mortal praticada por super-homens.

Menos, meus prezados, menos.

Capoeira é o que é, e não precisa de mais nada, é simplesmente fascinante. É pegar ou largar, sem a necessidade de mentir, omitir, distorcer, plagiar, inventar mitos ou mudar o passado.
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Temos aí uma apreciação genérica e improvisada. Que cada mestre, agora, mergulhe mais fundo nesta análise. Talvez algumas dúvidas surjam, como por exemplo, a aparentemente ausência do fator Negritude (essencial) na canção. Não está ausente, não!

Como Malcolm X percebeu muito bem ao visitar a África mulçumana e perceber que havia brancos também em condições miseráveis, o problema final, não será de racismo, mas de classes sociais. O que se pode perceber pela tendência de um pequeno grupo de milionários ficar cada vez mais milionário e um grande e crescente número de pobres ficar cada vez mais miserável. O caso dos subúrbios de Paris guarda grande semelhança com os guetos de New Orleans, com as favelas do Rio e com outros crimes sociais da nossa própria sociedade e governos, nesta fase diabólica de neo-liberalismo.

Vinicius ("o branco mais negro de todo o Brasil"), portanto, foi muito além, e equacionou questão com admirável precisão quando escreveu:

O dinheiro de quem não dá

É o trabalho de quem não tem.

Para mim, esta canção é a cara, a alma e o espírito da Capoeira e do Capoeira.

Saravá Mestre Poeta!

Uma fonte onde os mestres-compositores devem beber muita água santa.

Água (santa) de beber, camarada!

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Próximo Artigo: Capoeira, Perfil do Presidente Ideal






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