| Login | Crie o seu Jornal Online FREE!

Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

Capa |  CAPOEIRA VIRTUAL  |  CRÔNICAS  |  EVENTOS  |  LIT.CLÁSSICA  |  NOTÍCIAS


 CRÔNICAS

  15/08/2005
  1 comentário(s)


Visão libertária sobre Capoeira & Negritude

Visão libertária sobre Capoeira & Negritude Jornal do Capoeira

Jornal do Capoeira - Edição 43: 15 a 21 de Agosto de 2005

EDIÇÃO ESPECIAL- CAPOEIRA & NEGRITUDE

 

Por Max Ciqueira

Grupo de Capoeira Angola Omoayê

Perdizes, São Paulo

 

            Quando recebemos o convite para escrever um texto que falasse sobre Capoeira e Negritude fiquei pensando: é primeiro falar da capoeira, suas origens, seu amadurecimento, sua influência na cultura e sociedade contemporâneas, e depois falar da negritude, da escravidão no Brasil, dos movimentos de libertação e de como mesmo depois de tanto tempo « liberto no papel » o negro ainda é escravo, escravo social com raras oportunidades de se expressar, de evoluir..., de como ainda no Brasil a raça negra é tratada com desprezo, precisando se amontoar nas favelas, desenvolver formas alternativas de sobrevivência, onde entre elas está o mercado da violência e da bandidagem. Mas também teria que falar da cultura negra e sua influência na arte, na culinária, na formação do povo brasileiro.

 

            Falado de um, depois falado de outro, teríamos então que juntar as duas partes.

 

            Aí é que caiu a ficha.

 

            Como juntar duas coisas que não estão separadas ?

 

            "Capoeira é mandinga de escravo negro em ânsia de liberdade, uma coisa vagabunda", nos ensina Mestre Pastinha.

 

            O homem é um animal, embora barbeado, cabelo escovado, nariz empinado ou não, metido em roupas de grife ou não, andando de carrão, ou a pé, é um animal. E, é um animal interessante: é o único que mata seu semelhante por prazer, é traiçoeiro, e segundo o jornalista e escritor Fausto Wolff é um animal que vive procurando algo que já é dele por natureza: a Liberdade.

 

            Na sua procura por poder, o homem se imbecilizou e vem perdendo seu instinto natural, se aprisionou em nome de fama, do dinheiro e do poder.

 

            O primeiro homem deve ter surgido há uns vinte e poucos mil anos. É bem provável que tenha surgido no continente africano, e dali se espalhou pelas vastas terras cheias de água e alimento. Desde que cismou de deixar de ser nomade e fincar o pé num lugar, o homem vem aprisionando seu semelhante e obrigando-o a produzir para satisfazer sua sede de poder. Todas as culturas e civilizações, com raríssimas exceções, escravizaram, utilizaram-se da força, para conquistar e manter seu poder.

 

            Mas também, o homem foi capaz de evoluir substancialmente neste período, criou um sem número de ciências, inventou a arte, a música, a tecnologia e abriu espaço, literalmente ao pé da letra, ao dar um pulinho na lua e sair pelo universo.

 

            No Brasil Colonial, em meio a uma destas épocas cruéis, onde o imperialismo econômico começava a dar suas cartas, o negro africano surgia na sociedade brasileira, aprisionado, trazido em navios, escravizado, humilhado e obrigado a produzir incansavelmente para seus senhores, europeus mercantilistas que desejavam acumular mais e mais.

 

            Esses negros, esses europeus, os filhos de uns e de outros, se fundiram de tal forma que formaram o povo brasileiro. Esse mesmo de hoje que traz vários resquícios dos tempos de colônia, onde alguns comandam, outros lutam por igualdade e muitos sofrem sem ter esperança.

                  

            Durante o período colonial e por ação do colonizador e reação do escravizado, surge uma manifestação interessantíssima. Negros dissimulando uma brincadeira, criam uma expressão corporal associada a antigos rítmos africanos que, moldada durante séculos, ganhou o auxílio luxuoso do berimbau, do pandeiro, do atabaque, reco-reco, caxixi e agogo e viria tornar-se a capoeira dos tempos atuais.

 

            Durante todo seu desenvolvimento a capoeira foi amparada e utilizada pela raça negra como sua expressão original de liberdade. E se hoje brancos e negros se agacham ao pé do berimbau, fazem suas orações e saem para o jogo juntos, é porque ela nos mostra que é possível a convivência, mesmo na disputa do jogo que muitas vezes é luta, ou da luta que muitas vezes é jogo.

 

            Esse legado o povo brasileiro deve a raça negra e a capoeira, e aos poucos nossa sociedade vai reconhecendo esse patrimônio construído com sangue, dor e entrega.

 

            Mas temos muito ainda a fazer. Em São Paulo, cidade de asfalto e de cimento, há vários parques, um deles fica próximo da maior colônia japonesa da América Latina, o bairro da Liberdade. Neste local, todos os dias de manhã, dezenas de japoneses e de brasileiros se exercitam, marcham no lugar, fazem polichinelos, esticam as mãos em movimentos harmoniosos, fazem alongamento. Eu nunca vi ninguém gingando. Daí, vejam vocês, o quanto ainda precisamos resgatar e valorizar nossa cultura.

 

            Abrir o espaço que já é público, mas que, salvo raras exceções, inibe a participação de classes menos favorecidas, de ritos originais, da expressão popular. Não podemos deixar que os nossos filhos se esqueçam do nosso passado, não podemos deixar de valorizar nossa identidade, nossas raízes. Axé.

 

"As vezes me chamam de negro
Pensando que v
ão me humilhar
Mas o que eles n
ão sabem
Que só me fazem lembrar
Que eu venho daquela raça
Que lutou pra se libertar
Que criou o Maculele
Que acredita no Candomblé
Que tem o sorriso no rosto
A ginga no corpo e o samba no pé
."

        (Ladainha: Luiz Renato Vieira)




  Mais notícias da seção Cultura Viva no caderno CRÔNICAS
31/03/2006 - Cultura Viva - Dia Nacional e Internacional da Capoeira Angola
Crônica em homenagem aos Mestres Pastinha (nascido em 5 de Abril de 1889), e um de seus sucessores, Moraes...
22/01/2006 - Cultura Viva - Memória da Capoeira
Projeto para criação do Centro de Memória da Capoeira "Claudival da Costa" (Mestre Cosmo) - Piracicaba, um bom exemplo!...
22/12/2005 - Cultura Viva - Mandinga de Angola: A Raiz do Feitiço no Terreiro
Mestre Pedrinho de Caxias, Rio, e o grupo TMA - Terreiro Mandinga de Angola divulgam nossa Cultura na Argentina, México, Espanha ...
18/12/2005 - Cultura Viva - As Bantas Coisas de Alagoas - culturas negras, passado e presente
Às comemorações da saga palmarina acrescentemos um olhar na dinâmica das culturas afro-alagoanas de hoje, e outro nas trajetórias que as fizeram como são...
02/12/2005 - Cultura Viva - Consciência Negra e Capoeira - prática constante
Nesta crônica estão apresentadas algumas considerações sobre o "Dia da Consciência Negra", chamando-se a atenção para a presença da Mulher - negra ou não - na luta pelas igualdades. Mestra Dandara (Por que não?) recebe justa homenagem!...
29/11/2005 - Cultura Viva - Capoeira, Cultura Popular & Saberes :: Tese de Doutorado
Como parte de nossa seção "Na Roda com Mestres e Doutores" trazemos para nossos capoeiras-leitores o resumo da tese de doutorado de Pedro Abib, tratando de Capoeira Angola, Cultura Popular e Saberes...
01/11/2005 - Cultura Viva - Capoeira e Negritude
Mestre Paulão do Rio, traz novas contribuição ao debate sobre o tema Capoeira & Negritude....
17/08/2005 - Cultura Viva - Capoeira: Da Negritude e das Negritudes
Crônica de autoria do Prof. Dr. Sérgio Luiz de Souza Vieira, mestre de Capoeira e Presidente da Federação Internacional de Capoeira (FICA), com sede em São Paulo...
15/08/2005 - Cultura Viva - Angoleiras & Negritude
Os princípios femininos, a resistência negra e a mulher angoleira...
02/08/2005 - Cultura Viva - Capoeira : Origens de uma tradição
Artigo enviado ao Jornal do Capoeira por Pedro Abib, autor do documentário "O Velho Capoeirista: Mestre João Pequeno de Pastinha". Texto usado para discussão em aula e extraído do livro "Capoeira Angola: cultura Popular e o jogo dos saberes na roda"...
16/06/2005 - Cultura Viva - O Berimbau e a Capoeira
Neste artigo, Charlles Brown, Fotógrafo, Músico, Compositor e professor de Capoeira Angola da Escola de Capoeira Angola Raiz Negra de São José dos Campos, escreve sobre o BERIMBAU....
23/05/2005 - Cultura Viva - Roda de Rua ou Roda na Rua?
Nesta crônica o autor apresenta ponto de vista sobre a utilização dos termos "roda de rua" e "roda na rua"...
23/05/2005 - Cultura Viva - Vivências com Mestre Gato Preto
Neste artigo o Prof. Charllie Brown compartilha parte de sua vivência com o senhor José Gabriel Goes, o Mestre Gato Preto da Bahia...
09/05/2005 - Cultura Viva - Africa?
Artigo por Dênis Rodrigues (Nzinga-SP), falando sobre alguns aspectos relacionada ao continente Africano e o Brasil...
18/04/2005 - Cultura Viva - Capoeira & Referências
Artigo enviado para publicação por Dênis Rodrigues Silva - integrante do Nzinga Capoeira Angola...
11/04/2005 - Cultura Viva - Capoeira, Samba e Maracatu
Crônica de Raphael Pereira Moreno, sobre a Capoeira em São Carlos-SP, durante o show do grupo musical pernambucano Cordel do Fogo Encantado....
05/04/2005 - Cultura Viva - Dia Nacional e Internacional da Capoeira Angola
Crônica em homenagem aos Mestres Pastinha (nascido em 5 de Abril de 1889), e um de seus sucessores, Moraes...
17/02/2005 - Cultura Viva - Mestre Curió & Capoeira Angola
Jaime Martins dos Santos, discípulo de Pastinha nascido em 1939, continua ensinando e difundindo a capoeira angola....
17/02/2005 - Cultura Viva - Mestre Bimba um visionário
Texto por Luciano Milani...
03/02/2005 - Cultura Viva - Capoeira Angola, Nzinga & Educação
Nesta crônica apresentamos nossa homenagem e agradecimento ao trabalho realizado pelo grupo Nzinga Capoeira Angola...
02/02/2005 - Cultura Viva - Ética de Mestre Pastinha
Texto escrito por Luciano Milani...



Capa |  CAPOEIRA VIRTUAL  |  CRÔNICAS  |  EVENTOS  |  LIT.CLÁSSICA  |  NOTÍCIAS