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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 LIT.CLÁSSICA
  16/05/2005
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Capoeiragem & Capoeiras - parte final
Esta é a terceira e última parte da crônica "Capoeiragem e Capoeiras" de Paulo Várzea, um dos clássicos de nossa literatura (1929)
Capoeiragem & Capoeiras - <font color=#0000ff>parte final</font> Nova pagina 2

Nota do Editor:

O resultado de nossa coluna "Clássicos da Literatura" está sendo muito gratificante. O retorno de nossos Capoeiras-Leitores nos motiva cada vez mais. Nas edições anteriores do Jornal do Capoeira, publicamos algumas "pérolas", como o conto "O 22 de Marajó" de Monteiro Lobato (Coleção dos Grandes Livros Brasileiros - Volume V = Contos Leves. Companhia Editora Nacional, III Parte, 1935) e a crônica "O Nosso Jogo" de Coelho Netto (Livro O BAZAR, 1922).

Nas edições anteriores presenteamos nossos leitores com as duas primeiras partes da crônica "Capoeiragem e Capoeiras" de Paulo Várzea (1929). Hoje completamos este clássico.

Boa leitura!

Miltinho Astronauta

...............................................................................

"Capoeiragem e Capoeiras"

Revista Criminal, nº 28. - 1929

Paulo Várzea

(Terceira e última parte)

 

E o mulato partiu gingando.

-                          Oh! Balão - exclamei.

-                          Conhece-o? - inquiriu o parceiro.

-                          De vista.

-                          É o Pinga-fogo...

-                     Esse é malandro moderno, da turma do Atônico Branco, Joazinho da Lapa, Leão, Broa, Cirineu, Antonico, Ferreira, Petit... gente que se estraçalhou nos entreveros dos clubes.

-                     Mesmo porque os veteranos já se foram na sua quase totalidade: João Ferreira, Prata-Preta, João Grande, Hespanholito, Galleguinho, Carlito, Cardozinho, Zé do Senado, Três Tempos, Braço de Ouro, Bonzão, Satyro, Manoel do Friso, Arthur Mulatinho, Massa-Bruta, Gato Brito, Manduca da Praia, Camisa Preta, Alfredo Bexiga, Leão da Noite, Antonico, Zé Moço, Quitute, Camisa do Paraíso, Zuzú, Mello, Cambuca...

-                          E dessa geração quaes são os que sobrevivem?

-                     Poucos: Gallo, Arthur da Conceição, Cabo Verde, Vacca Brava, Getúlio, Geraldo, Januário, Leopoldo, Guerreiro, Russo da Pirajá, Bonitinho do Castello, Marinheiro, Quincas e Mette-Braço.

-                     Logo essa fúria de destruição entre os malandros é coisa velha e continua mesmo depois que a Polícia passou a perseguir as maltas, essas lutas diminuíram. Mas, quando chegava a época do Carnaval, ellas voltavam a recrudescer.

-                          O Carnaval era um pretexto par o grito de guerra...

-                     Era. As maltas, para passarem despercebidas da polícia, sahiam á rua disfarçadas em cordões. Á frente, mascaradas de caboclos, de reis, derainhas, de velhos, de caveiras, de diabos, iam os chefes, emquanto atrás seguia o corpo da matula empunhando archotes e estandartes dos quaes ressaltavam estes dísticos ameaçadores: Teimosos de São Christovão, Filhos da Machadinha, Destemidos de Catumby, Heroes das Chamas, Invencíveis do Cattete, Dragões do Mar, Triumpho de Botafogo, Couraceiros do Inferno, Estrella da Concordia, Heróes Brasileiros...

-                          E com isso as maltas voltavam a luctar nas ruas, ás barbas da polícia...          

-                          Voltavam.

-                          É assim, muito malandro embarcou...

-                          Muito. Mas hoje não dá mais disso...

-                          A capoeiragem está cahindo...

-                          Qual nada... Em decadência estão os aficccionados...

-                          Achas, então que a capoeiragem é ionvencível?

-                          Sem dúvida...

-                          Mas se já não existem mais capoeiras...

-                          Existem. Mas esses não se prestam a exhibições públicas. O capoeira de facto não se mostra.

-                          É opprtunista...

-                          Justo. E por isso mesmo é que elle diz, e com acerto: Na hora é que se vê. Capoeira de exhibição só os do tempo da mandninga.

-                          E onde ficam os que hoje se exhibem no circos?

-                          Truta...

-                          Tapeação?

-                          Justo...

-                          Tens razão, compadre...

-                          Razão e memória...

-                          E terás baos pernas como tens boa memória?

-                          Só vendo...

-                          Achote-se velho...

-                     Qual velho. Velhos são os trapos... Tenho 62, mas sinto-me tão leve quanto uma pluma. Eu não desminto as qualidades, não nego o nome... Sou o mesmo "Bode" do passado que pulva, que dava marradas... Formei na malta dos guaymús, fui malandro e até hoje não vi piaba que me tocasse, perna que me derrubasse. E si tomei este risco que me deu um guardião de bordo (e mostrou a faze esquerda, onde lhe vi um tremendo gilvaz que ia das pálpebras ao pavilhão da orelha) foi porque estava dormindo... Naquelle tempo, quando havia rolo em terra, a bordo logo diziam: "Isto foi o Bode ou o Apollonio que se espalharam em terra!..." Justamente dali a instantes um de nós dois arribava a bordo escoltado e tendo sob um dos braços um feixe de facões que tomávamos aos "meganhas"...

-                          E hoje serias capaz de repetir a dose, de solta a cachorra?

-                     Deus me livre... Trinta annos de cadeia, na cubata, de sobrado, no convento, transformam os homens. Hoje tenho pavor aos rolos. Só de ouvir o griullo (apito) do cardeal (soldado) eu me aflijo, tremo e soffro...

-                          É o pavor da jaula...

-                          Justo

-                          Deverás?

-                          Deveras.

-                          Mentira... - interrompeu um patusco ao lado.

 

"Bode" deitou ao chereta umolhar de quemn não gostou da patsucada. Assumptou. Por fim espirrou em tom confidencial, na surdina:

-                          Gente de D. Justa. Cuidado...

-                     Compreendi-lhe as falas. Aquelle cabra que mexera com elle era um tira entre outros tirasd. A cana estava ali, braba. Convinha sahir. Dar o fora. "Bode" não perdeu tempo. Empinou-se á guisa de despedida espirrou:

-                          Au revoir. E disponha desse negro.

-                          Para tudo? - perguntei-lhe.

-                          Para tudo.

-                          Mesmo para um gallo?

-                          Conforme... Si for gallo, 50$, estou comtigo... Quem não quer as massas?...

-                          Não, "bode", é para um gallo de briga que eu preciso de ti... Serviço de sangue...

-                          Misericórdia! Sahe azar! Commigo, não!

 

E saltou para a rua, lépido, aos pulinhos, aos corcovos, de cabeça baixa, olhos em fogo. E de repente desabalou num arranco, como si fosse mesmo um bode de verdade, preto, enorme, de duas pernas.

Estaquei na calçada, espantado, perplexo com tamanha agilidade em tamanha velhice. Por fim cheguei a conclusão de que, como o "Bode" , também eu nunca apanhei. Entrei em conflitos sérios, metti-me em batucadas brabas. De uma feita. Na Penha de Nictheroy, parti o braço de um parceiro com uma banda secca...

Pudera, eu era discípulo do mestre "Peru", aquelle malandro esguio e avermelhado que foi cocheiro de carro e que certa vez matou, com uma cabeçada certeira, precisa, um saltimbanco japonez no largo de Camtumby!

Se o "Bode" foi celebre, eu não fui menos famoso... Eu sou o ..."Vagabundo",,,, um repórter.




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