| Login | Crie o seu Jornal Online FREE!

Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

Capa |  CAPOEIRA VIRTUAL  |  CRÔNICAS  |  EVENTOS  |  LIT.CLÁSSICA  |  NOTÍCIAS


 LIT.CLÁSSICA
  15/04/2005
  0 comentário(s)


Capoeiragem & Capoeiras - Segunda parte
Crônica publicada por Paulo Várzea, na Revista Criminal no.28, 1929
Capoeiragem & Capoeiras - <font color=#0000ff>Segunda parte</font> Nova pagina 1

"Capoeiragem e Capoeiras"

por Paulo Várzea (jornalista e capoeira)

-Segunda parte-

 

Nota do Editor:

É sintomática a boa aceitação por parte de nossos Leitores com esta coluna especial "Clássicos da Capoeira". Boa parte do que temos publicado - e do que ainda está por vir - já foi citado em partes por uma pesquisa aqui, ou um livro ali, mas ninguém tomou coragem de tornar estas preciosidades disponíveis em sua íntegra.

Na primeira parte deste Clássico, fizemos breve introdução comentando sobre o Atlas do Esporte Brasileiro, com duas entradas sobre Capoeira, e sobre o estudo feito pelo Professor Lepoldo Vaz (estudou em Cuba!), com seu trabalho referente à Capoeira do Maranhão. Sobre estes dois assuntos (Atlas do Esporte & Prof. Leopoldo Vaz) temos reservado algumas surpresas. Vale a pena esperar!

Miltinho Astronauta

 

"Capoeiragem e Capoeiras"

Revista Criminal, nº 28. - 1929

Paulo Várzea

(continuação)

O malandro é também um bohemio. E não é capaz de delinqüir de outro modo que não seja com a sua arte. Da capoeiragem, só della, desfruta o provento com que mantém o dandysmo exótico em que vive. Já viram a indumentária de um malandro? É curiosa: chapéo de panno ou de palha cahido sobre os olhos ou atirado par traz, sobre a nuca; na falta do colarrinho, um lenço no pescoço, à guiza de gravata; paletó folgado; calças largas, bocca de sino, bombachas ou balão, cahidad d\obre os sapatos de pelica de bico fino com salto apionado ou de carrapeta; prendendo as calças à cintura, um cinto com fivelas complicadas, escondendo a sardinha ou o páo de fogo...

 

Assim vestido, o malandro está frajóla, tem a dica, a herva, a grana, o dinheiro... Mal vestido, está de tanga, a nenhum, teso, limpo... Aos domingos, o malandro dedica-se de corpo e alma á sua brincadeira predilecta - a batucada ou samba.

 

Batucada ou samba é um mixto de divertimento e escola, escola de malandragem improvisada nos terenos baldios, nos recantos longíquos da cidade. Ahi, abrigados da polícia, os malandros romam a roda e iniciam o samba. O ritual é um sapateado marcado pelo batido dos pandeiros, pelo sacolejar dos chocalhos e pelo Coro dos sambistas, cantando o amor e a morte... Nos sambas, também entram mulheres. Puxar o samba é jogar em verso a deixa a um dos pareiros da roda:

 

Por exemplo:

"Sou Arthur de Catumby

Vou tirar uma pequena

Contando daqui p`r`ali

Ella faz uma dezena..."

 

O Coro rompe:

 

"Contando daqui p`r`ali

Ella faz uma dezena..."

 

O puxador corre a roda, trocando passes complicados, fazendo letras, presepadas. De repente pára deante de um parceiro. Finge que vae dar um tombo no companheiro e dá uma umbigada. Esta ceremonia chama-se tirar... É um preceito e um desafio, pelo que cumpre ao desafiado ir substituir no centro, o desafiante. Se o desafiado é mulher, sahe batendo com o salto das chinellas no chão, cadenciadamente, rebolando os quadris, sacolejando os braços num retinir de pulseiras até defrontar um oturo parceiro, a quem repete o preceito e canta:

 

"Sou Zazá de Deodoro

Sambista do tenpo antigo

Derrubei o Theodoro

E agora vou comtigo..."

 

O desafiado entra para a roda e vae reproduzir o ´receito adeante, improvisando:

 

"Já vi muié, é das pouca,

Prepara muito cozido

Já vi muié bate boca

Mas dá in home? Duvido..."

 

E assim, todos os sambeiros, cada um por sua vez, passam pelo centro. Tal é o samba.

 

Mas a batucada é differente. Nella não entram mulheres. Tomam parte somente homens. Os mesmos instrumentos e mais o atabaque; o mesmo modo de sapatear, igual característica. Apenas os batuqueiros ficam em posição de sentido, pés juntos, com a máxima attenção nos movimentos do puxador, cujos golpes são jogados de surpresa para derrubar...

 

"O batuque é da arrelia

Na Saúde e na Gambôa

Masda Favella á Alegria

É dansa de gente atôa..."

 

O côro repete:

 

"Mas da Favella á Alegria

É dansa de gente atôa..."

 

O puxador, mal soa o ultimo verso do côro, manda o golpe> tesoura, rapa, banda, bahú, bahiana, abeçada, susto, cama, bengala, fedegoso, chulipa, rabo de arraia, tombo de lafeira etc. O parceiro que sahiu fora canta:

"Gosto mais da Babylonia,

Topo ambém a Mangueira

Mas nas falas da Colônia,

Eu prefiro a Geladeira..."

 

Todavia, a batucada mais importante é a batucada braba ou surda, ora marcada pelo coro, ora pelas pernas. Ás pernas compete falar pelo individuo, dizer das suas habilitações. Mas, para entrar nessa batucada há que ser malandro de facto e não de informações. Sendo uma reunião onde é posta em jogo a competência do reguez, a ella de ordinário, só acode a malandragem pesada que, por direitos de conquista, representa o prestígio, a força dos diversos reductos da cidade.

            Na batucada surda quando um acompanhamento fala, o outro fica mudo. Quando o côro cala, falam as pernas. As pernas dizem, pelo puxador, o verso e jogam também a deixa... E quando falam as pernas, os olhos se accendem em lampejos de laminas brilhantes para espreitar os movimentos do puxador que ameaça. É a hora das comidas...da onça beber água:

           

-                          Toma, séo Abóbora...

-                          Repete, séo Chandas...

 

            Três, quatro, cinco golpes consecutivos riscam o ar, provocando um arrepio nas espinhas. Afinal um corpo vacila e tomba. Então o coro que está alerta, abafa a queda, cantando a meia voz, ironicamente:

 

            "Boléa,

Boléador...

Boléa..."

 

            No ardor da dansa, os batuqueiros chegam a cheirar a sangue... De mistura com o suor dos corpos offegantes, o bafio quente da cachaça, chamada de capote, quando chove, e de ventarola, quando está calor. E a visão é a de uma scena de pantomina numa paisagem pobre, a meio de uma ruela deserta, com rancho em ruína e lampeões bruxulentos, á cuja claridade da vida os batuqueiros se agitam, cabriolam, rasteja nervosos e espectraes como si fossem fantoches que dansassem e arfassem... E a música rouca, monótona, lúgubre, reboa lá no alto do morro, emquanto cá debaixo a cidade dorme sob o levario de outro das luzes. Neses reductos, a essas horas, a polícia não vae...

E quando apparece, vê apenas para recolher cadáveres com que a farandula da morte costuma saudal-as pelas manhãs...

 

            A Penha, D. Clara, Madureira, Deodoro, Parada Cordeiro foram redctos trdicionaes de sambas e batucadas. Mas hoje os sítios maisecolhidos para essas dansas são os morros: Capão, da Mangueira, Pendura-Saia, Urubu, Salgueiro, Kerozene, Conceição, Mundo-Novo,Paraíso, Favella, Pinto e as estações de Merety e Braz de Pinna.

 

-                          Porque são zonas próprias para o pessoal pyrá...

-                          Isso é verdade...

 

Éramos dois querecordavamos o tempo da coroa sentados áquella mesa. Á porta do café, sujeitos estrnahos divagavam sobre coisas estranhas... Após molhar a palavra, o parceiro proseguiu:

 

-                     Sambistas, batuqueiros de verdade conheci ´pucos e esses poucos foram Apollonio, Bamba, Cento eOnze, Cleto, Albino, Jacaré, Zé Maria, Camaleão, Sahara, Branda, Catita, Espada, Nua, Beatriz, Reúna, Careca, Emerentina e Violeta.

 

Nisto, interrompendo a conversa, approximou-se um mulatinho despachado, que falou:

 

-                          Olá, compadre !

 

O parceiro resmungou:

-                          Olá, mano !

 

Mas o mulato estava com toda a corda e puxou conversa...

 

-                          Quando deixaste Petrópolis?

-                     Menino, eu nunca estive em Petrópolis. Estive, sim, em Therezópolis, no convento. De uma feita tirando 15; da outra 12 (e espalmou as mãos para melhor enumerar s sentenças). Como, vês, não fui lá para sujar no cubo... não sou malandro barato... (E dardejando o olhar em redor, um olhar perscrutador, revelou cautelosamente, como se fosse contar um segredo): Despachei dois. Mas a vaga lá está a sua espera...

-                          Passo. Si a quizesse, tinha ido occupal-a hoje mesmo.

-                          Cachorro quente?

-                          Figuração...

-                          Na boa?

-                          Na boa. Mas tu sabes... eu sou de circo... Fiz a viagem... o besta metteu os peitos... Foi a conta... Caberei elle...

-                          Brucutu...

-                          Chão...

-                          Knock-put?

-                          Não.. o bruto trasteou... Eu lhe disse: "Vem que eu te recebo!" Mas o cabra pediu hábeas, fez meio-dia...

-                          Foi na batata!

-                          Ah! Commigo não tem bandeira... E está ahi como estive vae não vae...

-                          O diabo tenta a gente, Pinga...

-                          Se tenta...

-                          Sempre levando vantagem...

-                          Qual ´o meu? Bem, vou roda... Boas festas...

-                          Já? Mulato presença.

-                          Já, negro frajola.

 

* Continua na terceira  e última edição *




  Mais notícias da seção Rio de Janeiro no caderno LIT.CLÁSSICA
25/04/2005 - Rio de Janeiro - Academias de Capoeira do Rio Antigo - Década de 30
Crônica sobre a Escola Typica de Aggressão e Defeza de Jayme Ferreira" - Capoeiragem do Rio Antigo ...
21/03/2005 - Rio de Janeiro - Capoeiragem e Capoeiras - Primeira parte
Crônica publicada na Revista Criminal (1929, Rio), enviada à esta Redação, em formato original, por Mestre André Luiz Lacé...



Capa |  CAPOEIRA VIRTUAL  |  CRÔNICAS  |  EVENTOS  |  LIT.CLÁSSICA  |  NOTÍCIAS
Busca em

  
1050 Notícias