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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 LIT.CLÁSSICA
  21/03/2005
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Capoeiragem e Capoeiras - Primeira parte
Crônica publicada na Revista Criminal (1929, Rio), enviada à esta Redação, em formato original, por Mestre André Luiz Lacé
Capoeiragem e Capoeiras - Primeira parte Nova pagina 1

"Capoeiragem e Capoeiras"

por Paulo Várzea (jornalista e capoeira)

 

Nota do Editor:

Da Europa (França) nos chega a notícia da existência de um grupo de capoeira totalmente independente. Discreta, mas firmemente, um grupo de franceses resolveu cortar o cordão umbilical com o Brasil, baseado " vejam vocês! " no excessivo número de contradições detectadas nos livros e, sobretudo, nos famosos "workshops" que lá andam sendo feitos "por mestres pretensiosos e arrogantes". .

Dentro, ainda, da mesma linha, temos o recém-publicado Atlas do Esporte Brasileiro que, embora com duas boas entradas sobre capoeiragem, é em algumas outras páginas onde a Capoeira vai causar mais curiosidade. Especialmente os registros feitos pelo Professor-Doutor Leopoldo Vaz, sobre portaria municipal publicada por uma prefeitura maranhense, proibindo a prática da "capoeira carioca" (pág. 51). Fato que ocorreu, pasmem, em 1884!

 

"Em Turiaçú, no ano de 1884, é proclamada uma Lei "

de no. 1.341, de 17 de maio, em que constava:

"Artigo 42 " é proibido o brinquedo denominado Jogo Capoeira ou Carioca1[2]. Multa de 50 aos contraventores e se reincidente o dobro e 4 dias de prisão". (CÓDIGO DE POSTURAS DE TURIAÇU, Lei 1342, de 17 de maio de 1884. Arquivo Público do Maranhão, vol. 1884-85, p. 124). (Grifos do Professor Leopoldo Vaz)

 

Resumindo, temos que ter mais humildade em nosso orgulho. Orgulho de ser a pátria da capoeira (com todo respeito e louvação aos primórdios na África), mas humildade para evitar, um belo dia, queimar este lindo filme. Creio que, no fundo, todos entendem e concordam com esta preocupação. Daí a boa ressonância da coluna que, em boa hora resolvemos abrir neste jornal, abrindo espaços para artigos e reportagens antigas, de grande relevância para o maior entendimento da História plena da nossa Capoeiragem.

Dando seqüência, estamos apresentando neste número uma interessante matéria, publicada em 1929, na Revista Criminal, publicada no Rio de Janeiro e distribuída para todo Brasil. Um artigo valioso para todo e qualquer mestre-pesquisador. Por motivos óbvios mantive a redação original. Também neste caso, dividiremos a matéria em três partes. Ao final da terceira parte, ou seja, daqui a quatro números deste Jornal, estaremos transcrevendo uma reveladora matéria feita em uma das academias de capoeira do Rio Antigo (1931), onde há interessante registro sobre a visita de dois baianos... Um estudo curioso sugere que um deles seria um grande capoeirista que se destacaria no cenário mundial da Capoeira

Miltinho Astronauta

***  *   ***

 "Capoeiragem e Capoeiras"

Revista Criminal, nº 28. - 1929

Paulo Várzea

            Madrid tem o chulo; Buenos Aires, o compadron; Lisboa, o fadista, e o Rio de Janeiro, o capoeira. Nas varias modalidades da sua ligeireza e destreza physica, a capoeira sobrecede os seus rivaes. É um acrobata prodigioso. Salta, desarticula-se todo para passar um tombo, para metter a cabeça. E faz isso de repente, sem alarde, na surdina. Dois, três, quatro golpes seus, simultâneos, continuados, embaraçaram, confundem, atordoam e dominam o adversário.

            Inimigo leal, jamais ataca pelas costas. É um sujeito valente. Alcunhado, também, de capadócio, malandro, bam-bam-bam, o capoeira, como o próprio nome está dizendo, vem das capoeiras ao tempo colonial. E não foi apenas o vadio, o molequete desertor das casernas, o escravo evadido das fazendas, foi também o jornalista, o deputado, o engenheiro e o general. São famosas as scenas de capoeiragem jogadas outróra no Rio, no antigo Café Londres, de madrugada, entre literatos, deputados e militares.

            Naquelle tempo, na terra carioca, a capoeiragem era uma instituição devidamente organizada em partidos: os guyamús, os nagôas, flor da gente, franciscanos, luzitanos, conceição da marinha, conceição da glória, boccas-rasgadas, natividades, monduros, caxinguelês etc.

            Estes partidos travavam diariamente, nas ruas, terríveis conflictos e, porque constituís-

sem sério perigo para a segurança pública, foram depois energicamente combatidos por um próprio capoeira, o Dr. Sampaio Ferraz, ex-chefe de polícia. Diminuídos nas suas proporções, os capoeiras hoje são quase raros e já não mais dão a conhecer pelos grupos, mas isoladamente, pelo próprio nome de baptismo. A terra natal, os bairros, o mulherio, o defeito phisico e moral passaram a influir na celebridade do malandro moderno: "Cardosinho da Saúde", "Hespanholito", "Canella de Vidro", "Galleguinho", "Cabeleireira", "Mulatinho deo Catete", "Camisa Pretas", "Treme-Treme", "Carvoeiro", "Cabo-Verde", "Bonitinho do Castello" e "Paulo da Zazá".

 

O capoeira moderno, como o antigo, não tem occupação. Faz das suas habilidades, da sua disposição o mesmo que faziam os espadachins do século XVII. Consummado acrobata, põe suas façanhas a serviço dos magnatas, dos políticos, do bicheiros e, especialmente, dos donos das tavolagens, desde os clubs elegantes até as batotas sórdidas, desde os cabarés até os ranchos. Na guarda de um desses antros elle é um leão, leão de chácara. Joga ahi, a vida num desprendimento de louco e termina, invariavelmente, numa explosão de tragedia. Há que mostrar as qualidades... "Ou subo ou desço", diz referindo-se a ir para a cadeia (subir) ou morrer (descer).

 

 

Os malandros de facto são ciosos da fama. Considera, a guarda de uma espelunca como um compromisso de vida ou de morte. Não querem ficar com o prestigio abalado, a cara suja... Erradamente, fazemos a idéia de que o malandro é um bandido. Entretanto, elle não é assim tão execrável. Há que o conhecer, para vel-o como é expansivo, maneiroso, sympathico... Quando é inimigo, é cruel; quando vai visital-o e leva-lhe notícias e presentes: o crivo (cigarro), cabello (fumo), papagaio (jornal), tendo antes o cuidado de baratinar o hafra (o guarda) da galeria.

 

Mas, com a mesma mão com que pratica taes generosidades, elle tira uma vida. E, com a mesma habilidade com eu faz essas coisas, tange o violão, o cavaquinho, o berimbao [grifo do Editor]. Aquellas modinhas que às vezes ouvimos da cama, cantadas na rua, dormecida e deserta são delle, o poeta seresteiro que recolhe à casa.

 

* Continua na próxima semana *




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