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Jornal do CAPOEIRA
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 LIT.CLÁSSICA

  07/03/2005
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Monteiro Lobato: Futebol e Capoeira

Crônica extraída do livro Coleção dos Grandes Livros Brasileiros, volume V

Monteiro Lobato: Futebol e Capoeira

Nota do Editor

 

Abrimos nossa série Clássicos da Literatura Capoeirística, com a famosa crônica "Nosso Jogo", de Coelho Netto.  O sucesso foi mais do que surpreendente, confirmando a importância de continuar a série. É o que fazemos hoje com outra famosa crônica, desta vez do extraordinário brasileiro, nacionalista, Monteiro Lobato " "O 22 da Marajó" (Coleção dos Grandes Livros Brasileiros " Volume V = Contos Leves. Companhia Editora Nacional, III Parte, 1935).

A exemplo da crônica de Coelho Netto, também esta, de Monteiro Lobato, já foi publicada em alguns jornais de capoeira, mas de modo incompleto, sem a primeira parte, onde Lobato faz uma interessante análise sobre o início da prática do futebol aqui no Brasil.  Nota-se aí, muito bem, o seu nacionalismo.  A Capoeira está fazendo trajeto inverso. O futebol veio de fora para dentro, Capoeira está saindo do Brasil para o mundo.  Pensando bem, isto não será um alerta para a nossa Capoeira?

Miltinho Astronauta

          

* * *

 

             "O 22 da Marajó"  - Introdução

Monteiro Lobato

 Esse delírio que por aí vai pelo futebol tem  seus fundamentos na própria natureza. O espetáculo da luta sempre foi o maior encanto do homem; e o prazer da vitória pessoal ou do partido, foi, é e será a ambrósia dos deuses manipuladas na terra. Admiramos hoje os grandes filósofos gregos, seus servos, porém admiravam muito mais aos atletas que venciam no estádio. Milon de Crotona, campeão na arte de torcer pescoços a touros, só para nós tem menos importância que seu mestre Pitágoras. Para os gregos, para a massa popular grega, seria inadmissível a idéia de que o filósofo pudesse um dia ofuscar a glória de lutador.

          Em França, antes da surra homérica que lhe deu Dempsey, o homem verdadeiramente popular era George Carpenter, mestre em socos de primeira classe; e se dessem nas massas um balaço sincero  veriam que ele sobrepujava em prestigio aos próprios chefes supremos vencedores da guerra.

          Nos Estados Unidos há sempre um campeão de Box tão entranhado na idolatria do povo que está em suas mãos subverter o regime político.

          Entre nós há o exemplo recente de Friendenreich, um pé de boa pontaria pelo qual milhares de criaturas, sobretudo, crianças, são capazes de sacrificar a vida.

          E os delírios coletivos provocados pelo embate de dois campeões em campo?  Impossível assistir-se a espetáculo mais revelador da alma humana do que o jogo de futebol em que disputam a primazia paulistas e italianos, em São Paulo.  Não é esporte, é guerra. Não se batem duas equipes, mas dois povos, duas nações, duas raças inimigas. Durante todo o tempo da luta, de quarenta a cinqüenta mil pessoas deliram, em transe, estáticas, na ponta dos pés, coração aos pulos e nervos tensos como cordas de viola.  Conforme corre o jogo, nas pausas de silêncio absoluto na multidão suspensa, ou deflagrações violentíssimas de entusiasmo que só a palavra delírio classifica.  E gente pacífica, bondosa, incapaz de sentimentos exaltados, sai fora de si, tornando-se capaz de cometer os mais horrorosos desatinos.

            A luta de vinte e duas feras no campo transforma em feras os cinqüenta mil expectadores, possibilitando um esfaqueamento mútuo, num conflito horrendo, caso um acidente qualquer funda em corisco as eletricidades físicas acumuladas em cada indivíduo.

            O jogo de futebol teve a honra de despertar o nosso povo de um marasmo de nervos em que vivia.  Antes d"ele, só nas classes médias a luta política tinha o prestígio necessário para uma exaltaçãozinha periódica.     É isso porque de todas os esportes tentados no Brasil só o futebol conseguiu aclimatar-se como o café. Hoje, alastrado de norte a sul, transformou-se quase em praga, conseguindo, só ele, interessar vivamente,  delirantemente, o nosso povo.

            No Estado de São Paulo não há recanto, vilarejo, fazenda, bairro onde se não veja num chão plano e batido os dois retângulos opostos indicadores de um ground.  Pelas regiões novas, de virgindade só agora atacada pelos invasores, é comum topar-se de súbito. Em plena mata, uma clareira aberta e limpa onde, nas horas de folga, os derrubadores de pau vêm bater bola.

              Já assistimos a um  match  em certa fazenda. Tudo muito bem arrumado; os players uniformizados, de meias grossas e botinas ferradas, tal qual nos clubes das cidades.  E falando em corners, goals, hands, half-times, a inglesia inteira dos termos técnicos.

              Ao nosso lado o fazendeiro explicava:

              - Aquele goal-keeper é carreiro; amanhã de madrugada está de pé no chão puxando lenha.  O center-half é madeireiro; está-me lavrando uma perobas na roça velha.  Os full-backs são tropeiros e os forwards, simples puxadores de enxada.

                 Era assombroso!  Estávamos diante da maior revolução de costumes jamais operada em terras de Santa Cruz. E tudo por arte e obra de uma simples esfera de estufada de ar...

                 Antes de futebol, só a capoeiragem [grifo do editor]conseguiu um cultuzinho entre nós e isso mesmo só nas classes baixas. Teve seus períodos áureos, produziu seus Friedenreichs, e afinal acabou perseguida pela polícia, com grandes magoados tradicionalistas que viam nela uma das nossas poucas coisas de legítima criação indígena.

                   Infelizmente não se guardou memória estreita desse esporte cujos anais se encheram de maravilhosas proezas.  Não teve poetas, não tem cantores, não teve sábios que as salvaguardassem do olvido; e de todo o nosso rico passado de rasteiras, rabos de arraias e soltas restam apenas anedotas esparsas, em via de se diluírem na memória de velhos contemporâneos. [grifo do editor]

                   Que se fixe, pois, em letra de forma, ao menos o caso do 22 da "Marajó", com tanto chiste narrado pelo maior humorista brasileiro, esse prodigioso Mark Twain inédito que é o Sr. Felinto Lopes.

 

Na próxima semana : O Capoeira "O 22 de Marajó" " o conto




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