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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 LIT.CLÁSSICA
  14/03/2005
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Monteiro Lobato: O 22 de Marajó
Crônica extraída do livro Coleção dos Grandes Livros Brasileiros, volume V
Monteiro Lobato: O 22 de Marajó Nova pagina 1

Nota do Editor

 

Na semana passada publicamos a primeira parte do conto escrito por Monteiro Lobato (Coleção dos Grandes Livros Brasileiros " Volume V = Contos Leves. Companhia Editora Nacional, III Parte, 1935).  Na ocasião, levamos ao leitor a exposição apresentada pelo autor, onde mostrava o fascínio e intimidade que o brasileiro tinha com o futebol. Ao final daquele texto, Lobato faz uma crítica sobre a Capoeiragem que esta, naquela época (1935) em vias de ser esquecida.

De forma encantadora, Monteiro Lobato dá uma aula sobre Capoeira em seu conto que ora apresentamos ao Leitor.

Miltinho Astronauta

 

                        O Capoeira "O 22 da Marajó"  - O CONTO

 

                    O 22 da "marajó" era um imperial marinheiro, mestre em desordens e amigo de revirar de pernas para cima kiosques de portugueses. Rapazinho bonito, imperava na saída onde suas proezas de capoeira excepcional andavam de boca embora discutidas como façanhas de Rolando. E tais fez que o governo incomodado, deportou-o  para o norte, a servir no Alto Amazonas em canhoneira da flotilha estacionada no Pará.  A mudança de lima regenerou-se e o rapaz resolvendo tirar partido de seus dotes plásticos, ferrou namoro   com a mulher de um shipchandler, da qual se tornou amante.

                     O shipchamdler  morreu e o 22  casou-se com a viúva, herdeira de um paco de quatrocentos contos de reis.  Pediu baixa,  obteve-a e foi com a esposa em viagem de núpcias à Europa, onde permaneceu dois anos. Ao cabo regressou à pátria,  elegendo o Rio de Janeiro para residência definitiva.

                        Mas quanto mudara!  Transformado num perfeito gentleman, embasbacava a rua do Ouvidor com o apuro dos trajes, as polainas, as luvas, a cartola café-com-leite.

                        Quem é?  Quem é? Ninguém sabia.

-          Algum fidalgo certamente cochichava.  Não vêem que modos distintos?

                           E o 22, impávido, patroneando, de monóculo no olhar, a olhar de cima para os homens e as coisas...

                           Tinha hábitos certos e todos os dias passava pelo Largo de São Francisco, como paca pelo carreiro.

                           Aconteceu, porém, que ali era ponto de uma roda de rapazes chiques, fortemente despeitados ante a esmagadora elegância do desconhecido, sinal perigoso, sem dúvida, em matéria de esporte feminino.       Os quais rapazes, depois de muito cochicho, deliberaram quebrar a proa ao novo concorrente, apenas aguardando para isso a boa oportunidade.

                             Certa vez em que o Petrônio passava mais imponente do que nunca, coincidiu aproximar-se da roda chique um capoeira mordedor, que se gabava de ser mestre em "soltas".

                              Quem sabe hoje o que é "solta", nesta época de kikees e shootes?  Solta era uma cabeçada sem hands, isto é, sem encostar a mão no adversário.

                          Mas o capoeira chegou e mordeu-os em cinco mil réis.

-                                              Perfeitamente, responderam os rapazes, mas primeiro hás de sapecar uma solta naquele freguês que ali vai de monóculo.

-                                              É já! Exclamou o capoeirista, gingando o corpo. E tirando o chapéu foi portar-se  na calçada  por onde vinha o 22, de martelo e monóculo sacudindo passos de lord, muito esticado dentro do seu croisé cortado em Londres.

         -                    Um, dois,  três...Quando Petrônio o defrontou o capoeira avança e despeja-lhe uma formidável e primorosa cabeçada .

                           O desconhecido, porém, quebrou o corpo, e a cabeça do atacante foi de encontro à parede, ao mesmo tempo em que um pé bem manejado plantava-o no chão com elegantíssima rasteira.  O mordedor, tonto e confuso, ergueu-se para desabar de novo, cerceado por outra gentil rasteira.  Passara imprevistamente de agressor a agredido e, desnorteado, deu sebo às canalhas, indo apalpar o galo a cem passos à distância.

                             Enquanto isso o Petrônio, consertando a gravata com grande calma, dirigiu a palavra a assombradíssima roda elegante.

-          Só  uma  besta  destas dá "soltas" sem negaças.  Já dizia o Cincinato Quebra-louças: soltas sem negaças só em lampião de esquina.

 

Comentário do Editor:

Reparem leitores, a lição de capoeira do "Mestre 22 da Marajó...

 

                              - Se "grampeasse", inda vá lá.  O Trinca-Espinhas, o Estrepolia, o Zé da Gamboa e outros praxistas admitem soltas neste caso, mas isto mesmo só quando o semovente não é "firme de letra".  E pirando a bengala  de unicórnio entre os dedos anelados, finalmente superior, concluiu num tom de saudade:

-                                              Já gostei deste divertimento. Hoje minha posição social e o meio em que vivo não me permitem mais. Mas vejo com tristeza que a arte está decaindo...

 

                           E lá se foi, impertubável e superior, murmurando consigo:

-          Soltas sem negaças...que  besta!

 

                                 Os elegantes rapazes, passado o momento de estupor, planejaram solene desforra.  Contratariam o famoso Dente de Ouro da Saúde, para romper o baluarte e quebrar de vez a proa ao estranho personagem.     Tudo bem assentado, no dia do ajuste portaram-se no carreiro, com o rompe-e-rasga à frente.

                                 É aquele! Indicaram-no, mal repontou a longe a cartola café-com-leite do Petrônio.   Dente de Ouro avançou "feito" para o desconhecido. Ao fronte-a-lo, porém, entreparou e abriu-se num grande sorriso palerma.

 

-          Ó 22! ... Você por aqui!?...

 

-        Cala o bico moleque, e tome lá para o cigarro. Mas afaste-se, que hoje sou gente e  não  ando com más companhias, respondeu o Petrônio, correndo-lhe uma pelega de dez e seguindo caminho.

                                 

Dente de Ouro voltou para o grupo de elegantes, alisando a nota.

 

-           Então? Perguntaram estes, desnorteados com o imprevisto desfecho.

 

            -  "Cês" tão bestas?  Pois aquele é o "22 da Marajó", corpo fechado p"ra sardinha e pé que  nunca "malou saque". Estrompear o 22 da "Marajó"?  Cês tão bestas!...




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