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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 LIT.CLÁSSICA

  03/06/2005
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Texto de Mário Santos, 1927

Trazemos à nosso Capoeira-Leitor mais um Clássico da Literatura da Capoeiragem

Texto de Mário Santos, 1927

Clássicos da Capoeira:

Texto de Mário Santos, 1927

 

Nota do Editor:

 

O passado da Capoeira, como não poderia deixar de ser, é tão misterioso quanto ela própria, quanto o seu presente e quanto ao seu futuro.

De certa maneira, esta constatação até aumenta seu fascínio.

Toda tentativa de resgatar o passado esbarra, quase sempre, na incerteza sobre a fidedignidade da fonte consultada. O Mundo da Capoeira não é diferente, talvez o grau de incerteza seja até maior, em função da visão excessivamente apaixonada que comanda as pesquisas de muitos "mestres-pesquisadores".

Some-se a isto, a divisão entre nossos homens de letra - romancistas, jornalistas etc - que, ao longo da História do Brasil e da Capoeira, alguns a defendiam, outros a atacavam. De um brilhante Coelho Netto (Bazar) escrevendo um dos grandes clássicos a favor da capoeiragem, a um não menos brilhante Machado de Assis, fazendo lá suas severas criticas a capoeira. Pouco

a pouco, estamos republicando todos esses registros, pois entendemos de fundamental importância para compor, com a maior fidelidade possível, a verdadeira História da Capoeiragem.

A Introdução que Mário Santos fez para o famoso livro de Annibal Burlamaqui,   Gymnastica Nacional - Capoeiragem - Methodisada e Regrada (Zuma, 1928!) - é  um desses textos que deve ser lido e admirado por todo mestre e aluno.

Vamos, pois, ao texto de Mário Santos que, como não poderia deixar de ser, descreve magistralmente o livro de Zuma.

 

Miltinho  Astronauta:

 

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Prefácio de Mário Santos (1927)

Obs. Ao famoso livro de Zuma Burlamaqui (1928)

 

"O livro de Annibal Burlamaqui - Gymnastica Nacional -  é, por sua natureza, desses  cuja necessidade ha muito se impunha em o nosso meio sportivo.

No Brasil, já se praticam,  pode-se dizer, todos os sports: temos campeonatos de remo, natação, foot-ball, basket-ball, box, luta romana, tennis, athletismo em geral etc. Actualmente até o polo e golf já são disputados em nossa terra.  No emtanto é de lamentar que até hoje nada se tenha feito em prol do sport  nacional.

Cogita-se de uma arte nacional, brasileira, da musica brasileira  etc.  Até mesmo da política brasileira. E de sport  nacional, fala-se? Infelizmente não.

E se assim é, o livro de Zuma vale por um grito de brasilidade.

É tempo já de nos libertarmos dos sports extrangeiros e darmos um pouco de attenção ao que é nosso, ao que é de casa. E depois vale a pena isso, pois a Gymnastica Brasileira vale por todos os sports extrangeiros. Supera-os até.

O presente livro, é modesto. O seu autor não é litterato; não é doutor, não é bacharel.  É um moço sportman, um verdadeiro athleta, que goza muita saude e, sobretudo, ama a sua terra. Não é, portanto, uma obra litteraria, é uma monographia sportiva, talvez.  É moderno, é prático; não divaga, entra logo no assumpto. Dá-nos a história da capoeiragem, os golpes e os contra-golpes.

Ensina-nos, ou melhor, creou regras e methodizou-a .  Termina com considerações a respeito dos exercícios preparatórios para se fazer um gymnasta brasileiro e sobre os reque-sitos mais necessários para isso.  Em synthese é um livro útil.

Estou de accordo com A.  Burlamaqui (Zuma) quando lamenta que se tenha votado tamanha aversão a capoeiragem, a ponto de tornar a sua prática compromettedora social-mente.

Todas as lutas hoje conhecidas: o box, a luta romana, a savata franceza, o jiu-jiutsu etc, tem suas origens identicas a nossa capoeiragem.  É sempre a luta pela vida, o instincto de conservação, de defeza pessoal que lhes deram nascimento.

Todas ellas passaram pelos mesmos revezes que a Gymnastica brasileira.

Tambem na Inglaterra, o abuso dos que se prevaleciam da habilidade no jogo do box concorreu para que  este jogo fosse considerado pelas leis  inglesas uma contravenção e, portanto, punido quando praticado.  Assim a savata franceza.  Assim o jiu-jitsu que não era mais do que um processo de luta usado por determinada casta no Japão, e que dava aos componen-tes grande vantagem sobre os outros indivíduos.  E se assim é, porque, si a lei da evolução é sempre a mesma em todo Universo, a capoeiragem, no Brasil, haveria de escapar a marcha evolucional de suas congêneres?

Nascida, como bem diz o autor, com os escravos foragidos, nos quilombos, foi mais tarde, extinctos estes, transportada para as cidades e usada como meio de defeza, posteriormente, adulterada para meio de desordem.  Foi essa evolução da "Gymnastica brasileira".  E tão intensa foi a nocividade de sua prática, que o legislador de 1890 em nosso Código Penal, prescreveu em seu artigo 402 pena àquelles que a praticassem.  Mas o tempo passou, hoje  está regulamentado o box, como também a luta romana, a savata etc  e porque não haveremos de regularizar e regenerar a capoeiragem?

Há necessidade disso, e a sua adopção constitue alem do mais um princípio de ordem social.  Pois só depois de acceita e espalhada a pratica da capoeiragem, teremos os agentes da sociedade, os policiaes  a salvo das habilidades dos  brasileiros nesse terreno e das insolências dos que praticam o box , como os embarcadiços extrangeiros,  que tanto dissabor causam aos policiaes com as suas libações alcoólicas. Adoptemos a capoeiragem,  ella é superior ao box, que participa dos braços; ela é superior à luta romana , que se baseia na força; é superior à luta japoneza, pois que reune os requisitos de todas essas lutas, mais a intelligencia e a viva-cidade peculiares ao tropicalissimo dos nossos sentimentos , pondo em  acção braços, pernas, cabeça e corpo!

Oxalá que muito breve tenhamos na Europa campeões brasileiros,  de "GYMNASTICA NACIONAL", vencendo os de outras lutas extrangeiras!

São meus votos que seja a "Gymnastica brasileira"  acceita e praticada,  pois vae n`isso, além de um acto de brasilidade, um pouco de integralisação na posse de nós mesmos.

Rio, dezembro de 1927.  Mário Santos"




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