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Jornal do CAPOEIRA
Desde: 28/10/2004      Publicadas: 1050      Atualização: 18/06/2006

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 NOTÍCIAS

  02/05/2006
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Adeus, adeus, boa viagem

Mestre Martim da Pemba - pai de Mestre Curió - faz sua passagem aos 106 anos de vida

Adeus, adeus, boa viagem Coquinho Baiano

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br

Edição 71 - de 30/Abril a 06/Maio de 2006

 

Jornal do Capoeira (on line)

- www.capoeira.jex.com.br -

 - 02 de Maio de 2006 -

 

        José Martim dos Santos, conhecido pelos antigos da capoeira baiana como "Mestre Martim da Pemba" ou "Mestre Pena Dourada", faleceu em Salvador, Bahia, aos 106 anos de vida.

        Martim da Pemba, além de mestre de capoeira, é pai do senhor Jaime Martim dos Santos - Mestre Curió (foto). Em homenagem à mestre Martim, capturamos uma interessante entrevista dada por ele ao Jornal Correio da Bahia.

        Como dizia meu saudoso Mestre Cosmo: "A roda lá de cima está ficando melhor do que a roda aqui em baixo...".

                                Saravá, mestre Martim. Saravá!

                                                Miltinho Astronauta


Matéria 01

Mestre da cana-de-açúcar
Seu José Martins dos Santos reconta as histórias de 101 anos de travessuras na velha Salvador

Por José Castro

CORREIO DA BAHIA

04 de agosto de 2001

Capa Bode, vilarejo próximo a Passagem do Teixeira, distrito de Candeias. Nesta localidade, incrustada no massapê açucareiro dos engenhos que arrodeavam Salvador, nasceu no final do século retrasado, certamente o feirante mais veterano em atividade de Salvador, quiçá da Bahia e olhe lá se não for do Brasil.

Seu nome é José Martins dos Santos, 101 anos, mais conhecido na Feira de São Joaquim, onde tem um boxe, pelo apelido de Martim da Cana, designativo cunhado pelas gentes que o arrodeiam: carregadores, cachaceiros, feirantes. Trabalha em calça de brim, camisa de botão, paletó e chapéu de feltro na cabeça, uma pena de pavão serve de adorno. No domingo ele usa gravata, único dia em que lhe é coberto o medalhão prateado que ostenta, com as inscrições Portela e Pastinha. Vive de vender a cana que planta em sua roça, em Mapele, distrito de Simões Filho. Registrado no tempo "em que cinco vinténs era um tostão", ele argumenta que tem mais idade de que lhe é atribuído: "Cento e um já passei pra detrás das costa", explica.

Ângulos peculiares não faltam para começar a falar de sua vida. A começar pelo número de filhos que ele diz ter feito: 56, ao todo. "Mulher, eu fui casado com seis. As outras não sei nem quantas foram, neto nem bisneto, ninguém sabe contar, mas tataraneto é só um, que mora em Candeias", enumera. Tendo passado a infância em Candeias, Martim, como gosta de ser chamado, caiu no mundo aos 13 anos. A mãe enviuvara, logo arranjou marido e ele, como não foi com a cara do padrasto, seguiu o "rumo da venta", indo para Salvador e trabalhando em várias cidades do recôncavo baiano depois. Já foi açougueiro, servente de pedreiro, trabalhador de engenho, de usina. "Tudo eu olhava e aprendia ", confessa.

Cabrochas e boemia

Mas se no campo das profissões nunca lhe faltou trabalho nas rodas de samba do recôncavo e da capital foi bamba. Com a mesma freqüência que tocou viola e pandeiro, traçou as cabrochas que lhe apareceram pela frente. Meu canarinho/que cantou na bananeira/Minha gente vamo embora/Que amanhã é segunda-feira", cantarola em ritmo de samba-de-roda. "Meu esporte era samba, viola e mulher", evoca, "ah, e trabalho também", completa o malandro. Na década de 20, a Rádio Sociedade chegou a abordá-lo para que gravasse um dos seus sambas mas "você foi lá? Nem eu!", gargalha, bonachão, na sala de sua modesta casa, na Avenida Voluntários da Pátria, no Lobato, em frente à linha do trem.

Uma das cenas mais belas de se ver é quando mestre capoeirista faz o jogo de facão, que aprendeu "rapazinho", aos 16 anos. Arte afro-marcial pura. Nas rodas em que coreografa esta espécie de reza de fação, o público entoa: "Meu canarinho/quem te trouxe nessa terra?/ Foi a prima dessa viola/Foi a filha dessa donzela/E adeus Cazumbá/ E você, como tá?". No ritmo, ele vai dançando, levanta uma perna e cruza as armas por baixo, faz o mesmo no lado esquerdo do quadril, do direito, na altura da testa, e cruza por fim os facões nas costas, no pé da coluna.

Lendas antigas

Mas se no presente Martim ainda trabalha, afastando o idoso conceito de que velho é sempre um ente improdutivo (tem uma roça em Mapele, distrito de Simões Filho, onde pessoalmente planta e colhe o que vende), suas memórias e crenças testemunham o imaginário em extinção das lendas brasileiras. Afirma não ter visto ("e eu sou besta de ficar pra ver? ") mas tem certeza de que havia em Candeias e imediações lobisomem e mula-de-padre (mais conhecida como mula-sem-cabeça). "Tinha o lubisome branco e o preto. Eu trabalhava em um açougue e quando cortava carne de boi no cepo, de dia, a noite ele vinha comer os restos", relembra. Já a mulher de padre, "era uma mulher que teve um caso com o padre Antônio, que me batizou, lá em Candeias. A mula, diz que dava uma mijada daqui pra lá, no alto das árvores, acabando com tudo. Diz que quando ela passava de longe se ouvia os balangandãs dos ferros, que ela tinha amarrada. Aí para não ser visto tinha que esconder unha do pé e da mão, enfiando na terra, aí ela passava longe", conta.

No meio da entrevista, seu Martim é interrompido. Um rapaz chega de boné em sua porta e pergunta: "Seu Martim, o senhor vende essas telhas que tão aí? "Vendo. Tem umas oitocentas aí, porque eu troquei por Eternit", explica o feirante. "Um rapaz vendeu 500 por R$15 e essas aí tão velhas...", argumenta o moço, como quem não quer nada. Seu Martim replica: "Você sabia que tem coisa velha que é melhor que coisa nova? Aí é só limpar. Não tá vendo você, muderno assim? Eu tô cinco anos doente, se não fosse isso nós ia se ispaiá no terreiro", gargalha ele.

Nos tempos de novo, Martim era chegado no barulho, como ele chama as confusões em que a navalha e a peixeira se cruzavam ou caíam por terra, derrubadas nos truques da capoeira angola ou na bala mesmo. Foi aluno do mais lendário dos capoeiristas baianos, Besouro, quando morou na quase mítica Maracangalha. "Besourinho de Ouro gostava do barulho, batia em cinco, seis home, gostava de brigar, agora só com polícia. Uma vez nós tava na feira, em Maracangalha, quando ele disse: "Chegou uns polícia aqui, saia daqui porque você não sabe o salto''. Foi morto depois, na traição", relata. "A vida é grande, rapaz, é muita história, agora eu já não posso mais beber mas tô aqui. Tô quereno ver se tiro os dente agora pra botar uma dentadura, pra ver se arranjo aí alguma mulher...", finaliza o centenário feirante, de bom humor com a vida e candidato a Dom Juan.



Matéria 02

A vida é como uma roda

 

Por Carmen Vasconcelos

CORREIO DA BAHIA

10 de outubro de 2000

Dizem os mais antigos que filho de peixe, peixinho é. E sendo assim, no dia 23 de janeiro de 1936, dona Maria Pequena Malvadeza, capoeirista famosa nas vizinhanças da pequena localidade de Passagem do Teixeira, no recôncavo baiano, e mulher do também capoeirista José Martins dos Santos, o José da Pemba, botavam no mundo o pequeno Jaime Martins dos Santos. Neto de Pedro Virício Curió e detentor da herança de Besouro de Santo Amaro, Jaime (ou Curiozinho, como era mais conhecido pelos amigos e parentes) desde muito cedo percebeu que a vida é como uma roda: para ficar até o fim do jogo é preciso ter ginga, malícia, força, esperteza, inteligência, bravura e respeito. Às características familiares foi acrescida a experiência de uma lenda da capoeira: mestre Pastinha.

 

Assim como no jogo, a vida também deu muita rasteira no pequeno Curió. Logo cedo sua mãe faleceu e seu pai casou-se mais uma vez, transferindo-se definitivamente para Salvador. A convivência com a madrasta era difícil. Havia o despeito com o filho da outra e, aos 7 anos de idade, Curiozinho fugiu de casa. Para conseguir se sustentar, o capoeirinha trabalhava como vendedor de balas e de mingau. A vida da rua era dura e o menino foi internado numa instituição para correção de menores. Dessa época, Curió lembra das surras e do fato de não ter se tornado bandido porque - segundo ele - Deus não quis. Numa das fugas organizadas pelos meninos maiores, Jaime decidiu voltar para a casa e mudar de vida. O retorno ao lar paterno não foi bem recebido e, motivado por mais uma surra, Jaime fugiu novamente. Nas ruas, o menino conhecia pessoas e fazia visitas à cidade dos seus avós, passeando por diversas localidades do recôncavo.

A vivacidade no olhar da criança, o jeito meigo e a rapidez em aprender fizeram com que Jaime fosse se empregar em casa de família. Na residência do juiz Elieser Baleeiro, Curiozinho começou a se educar e foi batizado. Mais tarde, na casa dos Prado Barreto, o rapaz teve uma educação formal e começou a despertar para uma das suas vocações: a culinária. Por gostar de comer e ser muito observador, em pouco tempo o garoto começou a dar provas do seu talento na cozinha. As aptidões de Jaime não passaram despercebidas pelos donos da casa, que lhe conseguiram um emprego como servente no Hotel da Bahia. Em pouco tempo, Jaime foi ascendendo na profissão e conheceu as atividades de ajudante de açougue, de padeiro, de cozinha, cozinheiro e, finalmente, chefe de cozinha.

 

Herança legendária

 

O espírito aguerrido do rapaz não o afastou da herança dos antepassados e, enquanto se aperfeiçoava na cozinha, Jaime foi crescendo na capoeira sob a orientação do lendário mestre Pastinha. Mas a "vadiagem" (como os mais velhos chamavam a capoeira) não era a única arte marcial a encantar Curió e assim o capoeirista começou a treinar caratê (onde permaneceu por 18 anos), boxe (durante 12 anos) e luta livre. "Todo o meu tempo era ocupado com inúmeras atividades, nunca parava, nunca tinha tempo sobrando para ficar pensando besteira", lembra Jaime Martins dos Santos.

A voz mansa e o jeito calmo não escondiam a bravura do jovem e, como todo bom capoeira, por inúmeras vezes o mestre Curió teve que dar golpes de esquiva na morte. Uma dessas situações aconteceu no município de Candeias. Solicitado para preparar o banquete de um casamento, o então chefe de cozinha só conseguiu receber a primeira metade do valor do serviço. Quando foi cobrar do cliente a segunda parte do que lhe era devido, Curió foi agredido verbalmente e chamado de negro atrevido e descarado. "Naquela época não levava desaforo para casa e parti para a briga", relembra. Revoltado, o mau pagador resolveu apelar para a covardia e chamou algumas pessoas para "dar cabo" do cozinheiro. Apesar dos 12 tiros que o mestre Curió afirma ter tomado, ele sobreviveu para contar essa história e lembrar com um sorriso maroto as outras tantas bravatas em que já se envolveu.

 

Superando mágoas

 

O tempo foi passando e o mestre Curió foi ganhando maturidade para superar as dificuldades e esquecer as mágoas familiares. Logrando a dor do passado e encarando o futuro com força e vontade, Curió fez as pazes com o pai, que continua vivo e mercando na Feira de São Joaquim. O perdão foi estendido também aos que perseguiram o mestre na sua carreira como cozinheiro. "Eu ia muito bem no trabalho até que descobriam que eu jogava capoeira e me demitiam", relembra o mestre. No seu último emprego, na cozinha da Pellikan, o chefe inclusive lhe falou claramente que o cozinheiro não precisava de emprego, pois vivia viajando de avião para apresentar a capoeira no mundo e era famoso, já que desde os 22 anos de idade saía na capa de jornal e revista.

Cansado de tanta hipocrisia, o mestre Curió decidiu que viveria só de capoeira e que dedicaria os seus dias a seguir os ensinamentos dos seus antepassados e do seu mestre. Pai de 21 filhos e vivendo com sua terceira mulher, a ex-ajudante de cozinha Joana Pereira, hoje Curió dá aulas de capoeira na Escola de Capoeira Angola Irmãos Gêmeos do Mestre Curió, na Escola Mestre Pastinha (ambas no Pelourinho), nas oficinas do Ara Ketu e ensina gratuitamente na comunidade de Colina do Mar, em Paripe.

Na capoeira, o pequeno Jaime Martins dos Santos contou com inúmeros mestres. Primeiro foi o pai e o avô, depois Curiozinho foi aprender com o melhor e deixou-se levar pelos ensinamentos de Pastinha. O respeito e o amor ao mestre fizeram com que Curió - junto com o colega Papo Amarelo - mantivesse a academia próximo à Ladeira do Ferrão funcionando até não restar mais aluno. Foi Curió também quem ajudou a esposa de Pastinha a conseguir recursos para cuidar do mestre no Abrigo D. Pedro II, até a sua morte.


2006 - Ano Internacional da Mulher Capoeirista no Jornal do Capoeira




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